Mais um corta-mato distrital em Chaves

O corta-mato não é das minhas provas favoritas. Gosto de correr e de incentivar os meus alunos a fazer o mesmo. No início, quando cheguei à região de Chaves, havia gente que não percebia o ênfase que eu dava à condição física nas minhas aulas. Os alunos a correr 1600m ou 10minutos todas as aulas, burpees, agachamentos, flexões de braços e abdominais no final, eram sempre conteúdos obrigatórios. A princípio aparecem as dores musculares, dizem que é tropa, apelidam o professor de tudo sem compreenderem os tempos que vivemos, onde o sedentarismo é a causa de morte número um em todo o mundo, a condição física permite-nos uma boa postura, permite rematar forte, passar muitas vezes sem nos cansarmos tão cedo, permite chegar onde os outros não chegam, permite manter ausência de lesão em condições difíceis, permite efectuar movimentos mais difíceis na ginástica, etc.

É também uma forma quantificável de ter intensidade de treino nas aulas de educação física de forma que sejam os próprios alunos a controlar os seus descansos, mas tendo sempre objectivos específicos a cumprir.

Os alunos compreendem melhor a forma de funcionamento das suas estruturas musculares e articulares, percebem a diferença entre trabalhar com intensidade e estar apenas de corpo presente. Sentem dores musculares quando fazem algo ao qual não estão habituados e vão aprendendo a elaborar o seu próprio programa de treino.

Com a obtenção de benefícios que advêm do respeito dos princípios de treino, da intensidade, da regularidade, do entendimento da utilidade do sono, da ingestão de água e nutrição apropriadas, conseguem no seu dia-a-dia sentir mais energia, melhoria no seu estado de humor, melhor auto-estima em idade de muitas dúvidas e complexos com o corpo, melhor rendimento escolar e desportivo fora da escola.

Para que se obtenham benefícios da actividade física, quer seja na escola quer seja fora dela, há um mínimo de intensidade que deverá estar presente, há um mínimo de regularidade que deverá existir para começar a apelidar a actividade física de exercício físico.

Como professores sentimo-nos orgulhosos quando os alunos adquirem novos hábitos e um estilo de vida saudável. Sim, porque os programas de educação física escolar estão muito mais preocupados com os conteúdos das modalidades mais populares e pouco preocupados em fazer com que à saída do ensino básico um aluno saiba: comer melhor, conheça a importância do sono na regeneração do corpo, saiba elaborar o seu próprio programa de treino básico e levá-lo à prática com um mínimo de correcção técnica. Parece-me que falta dar mais ênfase a esta situação. Falta que os alunos percebam os benefícios de treinar com intensidade suficiente para conseguirem resultados. É necessário que deixem o ensino básico com algo, em vez de passarem vários anos a abordar superficialmente técnicas de basquetebol, andebol e outras modalidades, sem que no final, consigam pelo menos passar e atirar a bola ao alvo com 50% de eficácia. É necessário que saibam estar na bancada, que entendam melhor a função dos árbitros e percebam de uma vez por todas que, numa equipa, pelo erro de um paga a equipa toda. Todo o transfer que exista destas competências para a sociedade, é actualmente uma miragem. Impera o individualismo, a incapacidade de trabalhar em projectos, a falta de produtividade e uma constante atitude de 50%.

Nestes corta-matos, provas politicamente impactantes, de elevada visibilidade, apresentam-se sempre os mesmos alunos e professores. Ao contrário daquilo que parece (um evento de massas de participação voluntária), o corta-mato é obrigatório para as escolas que participam no desporto escolar. Parece uma contradição: por um lado a falta de exigência, a incompreensão para os conteúdos que trabalham a base de condição física para estas provas e, por outro lado, a obrigatoriedade de uma prova de elevada exigência. Ao nível escolar, fica ao critério dos professores preparar ou não os alunos para o evento do corta-mato dentro de cada escola. Verificamos depois alguns alunos que, por ansiedade, por nunca terem competido, se sentem pressionados a fazer algo para o qual não estão minimamente preparados. Sim, porque não é fácil para quem não corre 2 ou 3 vezes por semana a 70 ou 80% do máximo, realizar um corta-mato escolar.

Mas quando todos os alunos realizam trabalho de condição física de forma regular, quando têm alguma intensidade de treino, apresentam-se nestas provas para se superarem ao lado de gente que não conhecem, testando verdadeiramente as suas capacidades. Trazendo já a noção do que é dar o seu melhor, do que é ter a pulsação próxima dos limites, do que é uma frequência ventilatória muito aumentada, do que são dores musculares, do que são as dificuldades de cair e levantar-se da lama, do que é o ambiente pré-competitivo e todo o relacionamento social e exposição perante o público. Assim, retiram muito mais proveito da actividade e conseguem na maioria dos casos bater os seus melhores tempos, surpreender-se a si próprios e serem muitas vezes chamados ao podium.

Os professores vêem assim parte do seu trabalho recompensado, depois de terem conseguido alunos substitutos à última da hora com equipamentos emprestados, depois de convencerem a aluna B a ir porque a aluna A também vai, depois de todo o stress de obter autorizações de encarregados de educação de todos os alunos, mesmo daqueles que se esqueceram à última da hora, depois de acordarem alunos que não despertaram a horas, depois de cuidarem de todos eles como se fossem seus filhos, vêem assim coroado o seu esforço.

Como professores ficamos sobretudo satisfeitos quando os alunos conseguem ir a uma prova e controlar o seu estado de ansiedade pré-competitiva, libertando de forma progressiva o seu stress, percebendo que afinal até podem controlar algo na sua participação: o seu próprio desempenho. Deixando assim de se centrarem naquilo que não controlam e passando a centrar-se nas suas próprias acções. É giro de ver e é bom poder ajudar. Quase sempre chegam surpreendidos e compreendem neste momento o efeito do trabalho das aulas, dos sermões do professor sobre tabaco, sono e alimentação, dos trabalhos de casa (corriditas, burpees, agachamentos e afins). Sentem-se poderosos e depois da fase de recuperação ficam atónitos como conseguiram superar as suas expectativas subindo ao podium, quando minutos antes diziam: “- Não vou chegar ao fim! – É muito comprida a pista! – O piso está escorregadio! – Tem ali umas que devem fazer atletismo! – Nós não temos hipóteses!” É aqui que se deixa a marca da educação física para o que resta de vida escolar mas sobretudo para o resto da vida. Memórias que não se apagam, mas sobretudo aprendizagens que ficam e ensinam os alunos a vencer obstáculos muito mais difíceis do que correr um corta-mato.

Neste corta-mato ao ver alunos e alunas que trabalharam comigo, sinto-me algo realizado neste sistema de ensino de frequência, libertando parte da revolta que vai cá dentro, depois de lutas sem fim para EDUCAR os alunos contra partes de um sistema cada vez menos oleado. Venceram algumas ideias, alguns valores, alguns princípios cujo verdadeiro termómetro será o futuro.

Continuamos nesta aventura com os amigos professores! 🙂

4 Replies to “Mais um corta-mato distrital em Chaves”

  1. Bom , assim é ser professor de educação física a sério, outros, vão ocupar os alunos com uns exercícios da praxe, só para ocupar o horário. Fui toda a vida um bom desportista, mas as bases que deveriam ser nas aulas de educação física não o foram. As aulas eram uma macacada com uns exercícios no ginásio, maçadores e pouco motivadores. Tive um professor de educação física em Moçambique, Prata Dias, que nas aulas deixávanos sózinhos a jogar à bola e ia dar aulas de ténis fora do Liceu. Nunca explicou nada sobre futebol, nós éramos autodidactas, vários faziam parte da selecção de futebol do liceu. Isto passou-se nos anos 70. As bases são importantes na escola, noções de flexibidade, exercícios aeróbios, anaérobios, musculação, desporto em geral, específico para os talentosos. Procurar descobrir alunos com potencialidades a futuros atletas. Pratiquei natação, futebol em Moçambique, e mais tarde viciei-me 30 anos no atetismo de fundo, e aí fiz todos esforços possíveis por gosta á modalidade, até ser obrigado a parar por ter contraído uma fibrilhação auricular, uma arritmia chata, que pode dar AVC. Mas valeu a pena, pois tenho a arritmia mais ou menos controlada, e mantenho-me muito bem fisícamente, pois socorro-me de exercícios de preparação militar, no qual fui instrutor, em Moçambique na guerra colonial durante 4 anos.

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  2. Muito bom Paulo e que recordações…

    Lembro-me no 2º ano do ciclo preparatório, onde fiquei em 38º da regional, ainda nos primeiros passos do meu atletismo! 🙂

    Deixo uma dica aos teus alunos: persistência e com o um professor assim de certo teria sido o número 1! 🙂

    Um grande abraço meu amigo e super PT

    Alexandre

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  3. Olá,
    Acho que é a primeira vez que leio um artigo seu sobre ensino, e mais uma vez fico supreendido pela positiva e orgulhoso de ainda haver professores a sério que prezam realmente a profissão…
    Força Paulo, aos poucos pode ser que as coisas mudem… parabéns.
    Cumprimentos

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