TREINO FUNCIONAL E DESPORTO – Algumas notas

A força é a base da tua capacidade de interagir com o teu ambiente. Mark Rippetoe (2015).

Qualquer modalidade desportiva é um misto de arte e esforço. Para prepararmos um atleta, grande parte da intervenção passa sempre por muita intervenção sobre a parte biológica, embora, frquequentemente se neguem ou ignorem muitas leis naturais e princípios da interação humana. Uma dessas formas de intervenção, chama-se agora: treino funcional.

Ninguém sabe muito bem o que é o treino funcional. É um saco onde cabe tudo, mas por vezes, parece que o treino é dito como funcional somente se tiver uma plataforma instável, apoio numa das pernas e a tentativa de efetuar movimentos em 3 planos diferentes em simultâneo (se é que é possível em termos de controlo motor).

Os fisioterapeutas costumam definir o exercício funcional como exercício efetuado em múltiplos planos de movimento, utilizando múltiplas articulações.

O treino funcional pode ser descrito como um treino com propósito, tendo em conta que a sua função é, essencialmente, realizar movimentos com propósito. Este tipo de treino tem vindo a ser, erradamente, caracterizado como “específico” por muitos atletas e treinadores (Boyle, 2004).

No crossfit (Glassman, 2003), quando se aborda funcionalidade, existem 3 aspectos fundamentais: uma modalidade mais funcional um maior benefício cardiorrespiratório do que uma modalidade menos funcional, segundo, o regime de movimentos funcionais desenvolvido ao longo das 3 vias metabólicas, desenvolve uma condição cardiorrespiratória com maior aplicação a um maior número de atividades, situação que implica um 3º ponto: que existam várias qualidades de condição cardiovascular.

O treino funcional é uma forma simples de treinar, ensinando os atletas a lidarem com o seu próprio peso corporal (Boyle, 2004).

O cérebro não reconhece músculos individualmente, mas sim padrões de movimento que consistem nos músculos a trabalharem em harmonia para produzir movimento (Gambetta, 2007).

A função motora geral pode incluir: andar, correr, empurrar, puxar, agachar, saltar, lançar.

Garganta e Santos (2015), sugerem que as capacidades condicionais e as coordenativas não podem ser separadas uma vez que a força é imprescindível (para haver movimento tem de haver contração muscular e para haver contração muscular é necessário força).

A força é a capacidade de aplicar uma força a uma resistência externa como o solo, um adversário, um ferramenta ou uma bola. A força produz movimento humano; é uma coisa que nos distingue das plantas e das rochas. Existe apenas um tipo de força: a força de contração que os músculos exercem contra os ossos (Rippetoe, 2015).

Se efetuarmos os exercícios de força numa amplitude total de movimento eficiente, iremos obter como resultado, músculos mais fortes, resistentes e flexíveis em todos os ângulos articulares. Se efetuarmos os mesmos exercícios regularmente em amplitude parcial vamos obter apenas bons resultados nas amplitudes articulares trabalhadas.

Qualquer movimento desportivo é uma expressão relativa da força de um atleta: uma bola de futebol de 450gr, tem um significado diferente para um atleta para quem isso representa 5% da sua força máxima se comparado com um atleta para quem o peso da bola representa 0,05% da sua força máxima. Esse facto irá condicionar a técnica.

No ginásio, usando os melhores movimentos, os que têm mais impacto local e sistémico e progredindo nesses mesmos movimentos, podemos proporcionar ao indivíduo que assim treinar, aumentar o seu potencial e reduzir o risco de lesão. Podemos fazer um poço de 9m de profundidade com uma colher de chá, mas não é a ferramenta adequada. Podemos usar TRX ou argolas, podemos usar uma barra olímpica ou um elástico, mas não é a mesma coisa. A dinâmica de carga de um elástico é fraca porque a resistência varia demasiado consoante o elástico está pouco ou muito alongado (é tipo a colher de chá).

Por outro lado, temos de pensar no transfer de que nos falam os supostos experts de treino funcional. Rematar com uma bola medicinal, cria um padrão motor e dá informação bem diferente ao sistema nervoso do que rematar com uma bola oficial. Já testaram em vocês próprios?

Ser “coordenado” a tocar bateria, usando pés e mãos, não me garante em nada que eu seja um bom executante de aulas de step. Ser bom a dar toques na bola não faz de mim bom jogador de futebol, nem ser fantástico a efetuar passe frente a um companheiro no voleibol me ajuda a ser bom a efetuar passe com grandes deslocamentos num ambiente de jogo 2×2. Estes até podem ser exemplos daquilo que habitualmente se define como: transfer negativo.

No ginásio, não imitamos movimentos desportivos. Efetuamos movimentos multi-articulares em amplitude total de movimento, usando ferramentas que provaram ser eficazes (mais usadas e mais estudadas) ao longo de décadas, para melhorar o potencial dos atletas e diminuir o risco de lesão, criando uma musculatura mais forte, mais resistente e mais flexível.

De certa forma, tudo é funcional se cumprir a função para a qual foi criado. Movimentos naturais (levantar, sentar, agachar, levantar peso do chão, transportar peso, colocar peso acima da cabeça,…) que tenham aplicação no desporto e no dia-a-dia.

Perante estas ideias, podemos acreditar que a ginástica, o levantamento de pesos (halterofilismo, powerlifting, etc.) e a natação são formas de treino de elevada funcionalidade. Então, porque andamos a inventar movimentos com materiais que encontramos nas clínicas de fisioterapia, sem respeito pelas leis da física, sem respeitar anatomia nem os princípios do treino ou os padrões criados por treinadores e atletas com milhares de horas de treino com bons resultados? Queremos vender o quê?

Bibliografia

Boyle, M. (2004). Functional Training for Sports. EUA: Human Kinetics.

Chek, P. (2004). How to eat, move and be healthy! San Diego: CHEK Institute.

Faigenbaum, A. e Micheli, L. Youth strength training. Recuperado em 28 de Outubro de 2014, de: http://www.acsm.org/docs/current-comments/youthstrengthtraining.pdf

Gambetta, V. (2007). Athletic development: the art & science of functional sports conditioning. EUA: Human Kinectics.

Garganta, R., & Santos, C. (2015). Proposta de um sistema de promoção da Atividade física/Exercício físico, com base nas “novas” perspectivas do Treino Funcional. Em R. Rolim, P. Batista, & P. Queirós, Desafios Renovados para a aprendizagem em Educação Física (pp. 125 – 158). Porto: Editora FADEUP.

Glassman, G. (2003). Functionality & Wall Ball. Crossfit Journal, 12. Recuperado em 28 de Outubro de 2014, de: http://library.crossfit.com/free/pdf/12_03_Wallball.pdf

Rippetoe, M. (2011). Starting Strength: Basic Barbell Training, 3rd edition. Wichita Falls: Aasgaard Company.

Rippetoe, M. (2015). Strength and prevention of injuries. Disponível em: http://www.startingstrength.com