Professores “vendem” atos humanos

A má organização é outra causa comum da perda de tempo. O seu sintoma é um excesso de reuniões.

Peter Drucker

O professor vende atos humanos. O professor não vende batatas, computadores ou esferográficas. Como tal, o seu estado emocional é fundamental para o bom desempenho no processo ensino aprendizagem, para planear, liderar, organizar e controlar.

A energia de qualquer ser humano é limitada e condiciona o ato humano, a fisiologia do professor condiciona o ato humano, os pensamentos no momento, condicionam o seu comportamento como professor. Os resultados dependem em grande medida do estado do professor.

Podemos analisar de forma breve a função de professor na perspetiva do marketing. Marketing é tudo aquilo que fazemos para criar uma relação comercial com alguém. Do ponto de vista dos serviços (não dos produtos), a forma como falamos é marketing, a forma como vestimos, a forma como nos movimentamos, a nossa colocação no espaço em relação ao aluno (cliente), é marketing.

Relativamente ao serviço, ao ato humano, o objetivo é satisfazer a necessidade do aluno. Quais são as necessidades dos alunos? Quais os seus desejos? No ensino obrigatório, o desejo de muitos alunos, sobretudo a partir de certas idades, parece ser a conclusão do processo e não a obtenção de algum tipo de conhecimento ou competência para ser mais feliz ou mudar a sua vida no sentido positivo.

No que concerne ao preço, aqui não existe uma perceção do valor do serviço que ocorre com um professor que se transforma em explicador. No caso do professor do ensino obrigatório, a perceção de valor, ocorre muitas das vezes em função da progressão do aluno ou em função da aprovação que o colocam mais próximo do seu objetivo final: concluir um curso.

O mercado de trabalho está cada vez mais desfasado do sistema de ensino tradicional. O mercado de trabalho pede cada vez mais trabalho em equipa, sentido comercial e capacidade de comunicação. Nos conteúdos e processos tradicionais na escola, não se fomentam muito esses aspetos e menos ainda o ato de falar em público que gera medos em todos nós, sendo inclusive um dos maiores medos do ser humano. Mas tudo se treina.

Em termos de promoção, podemos falar da interação com os alunos, a forma como se comunica. Mesmo noutro tipo de serviços, a comunicação é de caráter educativo, sobretudo com novos clientes, informando dos benefícios do serviço. No ensino, devido aos conteúdos selecionados nos programas impostos, é cada vez mais difícil que os alunos tenham a perceção de utilidade dos mesmos. Longe vão os tempos do primeiro ciclo que ensinava a ler, escrever e fazer contas, situação que motivava os alunos a quererem saber mais, pois aplicavam tudo o que aprendiam com muita frequência no dia a dia. A média de idades dos professores em Portugal anda na zona dos 50 anos. Os meios disponíveis do ponto de vista audiovisual cresceu imenso. A extrema estimulação e capacidade de foco dos alunos numa tarefa diminuiu por questões sociais. Têm 200 canais de TV, redes sociais nos telemóveis e uma oferta diversificada de serviços e produtos que por vezes os confunde. Todos estes aspetos condicionam fortemente a forma como se comunica. Já não basta clarificar quando se generaliza, omite ou distorce informação. De qualquer modo, parece clara a necessidade de ligar o processo escolar a benefícios imediatos e de longo prazo também.

Os processos usados no ensino público têm vindo a mudar com a sobrecarga de burocracia por vezes autoimposta pela necessidade de justificar os procedimentos do professor perante instâncias superiores, outras vezes imposta por direções ou administração superior. Existe uma crescente preocupação por apresentar evidências da ação docente. Assim se dificulta um bom desempenho, assim se baixa a produtividade, criando um serviço deficiente que em vez de estar pelo menos 80% do tempo centrado no ato humano (serviço), está focado no planeamento e controlo. Mesmo as reuniões docentes, centram as suas discussões nas formas de planeamento, controlo e evidências do processo de ensino-aprendizagem.

Torna-se assim difícil que os professores tenham elevado volume de atendimento e uma relação de excelência com os seus clientes, os quais demonstram cada vez maior insatisfação com a escola na qual passam cada vez mais horas. Se os adultos reclamam por reduções na carga horária semanal de 36h, não podemos pedir aos adolescentes que permaneçam sentados 34 blocos de aulas por semana e consigam manter o foco e entusiasmo. Se passam tanto tempo na escola, menos passam com seus pares, com seus familiares e grupos de adultos que antes os inseriam em atividades culturais, recreativas e desportivas.

Por último, em relação às evidências físicas, podemos dizer que o visual das escolas, dos professores não pontua positivamente para a melhoria do marketing deste tipo de serviço de ensino.

Em suma: os resultados do desempenho do professor estão na atualidade muito condicionados pelo excesso de burocracia, pelo excesso de reuniões e pelo exacerbado foco na formalização de toda a ação do professor que provoca neste um elevado foco no futuro em função daquilo que terá de fazer para o preenchimento das grelhas; em vez de se focar no presente, nas estratégias que o ajudarão a levar o aluno a encontrar o caminho para alcançar os resultados pretendidos, o professor está excessivamente e de forma justificada, preocupado com relatórios e evidências. Esta é uma situação que faz lembrar aqueles que vão assistir a um espetáculo musical ao vivo, através da tela de um telemóvel e não absorvem tudo o que se passa à sua volta.