Disciplina + Método + Controlo?

Já repararam que os praticantes regulares de atividade física há mais de 6 meses têm: auto-disciplina + método adequado às suas necessidades + auto-controlo?

Monitores de Atividade Física
Monitores de Atividade Física

O que falta aos indivíduos que não aderem aos programas de exercício físico, não é conhecimento teórico sobre o mesmo, nem tão pouco a consciência dos benefícios do exercício físico, mas sim a falta de disciplina para ir treinar regularmente 2 a 3 vezes por semana, falta-lhes um método adequado às suas necessidades que são diferentes aos 17 anos (chegamos a casa e a mamã tem o bifinho com brócolos preparado), aos 20 em que nos achamos imortais, aos 30 com elevadas exigências profissionais e muitas das vezes familiares (altura em que descobrimos que aquela metodologia de ir ao ginásio 2h por dia não se aplica agora), dos 40 onde as mazelas interferem que se farta e a recuperação não acompanha a vontade de correr até cair para o lado… Falta-lhes um processo de controlo da atividade que motive e mantenha o foco no objetivo, transformando tudo isso numa prioridade. São alguns destes aspectos como a falta de auto-disciplina e auto-controlo que aumentaram tremendamente a produção de dispositivos denominados de: monitores de atividade física (já alvo em estudos académicos).

Prescrição de exercício – os desafios da realidade

A dura realidade dos números dos ginásios

A maior mentira que eu alguma vez engoli é aquela que diz que todos podem ter um físico de campeão se aderirem a um certo programa, uma determinada dieta e combinação de suplementos, e uma determinada orientação (McRobert, 1991).

Em Portugal e no resto do mundo, parece perfeitamente normal que os ginásios percam mais de 50% dos clientes que entram pela porta dentro. Mas isso só é viável porque muitos desses negócios trabalham com ciclos de produto e de vida muito curtos. Ginásios com 1000 sócios efetivos, chegam a ter 100 novas inscrições num mês. Mas depois… No final do ano, mantêm o mesmo número total de efetivos. Para onde vão esses clientes? Poucos ficam, e a maioria vai embora. Sabendo que custa mais conseguir um novo sócio do que manter um existente, talvez o foco deva mudar: em vez de mais vendas, necessitamos criar maior satisfação naquela pessoa que já está connosco, para que esta se transforme num advogado da nossa causa, num vendedor dos nossos serviços, numa fonte de inspiração para novos clientes.

Algumas estatísticas pessoais

As instalações podem ser amplas, bem decoradas, cheias de material, os professores podem parecer modelos de revista, mas os números são o oposto. Nos últimos 5 anos, nas dezenas de ginásios onde dei formação interna (essencialmente no norte de Portugal em localidades como: Vila Nova de Gaia, Aveiro, Porto, Braga, Guimarães, Vila Real, Vizela, Viana do Castelo, etc.), não encontrei nenhum clube com retenção acima de 60%, sendo o mais comum situarem-se entre os 40 e os 50%. Todos esses ginásios oscilavam entre 800 a 1600 sócios efetivos (aproximadamente). Outro dado interessante é que: a frequência média semanal nestes locais era de 0,8 a 1,6. Ou seja, cada sócio ia em média 40 a 80 vezes no ano ao ginásio. Digamos que esses clientes vão ao ginásio de 5 em 5 dias, na melhor das hipóteses. É uma frequência semanal muito reduzida para criar uma forte relação professor – aluno e induzir alterações físicas nos clientes.

Alguns dados da International Health Racquet and Sportsclub Association – IHRSA

A IHRSA apresenta como as 5 principais razões para as pessoas desistirem dos ginásios:

  1. Era demasiado caro/eu não tinha dinheiro para pagar;
  2. Podia fazer exercício noutro lado de forma gratuita;
  3. Deixei o local de residência/o local deixou de ser conveniente.
  4. Não estava a utilizar/Não ia ao ginásio.
  5. Sentia-me fora de sítio (desenquadrada)

A mesma organização tem-nos apresentado algumas indicações porque as pessoas ficam no ginásio:

  • Pela saúde em geral/bem-estar;
  • Necessito ficar em forma/melhorar saúde;
  • A localização é conveniente;
  • Para progredir com os meus objetivos;
  • A variedade de equipamento.

Finalmente, a IHRSA apresenta algumas pistas para vencer o desafio do abandono.

  1. Falta de oferta (ou marketing mal sucedido) de aulas de grupo;
  2. Baixa utilização (que também referimos anteriormente);
  3. Os sócios não recebem interações frequentes que os motivem com os seus objetivos de condição física;
  4. O preço poderá ser demasiado elevado para os ex-sócios;
  5. Não estamos a transformar os detratores em promotores (os utilizadores frequentes progridem em direção aos seus objetivos, tiram vantagens das ofertas e melhorias do ginásio e recebem comunicação frequente dos health clubs).

Até aqui há 2 situações que parecem relevantes para vencer o desafio do abandono:

  1. Frequência semanal de utilização do ginásio. Ou seja, o treino regular.
  2. A relação sócio-funcionário.

A idade da população e público-alvo

Fica outro dado interessante que tem a ver com a realidade do nosso país: embora o público-alvo dos ginásios continue a ser a malta dos 20 aos 35 anos (nessa faixa etária são pouco mais de 1,7 milhões de habitantes; seria interessante saber os que frequentam ou frequentaram ginásios). Esse é o mesmo público dos bares de discotecas. Curiosamente, em muitos casos, ainda são os Pais de muitos destes clientes que lhes “patrocinam” as mensalidades. Mas estes Pais, ou ainda se encontram sedentários ou estão fora deste tipo de instalações. Isto pode significar que ainda não acreditam nas soluções dos ginásios para os ajudarem a resolver seus problemas. Mas será que os ginásios em Portugal não terão mais benefícios em servir os Cerca de 40% da população portuguesa tem mais de 50 anos (quase 4 milhões de pessoas)? Não serão estes que se preocupam mais com saúde e condição física? Será que este grupo adere menos a modas? Será que é mais fácil de fidelizar? Pela minha experiência, pelas estatísticas que continuo a verificar nos locais por onde tenho passado, esta faixa etária é de facto mais estável se os ginásios:

  • Tiverem serviços mais adequados para a sua condição física para os seus objetivos. Será o cycling, bodypump, a eletroestimulação e a Zumba a resposta adequada para todos?
  • Fomentarem formação específica do pessoal. Para trabalhar com pessoas fora da nossa faixa etária, necessitamos skills de comunicação para criar rapport com esses sócios. Necessitamos conhecer a forma de pensar, os seus gostos, as suas preocupações de vida, as micro-sociedades em que se inserem. É muito mais fácil lidar com os nossos pares do que lidar com gerações bem diferentes da nossa. Talvez os ginásios devam ter profissionais da mesma faixa etária dos clientes que pretendem atrair. Fica tudo mais fácil desse modo.
  • Cuidarem do ambiente. A música que um indivíduo de 50 anos gosta de ouvir, é diferente daquela que escuta um jovem de 25. A velocidade com que as pessoas se deslocam é diferente. Os valores e crenças sobre o que deverá ser um bom ambiente, são diferentes de outros grupos etários.
  • Marketing é tudo o que fazemos para criar uma relação comercial com alguém. No entanto, os ginásios procuram apenas fazer publicidade (dizem: – nós somos bons. – nós somos o melhor para si!) e vendas. Mas se queremos relações duradouras, não basta “aspirar sócios” com promoções. Podemos em vez disso, inspirar este tipo de pessoas em vez de os “aspirar” com técnicas de vendas agressivas. Mostrar benefícios de incorporar o exercício físico nas suas vidas.

Grande parte da solução para o problema do abandono (como sabemos, sem regularidade não é possível obter os afamados benefícios físicos, psicológicos e sociais) reside na prescrição e supervisão de treino, de forma a produzir resultados. Temos de criar:

  • disciplina para aumentar a frequência semanal;
  • uma metodologia de treinos práticos, seguros e eficazes;
  • bons registos de treino para melhor auto-controlo do aluno.

Uma coisa é certa: com os mesmos processos atuais iremos obter resultados idênticos. Como a frequência semanal é baixa, as taxas de abandono altas e a imagem dos ginásios é fraca, acho melhor mudar alguma coisinha.

Que mudanças podemos fazer em termos de instalações e equipamentos? A decoração e os posters na parede podem ser alterados, a personalização dos espaços com fotos dos eventos, das atividades do clube… Talvez por acharmos que as redes sociais são mais importantes, esquecemos que hoje os ginásios substituíram muitos dos clubes desportivos. Queremos que os sócios se sintam membros de uma tribo um grupo de pessoas uma cultura comum, que partilham valores e crenças comuns, porque é fácil abandonar o ginásio impessoal, mas quando sentes que pertences a uma família, tudo se passa de forma diferente.

A comunicação de proximidade que está tão pouco trabalhada na formação superior em educação física e nos cursos de formação de técnicos de fitness é parte da chave para criar rapport, para criar uma relação de confiança, sem isso não podemos liderar processos de treino. Mais de 50% da comunicação é corporal. Ao personal trainer ensinam a vender, estão muito focados naquilo que dizer, esquecendo que vender é…

  • um estado de confiança;
  • contar histórias;
  • conhecer as pessoas pelo nome;
  • encontrar soluções para problemas em vez de criar mais problemas;
  • chegar a horas;
  • tratar todos por igual mas de forma diferente;
  • ter a sala de musculação arrumada;
  • conhecer bem os desafios do dia-a-dia dos clientes para facilitar empatia (por exemplo: um professor que é pai, percebe mais facilmente aqueles que têm filhos);
  • mostrar paixão por aquilo que fazemos;
  • ser consciente do porquê de estar a trabalhar num ginásio, pois como diria Simon Sinek:

As pessoas não compram aquilo que fazes, elas compram porque fazes isso.

Costumo dizer: quem faz a casa somos nós. Ou seja, um dos fatores que faz com que as pessoas se mantenham como sócias, é a relação sócio-funcionário que está acima da relação sócio-sócio, é o ambiente social do espaço que nós devemos liderar. Se criarmos um ambiente agressivo, privilegiamos determinado tipo de pessoas, se colocarmos música clássica apelamos aos ouvidos de um grupo diferente, se incentivarmos a interação saudável entre sócios, fomentamos grupo, se criarmos eventos regulares, pequenos rituais únicos do nosso espaço, vamos condicionar a relação sócio-sócio. Temos de mudar o foco dos conteúdos dos programas de treino para a relação com o cliente e para a dinâmica social do ginásio sem esquecer que a chave dos resultados está em levar as pessoas para fora da zona de conforto.

Por último, temos de influenciar as pessoas para que os fatores pessoais tenham menos impacto (tempo, dinheiro, localização, estacionamento, motivação, força de vontade, etc.). Temos de ensinar os clientes a lidar com as ausências prolongadas e a lidar melhor com a alimentação e o stress. Temos de criar soluções de preços e serviços para o nosso público-alvo alvo sem ir atrás de todo o tipo de tendências da indústria, impostas pela agressividade do marketing de quem quer vender por vender em vez de tornar a vida das pessoas mais fácil e divertida. Temos de indicar treinos adicionais para fazer em casa e técnicas de relaxamento para dormir melhor, porque só assim é que os sócios irão experimentar os benefícios da atividade física regular.

Prescrição de Exercício? É só uma receita…

O exercício físico pode ser visto como um medicamento. Quando devidamente doseado, conjugado com uma dieta apropriada e uma adequada dose de sono, poderá produzir tremendas transformações biológicas, psicológicas e sociais na vida de qualquer ser humano.

Mas este medicamento é mais fácil de prescrever do que consumir ou auto-administrar. Eu próprio tive as minhas overdoses de certos tipos de exercício que, embora não me tivessem tirado a vida, me limitaram do ponto de vista funcional. Se eu soubesse aquilo que sei hoje… Sabemos agora que o alto-rendimento é tão prejudicial quanto ser sedentário. Mais uma vez, o êxito está no equilíbrio.

Médicos e exercício físico

a7ac431d-265d-4583-872e-14e93f3d55e6Como podemos facilmente perceber pelos locais de prática desportiva, não é muito comum encontrar elementos da profissão médica por lá. Quando perguntamos ao Google se os médicos exercitam mais (por serem profissionais de saúde), logo aparece a questão da prescrição e formação médica. Também não necessitamos passar muito tempo na PubMed para confirmar que é complicado ser regular no exercício físico quando a profissão é muito exigente, com turnos e quando surgem as exigências de sermos pais. Também não vemos de forma regular a comunidade médica comunicar com paixão a favor da prática regular de atividade física, algo que se entende perfeitamente, porque não é o seu mestér. Embora por vezes se faça uma guerra porque os médicos prescrevem exercício e não deveriam (dizem os profissionais de educação física), temos de nos recordar que a “bíblia” da prescrição de exercício dos profissionais do exercício físico chama-se ACSM’s Guidelines for Exercise Testing and Prescription, que já vai na sua 10ª edição e foi curiosamente criada por uma organização de… medicina desportiva. Ou seja, a maioria dos profissionais do fitness baseia o seu trabalho num documento médico e em trabalhos médicos. Também nos podíamos recordar no século XIX do fantástico sanatório de Battlecreek do famoso Dr. Kellogg que nos deixou os cronflakes. Colaborei com vários médicos, trouxe médicos para dentro do ginásio, contribuí para o treino regular de alguns desses profissionais, tive como parceiro de treino um médico durante vários anos e compreendo perfeitamente a desconfiança da parte deles sobre o trabalho que se realiza nos ginásios e os extremos com que muitos dos profissionais do fitness abordam a questão do exercício físico e da alimentação (curiosamente pouco abordam o sono). Portanto, há muito a fazer para estreitar a comunicação das duas áreas: medicina e movimento humano. Recordo que um médico é uma pessoa que escolheu uma nobre profissão, mas tem pela frente todos os desafios de outro qualquer cidadão quando falamos de exercício físico e saúde.

Receitas e cozinha

Quando vamos a uma confeitaria, vemos uma grande variedade de bolos na montra, mas a base da sua constituição é a mesma: farinha, ovos, açúcar e manteiga. Ou seja, 4 ingredientes que adquirem diversas formas que depois são adornadas com outros elementos. A grande maioria de nós, com as receitas de toda essa pastelaria, não se iria transformar num pasteleiro, nem sequer nos iria permitir realizar tais doces criações. Com isto quero dizer que: são coisas simples, bons ingredientes, pontos de cozedura, combinação entre eles, que podem fazer um bom bolo. Embora a receita seja fundamental, se não a aplicarmos com frequência, se não a aperfeiçoarmos, apenas será um plano bonito. A caminhada ou a corrida podem ser exercícios fantásticos, mas, se eu não souber correr de forma adequada… Mais cedo ou mais tarde irei conhecer as lesões.

As tabelas de prescrição

UrF1UNestes 30 anos ligados aos ginásios, verifiquei que, embora a ciência não nos assegure matematicamente nada, a grande maioria dos profissionais baseia o seu trabalho numa tabela cujas colunas se intitulam: força, potência, hipertrofia, resistência muscular, etc. Para baixo lemos conteúdos como 4 séries de 8-12 repetições e outras indicações afins, como se os músculos soubessem contar, como se os estudos onde tudo isto se baseia, tivessem em conta a velocidade de execução dos exercícios ou a amplitude de movimento (pequenos detalhes para alguns), como se as amostras fossem significativas ou os estudos longitudinais. Em vez de repetições, porque não estudar o tempo em carga? Para mim, as tabelas, são apenas orientações (por vezes grosseiras) daquilo que poderá estimular o tipo de resultados pretendidos. São compilações, às vezes incluem meta-análises, outras vezes são conclusões precipitadas na tentativa de fundamentar uma prática que sempre terá um pouco de razão e lógica, mas também muito de emoção e arte. A abordagem à prescrição do exercício físico baseada simplesmente em estudos fisiológicos, é como admitirmos que o cérebro é apenas neocortex (o mundo todo racionalizado) e que o nosso comportamento nada é condicionado pelo sistema límbico (responsável pelas emoções, o mecanismo dor-prazer, memória, etc.) ou pelo cérebro reptiliano (associado à nossa sobrevivência).

O vício de quantificar tudo

Existe um excessiva preocupação em quantificar tudo (embora isso seja importante para objetivar a prática, deixa sempre de fora tudo aquilo que nos faz humanos). Usamos a frequência cardíaca para controlar a intensidade de esforço, mas esquecemos que esta muda por questões mecânicas mas também por questões emocionais, logo não é uma medida exacta dessa intensidade. Os músculos não sabem contar, mas induzimos em erro os nossos alunos quando os limitamos a 10 repetições (se eu me focar no objetivo 10, mesmo que biologicamente seja capaz de fazer 12, estarei limitado pelo meu cérebro que irá “desligar” o corpo para cumprir a meta). Quando se fala de emoções, a investigação tem dificuldade em quantificar, quando se procura investigar a influência das necessidades básicas ou da questão da dor, também nos deparamos com essas dificuldades. É uma sociedade agarrada aos números, que ao sair daquilo que pode quantificar, logo resume todos os outros problemas psicológicos relacionados com o desportista e os mete no “saco” chamado motivação. Talvez se deva começar por aí, por procurar descobrir os porquês, descobrir as razões que levam uma pessoa a inscrever-se num ginásio ou a iniciar a prática desportiva. Se eu tiver razões muito fortes para ir em busca de um objetivo, eu vou transformar isso numa prioridade, vou abdicar de outras coisas, vou abandonar pessoas e quando tiver barreiras a ultrapassar, vou ter uma força enorme para o conseguir. Como diria o Eric Thomas, se queres ser bem sucedido quanto necessitas respirar, então serás bem sucedido. Também podemos colocar o desafio neste sentido: se a razão para quereres algo for tão forte que te faça chorar, então vais mesmo em busca desse algo, desse objetivo. Agora quantifiquem lá esse PORQUÊ! Arthur Jones, uma das pessoas que mais mexeu com a indústria do fitness, também disse: – a especialização é para os insectos!

Já nem falo da influência do ambiente social sobre a prescrição de exercício, porque é tão óbvio que as aulas de grupo, as “tribos” de crossfitters, culturistas, ciclistas de ginásio, geraram culturas que são a montra do fitness. São grupos de pessoas com os mesmos valores e as mesmas crenças no que diz respeito à atividade física. Agora quantifiquem lá porque eu gosto, porque vou com a cara desta ou daquela pessoa. O sucesso de qualquer sócio no ginásio tem muito a ver com o facto dela gostar ou não do professor (o mesmo se passa na escola). Porque gostamos da pessoa com quem vivemos? Difícil responder e quando tentamos racionalizar a resposta parecemos uns “tótós” a criar uma explicação para algo que não se quantifica 🙂

Adesão à prescrição

Os resultados obtidos com o exercício físico, podem depender obviamente do tipo de prescrição, mas dependem sobretudo da progressão, da sobrecarga, da forma como levamos a prescrição à prática, bem como do repouso e alimentação entre treinos. Adesão a tratamentos médicos e adesão ao exercício físico são monstruosos desafios que condicionam a prática médica e a educação física. É um problema de saúde pública. Já agora: a saúde definida pela Organização Mundial de Saúde, é um estado de completo bem-estar físico, mental e social. No entanto, a prescrição do exercício, raramente considera o indivíduo como um ser bio-psico-social (não sei porque estou sempre a chamar à atenção desse facto).

É bonito criar um mesociclo de treinos, mas é no microciclo que tudo faz a diferença, tudo se aplica ou não, é no dia-a-dia que os treinos ocorrem ou não ocorrem. Aliás, mesmo no desporto de alto-rendimento, poucos são os treinadores que têm possibilidade de efetuar trabalhos de longo prazo onde um macrociclo a sério faça sentido. É tudo a prazo curto e limitado. Eu próprio nunca pensei conseguir com alguns clientes fazer 300 treinos, 500 treinos ou 20 anos de treinos regulares consecutivos. Por isso o plano é semanal, mensal, quando muito… Trimestral, com tanta flexibilidade quanto as exigências profissioniais dos alunos, tão adaptável quanto as horas de sono dos clientes, tão condicionado quanto as emoções das pessoas que treinamos, por vezes altamente influenciadas pelas 5 pessoas com quem passam mais tempo. Mas é aí que o processo de treino é exigente. Costumo dizer, que, se o plano corre exactamente como previsto no papel, é porque fui pouco ambicioso, porque conheço mal o indivíduo ou não tive os 5 sentidos alerta para aproveitar as janelas de oportunidade que os meus alunos me abriram.

Novas tecnologias

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MyMotiv Ring

As pessoas não seguem um regime de treinos porque falta auto-disciplina, porque falta um método adequado e porque falta auto-controlo do treino. Como a maioria dos profissionais dos ginásios se dedicou todos estes anos a fazer avaliações da condição física e prescrições de exercício para pessoas que dificilmente vêm ao ginásio 2 vezes por semana, usando num papel e uma caneta, com intensidade e volume de treino em função quase exclusivamente do objetivo do aluno sua idade e fatores de risco, as novas tecnologias entraram em força. Muitos profissionais nem se deram conta. No espaço de 10 anos, as vitrinas das lojas de desporto e das lojas tecnológicas, encheram-se de monitores de atividade física. Dos marca-passos passamos a dispositivos detetores de movimento, com GPS e controlo de frequência cardíaca cada vez mais fiáveis. O seu tamanho e leveza diminuiu de tal forma que este último ano já deixamos os objetos de pulso tipo relógio e passamos aos anéis como MyMotiv ou OURA. São dispositivos que controlam e criam disciplina. As aplicações de telemóvel nesta área da prescrição também cresceram tremendamente. Mas aqui reside o problema: os profissionais, seres humanos, estão a prescrever exercício da mesma forma que estas máquinas e aplicações o fazem. Estão a desaproveitar o facto de serem humanos capazes de ler micro-expressões, capazes de sentirem emoções, de liderarem um processo num mundo que paga ATENÇÃO como se fosse um bem escasso (é mesmo tão escasso que os nossos jovens estão completamente viciados nas redes sociais e nos telemóveis). Mas, se os profissionais de atividade física, se os treinadores se focarem em realizar tarefas humanas e se usarem estes dispositivos para as missões de controlo de treino, poderão continuar a ser pessoas indispensáveis (algo que a indústria do fitness combate intensamente para reduzir custos). Engraçado que eu próprio, depois de muito experimentar e muito dinheiro gastar com dispositivos e aplicações, o registo de treino mais eficaz que conheço continua a ser com o tradicional papel e caneta 🙂

Treinos à distância

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FitBot Software

Fitness by Phone, Fitbot e VirtuaGym são claros exemplos de oportunidades de mercado que surgiram pela tremenda falha na intervenção dos personal trainers que apenas se dedicavam a contar repetições, a afagar as pessoas, a exibir conhecimento teórico ou a desnudar os seus corpos na busca de seduzirem os clientes. Estas marcas conseguiram criar plataformas que permitem aos personal trainers um acompanhamento à distância e um trabalho de coaching com os alunos, facilitando a gestão de um enorme número de clientes. As evidências parecem indicar que o contacto com voz é mais eficaz. Mas ainda estão longe de serem uma intervenção eficaz, por isso vemos agora um crescimento nas ofertas de personal trainers que combinam pacotes de treinos presenciais com acompanhamento à distância: criam a programação (método), controlam progresso, usam e-mail, telemóvel, vídeo e skype para criar disciplina e melhorar a adesão ao exercício. São uma solução interessante na relação preço/qualidade.

Então, Quem prescreve?

Como professor de educação física, treinador e personal trainer, não me faz confusão nenhuma que uma pessoa que saiba mais do que eu de determinada atividade, que tenha mais experiência, mais conhecimento, me dê indicações sobre aquilo que posso fazer para melhorar a minha técnica, condição física e saúde. Mas se essa pessoa liderar o processo, então a sua prescrição terá maior probabilidade de êxito. Ou seja, para mudar uma fralda, eu nunca iria perguntar ao indivíduo que fala sobre fraldas, conhece os materiais das mesmas, estuda fraldas, publica sobre fraldas, mas que nunca mudou uma borradona 🙂 Se eu quero ser treinador, eu tenho de treinar pessoas. Claro que procurarei sempre o indivíduo com mais experiência mas que estuda e procura melhorar constantemente, mesmo que isso passe por vezes pela confirmação que os seus processos se devem manter na generalidade. Também temos consciência que os melhores atletas raramente se transformam nos melhores treinadores. Como diria alguém: se queres aprender a treinar um cavalo de corrida, não vais perguntar ao cavalo como se faz. Acredito no equilíbrio entre a teoria e a prática, entre o ideal e o real.

teoria_associacao_cognitiva_ginásiosOs resultados no treino estão muito dependentes da intensidade (seja aquele que quer fazer 300kg de agachamento ou o senhor que recupera a locomoção depois de um AVC), porque treinar é sair da zona de conforto. Mas… Isso significa dor. O ser humano funciona bem em termos de mudanças comportamentais quando usamos o mecanismo dor-prazer (controlado pelo sistema límbico), bem como por associações cognitivas que vai criando na sua mente. Mas como fazer as pessoas passarem por desconforto sem perceberem? Não é no papel que isso se faz, até porque numa entrevista, no primeiro dia, pouco ficamos a saber do aluno. Primeiro temos de criar rapport, criar uma relação de confiança para que a outra pessoa dê importância e se submeta às nossas orientações. Quem sou eu para mandar um desconhecido fazer 10 repetições? É necessário que ele me reconheça competência, e autoridade para tal. É necessário que “vá com a minha cara” 🙂

No fundo, a prescrição de treino:

  • parte de uma triagem generalista;
  • traçamos um plano de orientação global que respeite biologia, leis naturais do treino, anatomia e a relação com o aluno;
  • para depois avançar com um conhecimento profundo do indivíduo (dentro das dimensões bio-psico-sociais);
  • para um processo de treino organizado que vai sendo constantemente alterado em favor do aluno, usando para isso um bom registo de treino.

É como uma estratégia de jogo: temos de ter recursos e estar preparados para alterar de acordo com os momentos de jogo.

Eu também achava que para treinar uma grávida era só aplicar as linhas de orientação do American College of Obstetricians and Gynecologysts, mas quando tive oportunidade de acompanhar 2 gestações da mesma pessoa, verifiquei que cada caso é um caso e nem a mesma pessoa reage de igual modo em momentos diferentes (numa primeira gestação pode ter incontinência urinária, perda de peso e grande laxidez articular e numa segunda gestação nada de anormal ocorrer, comendo da mesma forma, treinando de maneira idêntica). São desafios únicos. E por muito que se estude, será sempre um ato misto de ciência e arte onde temos de liderar: pessoas (se estas nos quiserem seguir).

No final de toda a reflexão e análise, a rotina de treino pode ser constituída apenas por 3 exercícios (ingredientes) aos quais adicionamos mais meia dúzia durante o ano (devem ser de qualidade, tal como a farinha ovos açúcar e manteiga). São rotinas simples de treino que:

  1. têm de criar regularidade;
  2. criar algum tipo de prazer (com estratégias de dissociação cognitiva como pode ser a música) no meio do desconforto;
  3. devem libertar dopamina (substância química ligada ao prazer) para substituir o poderoso efeito criado pelos telemóveis e redes sociais;
  4. libertar ocitocina pelo apego e empatia com o professor.

Só depois, podemos ir avançando para intensidades mais elevadas, intervenções alimentares e tudo preferencialmente sem o aluno perceber que estamos a impor muito conteúdo. É um processo de descoberta.

Na prescrição de exercício ninguém o viu treinar, nem conhece a sua cultura geral ou desportiva, as suas verdadeiras motivações, a sua tolerância ao esforço, as suas necessidades individuais, o material disponível e os condicionalismos de gestão de espaço que ocorrem no momento do treino, nem sequer o seu potencial para o desenvolvimento de força ou mesmo se tem perfil de aproximação ou afastamento. Ainda por cima essa prescrição é por vezes baseada nas conclusões retiradas de estudos científicos cujos indivíduos podem ou não ter características e condições de treino similares às suas. Pense nisso!

Se fosse fácil eram todos treinadores e bastava prescrever. Sou treinador desde os 17, treinei milhares de pessoas com registo de treino diário em sala de musculação e em situação de treino personalizado e continuo incrédulo quando me aparece alguém que pagou 100€ por uma folha com exercícios e respetivas doses, mais 50€ por uma dieta, para depois me virem pedir que lhes ensine a fazer os exercícios do plano e lhes indique suplementos para tomar. Prescrever exercício é algo tão limitado quanto ser treinador de bancada.