A febre do Crossfit em Portugal

O crossfit é uma fantástica metodologia de treino que combina o melhor de 3 mundos: levantamento de pesos, elementos gímnicos (trabalho com o peso do corpo) e os melhores movimentos de endurance. Tudo isto combinado de forma variada em treinos de alta intensidade. Por respeitar os princípios do treino (pelo menos na sua versão original), os resultados estão garantidos para quem quer melhorar performance desportiva, perder peso, aumentar de massa muscular ou melhorar condição física e saúde em geral. Mas para tal, terá de respeitar o seu corpo e não desatar a competir precocemente nos inúmeros eventos que já se realizam no nosso país e pelo mundo fora. Como diz o ditado: a pressa é inimiga da perfeição.

A metodologia crossfit também é publicamente anunciada como um sistema “open source” fitness. Ou seja, um sistema aberto ao contrário das marcas de aulas pré-coreografadas que costumamos encontrar nos ginásios. Podemos por isso criar como muitos já faziam, inúmeras combinações dos melhores movimentos e intitularmo-nos de crossfitters.

Por volta de 2010, a Reebok, embora fosse uma das maiores marcas fornecedoras de equipamentos para ginásios, nunca tinha assumido uma metodologia de treino (e podia perfeitamente fazê-lo e quase ter um monopólio de intervenção em aulas de grupo), associa-se à marca crossfit.

No seu livro tribos, o guru do marketing Seth Godin, apresenta o Crossfit como um exemplo de uma tribo. Para esse mesmo autor uma tribo é definida como um grupo de pessoas ligadas entre si, ligadas a um líder e ligadas a uma ideia. Durante milhões de anos, os seres humanos fizeram parte de uma ou outra tribo. E refere ainda que um grupo necessita apenas de duas coisas para ser uma tribo: um interesse partilhado e uma forma de comunicar. A forma de comunicar que o crossfit encontrou foram os blogues.

Atualmente são quase 10000 boxes em todo o mundo e segundo a revista Inc, Glassman previa em 2013 ter um valor estimado em todo o sistema de afiliados entre 1,5 e 2 biliões de dólares americanos. Numa indústria do fitness que nos EUA tem tido um reduzido crescimento desde 2006, registando mesmo um retrocesso há dois anos atrás (IHRSA, 2014).

Tudo que necessitamos para abrir uma box oficial (pois nada nos impede de utilizarmos a metodologia de treino sem termos de ter um espaço de marca registada) é no fundo um seminário de um fim-de-semana que custa $1,000, uma redação e $3,000 annual affiliate fee para utilizar a marca (ver crossfit.com). E isso facilita a proliferação de tantas “caixas” pequenas e grandes por todo o lado. Podemos abrir um espaço destes em frente a outro do mesmo género sem problema algum com a marca. Não é um franchising.

As certificações nível 1, são uma das principais fontes de rendimento do CrossFit onde podem estar cerca de 50 inscritos (50,000 USD) e 5 ou 6 treinadores. E para ser realista, não há nenhum controlo de qualidade do trabalho desenvolvido nas diversas boxes. Nada tem a ver com um controlo de qualidade de um McDonalds, por exemplo.

Em Portugal em cerca de 3 anos passamos de uma “caixa” (box é a designação habitual de um ginásio de crossfit) para 36 boxes crossfit, de 2 instrutores certificados para 278. É um aumento impressionante. No entanto, isso traz algumas preocupações em termos de segurança, em termos comerciais e em termos de imagem para a indústria do fitness em geral.

Embora muitos optem por usar a marca que facilita em termos de comunicação para o mercado que a reconhece (não para os restantes mortais que mal sabem o que se passa dentro de um ginásio), outros mantêm-se independentes, mas desenvolvem o mesmo tipo de atividade.

As pessoas esqueceram que o crossfit se intitula “open source” fitness, mas a abordagem tem sido muito restrita, competitiva, esquecendo a natação, esquecendo outras faixas etárias que não o tradicional grupo utilizador de ginásios dos 20 aos 35 anos de idade. A segmentação melhora a competitividade, mas neste caso, se as boxes não forem mais abertas na sua abordagem, no ambiente social criado, nos preços, na atitude em geral, o público alvo será o mesmo de antes, tendo como resultado a flutuação de clientes de um espaço de fitness para outro, sem aquilo que todos gostaríamos: resultados. Porque resultados = motivação = retenção.

Tenho pena que alguns procurem resumir o crossfit a levantar pesos, misturado com movimentos gímnicos nos quais se destaca o muscle-up como ícone dos movimentos, quando aqui para nós, este é para os ginastas o movimento de subida para as argolas antes de iniciar uma rotina de movimentos combinados. Digamos que: onde uns terminam, os outros começam.

A mentalidade de nunca desistir é muito importante, mas há uma linha ténue que separa a superação, a melhoria de resultados o querer sair da zona de conforto de uma situação de elevado risco de lesão traumática, temporária ou mesmo de rabdomiólise.

Parte do problema reside na atitude perante o esforço, mas outro lado é devido a lacunas técnicas. Temos de recordar que o crossfit deriva da junção do levantamento de pesos, da ginástica e dos melhores movimentos de endurance como correr, remar, nada e andar de bicicleta (embora estes últimos estejam pouco presentes na maioria dos treinos ou WODs). Movimentos como o snatch, um dos melhores em termos de impacto muscular e metabólico para o corpo, é também o mais difícil e os crossfitters não sendo especialistas em halterofilismo, procuram acelerar o processo de aprendizagem e a elevação das cargas demasiado rápida para a eficiencia técnica que possuem.  O facto de serem generalistas coloca-os num patamar de aprendizagem de iniciados quando comparados com halterofilistas ou ginastas que passam inúmeras horas e anos para aprenderem pequenos conjuntos de movimentos.

No curto tempo dos promofitgames, embora não tenha estado presente em toda a duração de todas as finais, vi acidentes que poderiam ter sido muito graves. E inclusivé alguns foram protagonizados pelos melhores atletas do ponto de vista técnico. Mas por vezes a abordagem mais emotiva e menos focada nos levantamentos, levaram a riscos desnecessários, tal como aconteceu em alguns desafios de apuramento onde não havia necessidade por parte de atletas com excelente condição física, verdadeiros craques nacionais fazerem as provas com excesso de velocidade e redução da ampitude de movimento que lhes retirou repetições que seriam deles no final de qualquer modo, caso tivessem imprimido um ritmo ligeiramente mais pausado e mais preocupado com a técnica.

Para sermos treinadores não basta um certificado, é necessária experiência, olho treinado e diversas competências sociais, psicológicas e de comunicação que nos ajudam a mudar o comportamento dos nossos alunos. Os conhecimentos técnicos são uma pequena parte daquilo que se necessita para o bom desempenho do cargo. No crossfit tudo se agrava porque dificilmente seremos especialistas em ginástica, atletismo, halterofilismo, natação, etc. Até aqui tudo bem. O problema surge quando achamos que somos mesmo o especialista generalista e arriscamos demasiado connosco e com os atletas. Quando ouço atletas dizerem que estão a fazer peso morto ao estilo crossfit ou quando pegam num peso do chão e o colocam acima da cabeça fazendo-o viajar a meio metro de proximidade com o corpo durante todo o percurso.

Reparem na técnica usada nos primeiros Games 2007

Comparem as técnicas e deixem a logística de lado.

Só quando as pessoas assumem incompetência de forma consciente é que vão em busca de novos conhecimentos e competências. Até lá não procuram treinadores experientes de remo, de natação, de halterofilismo, de powerlifting ou ginástica que os possam ajudar. Felizmente a formação crossfit parece estar atenta a isso e tem vindo a reforçar publicamente a preocupação com a generalidade da população que o crossfit pode ajudar, incorporando de forma eficaz o exercício físico nas suas vidas.

Alguns treinadores limitam-se a incentivar e na melhor das hipóteses a contar repetições. É preciso fazer muito mais do que isso para substituirmos os guardas de máquinas que tanto abundam nos nossos ginásios. Ler um manual e passar um fim-de-semana a praticar, apenas lança as bases para com humildade desenvolver competências como instrutor de fitness. Digo-o porque nos inúmeros cursos realizados deparo-me com todo o tipo de pessoas, incluindo aquelas que por terem lido um livro, acham que já sabem tudo, que já sabem mais do que apaixonados e estudiosos treinadores de powerlifting com mais de 20 anos na função.

É uma atividade espetacular mas tem de ser adaptada para as massas, sob pena de afugentar os clientes. Isto é um negócio também.

Não podemos cometer o mesmo erro de algumas academias de artes marciais em que andamos todos à pancada e só os mais fortes sobrevivem. Felizmente há as outras onde 80 ou 100 jovens praticam, melhoram e um conjunto mais reduzido e empenhado com bom domínio técnico se apresenta às competições após muito tempo de prática.

Sabemos que apenas se mostra o cume da pirâmide do crossfit, a parte da competição, ficando a parte mais densa e bonita das vidas que se alteram positivamente por efeito do exercício que respeita as leis naturais, os princípios de treino. Faz-me lembrar a forma como o culturismo se espalhou em Portugal. Nos anos 80, se iamos para o ginásio tinhamos o rótulo de culturistas consumidores de drogas. Parecia que todos queriam competir.

Gosto imenso da metodologia crossfit, porque tira as pessoas da zona de conforto, porque se baseia no princípio de sobrecarga e porque na sua versão original foi buscar o melhor de vários desportos. Talvez a ideia de se tornar um desporto por si só e a pressão comercial não tenha contribuído para uma evolução mais equilibrada. E como em Portugal a maioria das pessoas só conheceu a atividade nesta fase, a imagem que colheu foi a da alta-competição, que assusta muitas mulheres e muitas das pessoas que mais necessitam de reduzir gordura, de melhorar condição física e saúde.

Ainda vamos a tempo de retificar atitudes, ambientes, formas de comercialização e comunicação de uma atividade que muitos de nós ligados ao desporto sempre efetuaram ainda que sem rótulo. Mas para tal, é necessária mais humildade, vontade de aprender, de melhorar, é necessária mais moderação na abordagem aos desafios, melhor adequação às diferentes pessoas que procuram iniciar a atividade. A força é igual à massa vezes a aceleração, logo, não é recomendável colocar pessoas iniciadas a fazer saltos sem terem uma forte base de agachamento com carga, kipping pullups sem terem um bom grip que podem conseguir na evolução do peso morto e das elevações realizadas com maior controlo de movimento. Há movimentos que não podemos trabalhar até à falha muscular como fazemos nas máquinas de musculação. São necessários passos mais curtos e progressões mais adequadas quando colocamos os alunos/clientes perante certos desafios. Espírito crítico e equilíbrio emocional são fundamentais para não perdermos o discernimento no calor do treino dando excessiva importância à intensidade sobre a técnica. O mesmo se passa em relação à alimentação e ao excessivo consumo de estimulantes do sistema nervoso central e esteróides anabolizantes mesmo em competições onde o prémio final é vencer o amigo. Mas isso já é outra discussão mais ampla.

Primeiro temos de dominar movimentos com o peso do corpo como o agachamento que podemos aprender com crianças de 2 anos que os fazem na perfeição, depois necessitamos saber levantar peso do chão (peso morto), em seguida vem o power clean para colocarmos peso nos ombros e podermos depois realizar outro tipo de movimentos e só a sequir vem o press/pushpress. Se não soubermos fazer peso morto, não podemos fazer power clean. Tudo tem uma progressão, tudo tem uma base, mas nos ginásios ao contrário de outras modalidades desportivas, ainda continuamos a ver pessoas que ao fim de um ano de musculação, não sabem levantar peso do chão, não sabem agachar nem colocar peso acima da cabeça e os monitores têm elevada responsabilidade nisso.

Eu continuo a achar que a escolha das melhores ferramentas para resolver os problemas das pessoas é algo muito importante mas temos de manter a força daquele sentido comunitário, familiar, inclusivo, simples e humilde deste tipo de atividade, sob pena de lhe retirarmos toda a beleza e aquilo que fez dela uma ideia que abanou com a indústria do fitness de forma positiva. Para que situações como as relatadas nesta reportagem não ocorram. E para que a parte bonita que atrai tanta gente: os resultados, a superação individual, o pertencer a um grupo, a uma equipa que ajuda, a incorporação do exercício simples e eficaz na vida das pessoas e a transformação que produz nos indivíduos.

O equilíbrio é a chave.

Para quem é novo nisto, recomendo boas fontes de informação:

Mobilidade

Ginástica (para quem faltou às aulas de ginástica na escola e agora anda todo entusiasmado a tentar fazer “handstand”)

Powerlifting e Halterofilismo

Corrida

Natação: TI1, TI2, TI3, TI4, TI5, TI6, TI7, TI8, TI9

Remo Indoor

E o Crossfit Journal, é claro! (por tostões têm alguns dos melhores treinadores de várias modalidades, cursos e seminários completos, artigos de opinião, horas e horas de vídeos técnicos muito úteis).

Recordem: o sucesso reside em coisas simples muito bem feitas e com emoção.

Bons treinos!