Testes de condição física em ginásios

O problema não está nos testes de avaliação da condição física, mas sim naquilo que fazemos com os seus resultados.

Com a ânsia do exercício por medida, lançamo-nos na busca de instrumentos que classifiquem os clientes para, em função disso, prescrevermos exercício físico. Usamos até a palavra anamnese mais utilizada por médicos e psicólogos, a fim de obter mais credibilidade no processo de realização de testes de condição física.

Realizam-se testes que têm vindo a generalizar-se nos ginásios para determinar a condição inicial dos indivíduos que começam um programa de exercício físico. Para dar uma imagem mais profissional e depois, ironicamente, evitar que os participantes registem diariamente o seu progresso e também permitirem, em muitos casos, ser uma forma dos ginásios obterem mais algum dinheiro dos seus clientes, promovendo a aquisição de serviços de treino personalizado.

Durante anos fui completamente fanático por testes de condição física. Comecei a realiza-los sem grande equipamento. Era uma preocupação constante. Tentava encontrar protocolos ideais para as populações com as quais trabalhava nos ginásios. Embora fosse pouco prático e realista, não falhava uma palestra sobre o assunto e questionava todos os médicos e profissionais do exercício para obter as respostas definitivas.

Com o tempo verifiquei que os testes não serviam muito bem o meu propósito. Pretendia fazer uma triagem dos indivíduos que chegavam à minha sala de musculação. Queria ter valores como ponto de partida para escolher as cargas com as quais eles iam trabalhar nos meses seguintes. Mas, se o primeiro objectivo era conseguido, a situação das cargas era uma história completamente diferente. Tinha uma tremenda preocupação de quantificar, de seguir as normas do American College of Sports Medicin – ACSM, da National Strength and Conditioning Association, do American Council on Exercise, por serem as grandes organizações mundiais de referência. Por outro lado, queria sentir-me seguro.

Os objectivos dos testes de condição física são (ACSM,2009):

  • Obter dados que sejam úteis para efectuar prescrições de exercício.
  • Recolher dados que sirvam como ponto de partida e uma forma de acompanhar o progresso por parte dos participantes nos programas de exercício físico.
  • Motivar os participantes, estabelecendo objectivos em termos de condição física, razoáveis e possíveis de conseguir.
  • Educar os participantes acerca dos conceitos de condição física e estado individual de condição física.
  • Estratificação de risco.

Tais testes poderiam incluir uma anamnese, ou seja, uma entrevista inicial para estabelecer um diagnóstico inicial, um ponto de partida. Assim se conseguiria uma estratificação de risco para melhor programar e prescrever as actividades. Obter um historial médico, um conhecimento sobre as necessidades pessoais, sobre as crenças em relação à actividade física e indústria do fitness em geral, a forma como reagem ao stress colocado pelo exercício e pelo seu dia-a-dia, bem como o tipo de apoio social de que dispõem, seria uma forma de começar.

Foto de um nu feminino, cerca do ano 1900, cuja relação cintura-anca se aproxima do "ideal" 0,7.

Depois, poderíamos analisar a composição corporal do indivíduo (medição de pregas cutâneas, métodos antropométricos como o Indíce de Massa Corporal – IMC ou medição dos perímetros anca/cintura e/ou circunferências, bioimpedância, infravermelhos, bodpod, etc.).

Seguidamente poderíamos realizar uma avaliação da endurance cardiorespiratória de forma máxima ou sub-máxima. Os protocolos são vários, utilizam diferentes instrumentos (bicicleta, steps, passadeiras…), baseiam-se na leitura da frequência cardíaca, na sua relação linear com o consumo de oxigénio e por vezes têm em conta a escala de esforço percebido de Borg. Protocolos Bruce, YMCA, Astrand, Conconi, são alguns dos mais utilizados.

Finalmente avaliaríamos a condição muscular: força, endurance e flexibilidade, através de testes de flexões de braços, abdominais, flexões de pernas, movimentos realizados em máquinas de musculação ou com a utilização de dinamómetros.

Os primeiros testes de condição física que efectuei no início dos anos 90, consistiam num questionário de saúde e hábitos de exercício, Índice de Massa Corporal – IMC, relação cintura/anca e mais tarde incluí a medição de duas pregas cutâneas (abdominal e tricipital), um teste de step com um metrónomo para avaliar a endurance cardiorespiratória, flexões de braços modificadas para a força muscular e o teste de flexibilidade de sentar e alcançar. Tardavam cerca de 30 minutos. Apesar de ter originado uma forma de melhor organizar as actividades, levando ao sistema de marcações das primeiras sessões de treino que melhorou significativamente o serviço prestado, denotavam alguns problemas de objectividade que ainda hoje subsistem.

Os problemas da avaliação da condição física

Nas centenas de testes de condição física que efectuei em ambiente de ginásio, surgiram inúmeros desafios que colocaram e colocam em causa a forma como são realizados e principalmente utilizados os testes de condição física.

A palavra avaliação é a primeira barreira intimidatória. Num ambiente de ginásio intitulado como recreativo, onde as pessoas pagam sobretudo pelo acesso às instalações, é-lhes apresentada uma avaliação, um conjunto de testes. Por um lado poderá ser visto como um teste médico de elevada reputação, tendo como consequência depois a exigência de um resultado de elevado rigor científico.  Por outro lado, poderá ser visto como uma forma de classificar, delimitar o estado em que o indivíduo se encontra. Esta perspectiva, na maioria dos casos não se apresenta muito positiva devido ao estado em que a população geral se encontra. Podendo ter consequências negativas na percepção com que as pessoas ficam do seu estado físico inicial.

Se o tempo dispensado na primeira avaliação da condição física poderá ser muito útil para efectuar uma triagem inicial dos participantes. Por outro lado, as reavaliações constantes para mudar o programa de exercícios, já é de utilidade duvidosa. Se cada pessoa tiver de mudar um programa de treino a cada 2 meses, será necessário ter um profissional exclusivamente dedicado a efectuar testes de condição física aos clientes durante todo o dia de funcionamento do ginásio. Isto num local com uns 400 ou 500 sócios, pois se tiver mais utilizadores o problema agrava-se.

Se necessitamos de testes para verificar o progresso do sócio, isso significa que não há um registo de treino diário, transformando a avaliação da condição física na única forma de verificar a evolução ou não do sócio com o seu programa de treino específico. Com um bom registo de treino já não achamos tão útil a realização de outra avaliação da condição física com testes e mais testes.

Os testes, a avaliação, implicam rotular as pessoas de acordo com os resultados obtidos e as tabelas existentes. Ao nível da condição física, a maioria das tabelas de referência são de populações americanas. Classificar as pessoas, comparando-as com outras piores é uma coisa, mas quando as comparamos com pessoas melhores e melhores valores de referência, podemos vir a ter de rotular os novos clientes como “obesos mórbidos”, “fracos”, “muito fracos”. O ideal é que as cargas utilizadas no primeiro mês de treino sirvam como referência para o aluno se comparar consigo próprio em situações futuras. Bastante útil quando regressam de férias, quando se lesionam, quando estiveram doentes, quando deixaram de treinar num período de tempo mais prolongado. Mais tarde, quando a confiança aumentar, e se o aluno o desejar, poderá comparar os seus valores aos de outros indivíduos. Embora a partir do momento que inicie o processo de treino, essa comparação seja inevitável ao treinar ao lado de outros sócios do ginásio.

Alguns métodos de medição da percentagem de gordura implicam que as pessoas se dispam e não é fácil criar uma situação neutra que agrade à grande maioria das pessoas. É constrangedor pedir a alguém que não nos conhece que venha de bikini na segunda sessão de treino. A forma como se pede, torna-se importante, a explicação do porquê, ainda mais. São situações delicadas que, num universo grande de sócios, podem ser evitadas, utilizando numa fase inicial métodos de avaliação da composição corporal como a bio-impedância (que embora não seja o mais fiável, poderá dar algumas indicações).

Os testes que realizamos implicam aprender a fazer os exercícios e o componente técnico vai influenciar os resultados obtidos nos testes. Os testes serão sempre uma situação de tentativa e erro na descoberta do nível de força ou resistência que o indivíduo demonstra em determinado exercício, em determinada máquina. Afinal o que necessitamos é conhecer a carga inicial para ensinar um exercício. Chamemos-lhe teste ou não, tentativa e erro. Obviamente que, quanto mais utilizadores passarem pelo nosso ginásio a utilizar os nossos equipamentos, mais facilmente acertamos nas cargas iniciais a utilizar nas diversas máquinas.

As primeiras sessões são de aprendizagem e introdução ao exercício. Coisas simples mas que permitam ao aluno obter resultados e ir conquistando alguma autonomia. Dizer ao aluno como se faz e deixar que ele o faça, que mexa nas máquinas, que seleccione as cargas, que realize os ajustamentos, etc, a fim de conseguir quatro objectivos importantes das primeiras sessões de treino:

  • simples
  • aprendizagem progressiva
  • baixa intensidade
  • atenção redobrada

Proposta para as primeiras sessões de treino

Em vez de centrar tanta atenção numa grande sessão de avaliação da condição física, apresenta-se aqui uma proposta para organizar as primeiras sessões de treino com 3 sessões de treino personalizado ou numa situação de um professor para 2 alunos.

Sessão 1 (orientação/cárdio)

  • Entrevista e preenchimento do questionário (exemplo de questionário).
  • Medição da pressão sanguínea
  • Estratificação de risco.
  • Estabelecer uma zona alvo de treino entre 60 a 90% da frequência cardíaca máxima (220-idade)
  • Cárdio: o objectivo será encontrar o nível de exigência da máquina que leve a frequência cardíaca a estabilizar na zona alvo de treino definida.

Sessão 2 (cárdio e metade do programa de musculação)

  • O aluno conhecendo o equipamento cárdio, realiza um tempo de exercício em função daquilo que realizou na primeira sessão de treino e em função daquilo que ele acha ser capaz de realizar. Sempre com o objectivo de se aproximar de 20 minutos (um tempo de treino que equilibra o tempo necessário de estímulo com os constrangimentos de espaço e equipamentos de todos os ginásios).
  • Seguidamente, na hora marcada, o professor realiza o reconhecimento de metade dos exercícios que constituirão o programa de musculação.

Sessão 3 (cárdio e a outra metade do programa de musculação)

  • O aluno conhecendo o equipamento cárdio, realiza um tempo de exercício em função daquilo que realizou na segunda sessão de treino e em função daquilo que ele acha ser capaz de realizar. Sempre com o objectivo de se aproximar de 20 minutos (um tempo de treino que equilibra o tempo necessário de estímulo com os constrangimentos de espaço e equipamentos de todos os ginásios).
  • Seguidamente, na hora marcada, o professor realiza o reconhecimento da outra metade dos exercícios que constituirão o programa de musculação.

Nas primeiras sessões de treino o professor ensina sobre:

  • a aplicação do princípio de sobrecarga e da acção retardada,
  • a técnica do exercício cárdio escolhido,
  • a zona alvo de treino e escala de percepção de esforço (Escala de Borg),
  • importância de alguns hábitos alimentares e de estilo de vida,
  • respiração (a não utilização de chicletes) e velocidade de execução na musculação,
  • informar sobre dores musculares,
  • utilização do registo de treino,
  • técnicas de execução específicas dos exercícios e alguns princípios de segurança na utilização do equipamento e do ginásio.

Conseguimos com esta organização cumprir os objectivos da avaliação física acima mencionados. Obter dados úteis para efectuar a prescrição do treino através do questionário, da entrevista e da primeira sessão cárdio, obtendo assim um ponto de partida para ir traçando pequenos objectivos nas futuras sessões de treino.

Tendo um registo de treino diário, a leitura directa dos valores, facilita o controlo do progresso nos vários exercícios, permitindo estabelecer objectivos específicos e motivar os alunos.

Tendo a preocupação de ensinar além das técnicas de exercício, a forma de controlar o esforço com a frequência cardíaca e a escala de esforço, os princípios de treino de sobrecarga e acção retardada, contribuímos para educar os nossos alunos e para que estes adquiram alguma autonomia.

Conhecer a tolerância ao esforço e a real aptidão do indivíduo de acordo com os desafios físicos progressivos que lhe vão sendo colocados.

Comentário final

Se não conseguimos medir a força de um indivíduo, então não podemos definir força.

Arthur Jones

Como profissionais de actividade física, iremos sempre correr riscos que não serão eliminados por uma exame médico ou por seguirmos as normas das grandes organizações de medicina desportiva e exercício. No entanto, com algum bom senso, uma boa triagem inicial de clientes e um aumento progressivo da intensidade de treino após um tempo de conhecimento aprofundado dos alunos ao longo do processo de treino (observando a forma como este reage ao esforço), irá por certo fazer com que o risco se reduza e a confiança no nosso trabalho aumente.

Assumindo que o exercício físico implica esforço, significa submeter o corpo a uma exigência à qual não está habituado, suportados pelos sinais de esforço, na triagem, no apoio médico e no conhecimento do indivíduo ao longo do processo de treino, da forma como reage ao stress do treino, ao estímulo.

Um controlo dos sinais de esforço, um questionário cuidadoso ao aluno, a combinação entre a leitura da frequência cardíaca e a real percepção de esforço dos alunos, fará uma forte ponte entre o ideal e o real, entre a teoria e a práctica. E mais uma vez chamo à atenção de todos os profissionais para a necessidade de tratar os alunos como pessoas e não se limitarem a prescrever exercício.

Mais importante do que escolher uma bateria de testes, é criar empatia com o cliente, realizar uma boa entrevista/bom questionário e traçar o perfil de risco, para depois nos centrarmos nas primeiras sessões de treino como as mais importantes no processo de integração do sócio e de iniciação ou retoma da actividade física no contexto específico dos ginásios.

Ao escolher um protocolo de avaliação da condição física devemos seleccionar movimentos simples e testes rápidos, eficazes, que sejam o menos intimidatórios possível e mais integradores dos novos sócios.

Como gostaríamos de iniciar a nossa participação numa nova actividade? Pensemos nisso e a nossa abordagem para com os novos sócios terá uma atitude mais informal e integradora, diluindo os processos formais de estratificação e obtenção de dados para prescrição de uma forma mais agradável para o cliente.

Referencias Bibliográficas

ACSM (2009). ACSM’s Resource Manual for Guidelines for Exercise Testing and Prescription, 6th ed. Lippincott Williams & Wilkins

11 Replies to “Testes de condição física em ginásios”

  1. Um texto muito bom e que foca aspectos importantes na relação entre “professor” e “aluno” se assim lhe quizermos chamar. Obrigada pela partilha.

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