Sair a jogar… Identidade… DNA… Ironias

evening field football field goal
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Passei as últimas três temporadas a ver semanalmente jogos de futebol juvenil, com os treinadores a insistirem em sair a jogar com jogadores sem recursos para tal, originando derrotas pesadas em grupos de jovens já por si desmotivados e preparados frequentemente para perder antes de jogarem os 80 ou 90 minutos.

Passei duas temporadas a ver o Mr. Lopetegui a irritar-se quando um defesa “apertado” dava um “chutão” para à frente; vi recentemente, equipas profissionais nos últimos 5 minutos de jogo a perderem por um golo de diferença, tentando sair a jogar e outras equipas perdendo por dois golos de diferença a terminarem o encontro com 3 passes consecutivos entre o guarda-redes e o lateral (provavelmente para passar tempo porque desejariam perder?). Tudo isto sob o “guarda-chuva” intitulado “identidade” ou DNA. Até hoje tenho muita dificuldade em identificar a “identidade” da maioria das equipas porque, por aquilo que me dão a entender, querem todas imitar outros jogadores e outras equipas. Exemplos:

  • todas defendem cantos com 11 jogadores praticamente dentro da área, mas depois reclamam que não conseguem sair para o ataque;
  • a maioria marca cantos enviando a bola no sentido do guarda-redes (trabalhando um pouco contra as leis da física), depois reclamam que o número de golos que resultam da marcação de um canto, diminuem;
  • os avançados correm mais para defender, do que para atacar; marcam menos golos porque supostamente dão intensidade ao jogo defensivo correndo que nem loucos atrás da bola junto da defesa adversária e depois falta-lhes um “Danoninho” quando tentam marcar golo, falta-lhes a melhor condição para decidir;
  • todas as equipas querem “sair a jogar” partindo do guarda-redes em passes curtos (quantos guarda-redes jogam bem com os pés?), os quais, embora mais fáceis de executar, sob pressão e quando não têm técnica para isso… Perdem a bola numa zona perigosa;
  • a maioria das equipas do campeonatos nacionais (incluindo algumas do 3º escalão), treina em segredo de porta fechada; depois reclamam que se sentem intimidados e mal preparados para defrontar as adversidades de um ambiente competitivo hostil; será por isso que agora querem que ninguém use o português vernáculo para se manifestar num estádio de futebol?! A partir de agora as claques vão começar a cantar: – Exmº senhor jogador da equipa adversária, faça o obséquio de ir para casa!
  • joga-se de noite mas treina-se de manhã;
  • bloqueios não vale 🙂
  • todas as equipas têm treinadores de guarda-redes em todos os escalões há mais de 30 anos, mas a “produção” significativa de elementos para essa zona específica deixa muito a desejar, lutando a seleção e os clubes mais ricos de Portugal com enorme dificuldade para a ocupação desse posto de trabalho por parte de portugueses, não se verificando que sejamos grandes exportadores de “goleiros” ou “guarda-metas”.
  • segundos antes de um jogador entrar em campo, “despeja-se” um conjunto de tácticas e “processos” criativos usando dezenas de esquemas em papel ou mesmo com um belo tablet (por isso já se desenvolveram proteções de chuva e anti-queda para os mesmos).

Lá porque agora utilizamos termos como:

  • transição rápida em vez de contra-ataque,
  • transição ofensiva,
  • intensidade (pelo que dão a entender, mede-se pelos metros percorridos e número de pancadas dadas),
  • espaço entre linhas,
  • linha da bola,
  • autocarro (penso que se referem a um conjunto de defesas sempre diante da baliza, ao estilo do que se passa sempre no andebol e embora também no futebol seja permitido pelas regras, chateia que se farta os treinadores de equipas cheias de supostos recursos técnicos e tácticos),
  • corredor lateral e corredor central,
  • box to box (podemos dizer que é tipo atletismo num campo de futebol, tendo como consequência frequente, alguns centros disparatados sem oposição ou uma frequente ausência de laterais na defesa quando necessário),
  • o jogo interior (que é tipo: vamos para o “barulho” e nem sequer conseguimos um livre à entrada da área, mas também se o conseguirmos, não acertamos na baliza),
  • os movimentos de rotura (é tipo o jogo contrário ao “jogo passivo” de “lateralização” de bola),
  • marcação alta,
  • duas linhas de 4…

E ainda falavam do Manuel Machadês. Eu cada vez percebo menos disto. Mas também eles fecham a porta dos treinos… Por vezes nem os próprios treinadores parecem perceber o que estão a dizer, chegando ao cúmulo de discutir com os jornalistas que viram tal como nós espectadores, um jogador passar a 90% do tempo numa zona do campo, mas só o treinador é que viu que no sistema dinâmico que ele montou, que o jogador estava sempre no lado oposto e aparecia ali por magia (embora não conseguindo sequer ser ilusionista).

A evolução pela terminologia, o facto de chamarmos esférico à bola, não esconde a falta de treino na modalidade, nem o aumento do interesse pela playstation, o foco excessivo no telemóvel ou a preocupação pelas chuteiras de 300€ em vez de treinos adicionais de remate (perdão! Finalização) ou a dureza dos agachamentos e peso morto para reduzir as taxas de lesão e aumentar o potencial físico dos jogadores.

Infelizmente, nos últimos cinco ou seis anos, vejo mais evolução na linguagem do futebol, nos meios audiovisuais, no controlo dos deslocamentos por GPS, nos elásticos, barreiras, colchões e cones utilizados nos treinos, do que na inteligência de jogo, na capacidade para efetuar passes longos, na capacidade para centrar uma bola sem oposição e colocá-la devidamente num colega em vez de fazer dois dribles e “despacharem” a bola de qualquer maneira, na capacidade para jogar nas costas da defesa, nos remates de fora da área (melhor dizendo: meia distância), na capacidade para tirar o “autocarro” da frente da baliza e encontrar espaços, na capacidade para jogar contra 10, na capacidade de gerir ambiente emocional de jogo dentro e fora do campo, na criatividade e eficácia das bolas paradas…

Para tudo isto, treina-se 90 minutos por dia 4 a 5 vezes por semana, porque qualquer processo de treino que envolva a comunicação e socialização de onze indivíduos é extremamente fácil e rápido de consolidar 🙂 É tudo muito científico.

Por incrível que pareça, continuo a aprender sobre futebol no Bar da SporTV. Pode ser útil e divertido 🙂

Com que idade começar o treino de força?

A atividade competitiva começa cada vez mais cedo. Nos anos 80 começavamos a competir a sério com 13 anos. O que fazia sentido porque é uma fase em que desenvolvemos a nossa própria identidade, já defendemos ideais e valores e temos outra capacidade mental para resolver problemas. Em termos físicos, já existe outro tipo de maturação e alterações estruturais que permitem maior sobrecarga sobre o corpo.

Na atualidade começam a competir antes dos 10 anos de idade. No futebol, desporto de contacto e uma das modalidades com maior índice de lesões por praticante e horas de prática, encontramos situações de 20kg de diferença de peso corporal em crianças com a mesma idade. Imaginem o impacto de um jovem de 60kg contra um de 40kg. Nesse aspecto, os desportos de combate são bem mais justos.

Se competem e estão sempre sujeitos a cargas muito superiores às do seu peso corporal, quer impostas pelos adversários (que eles não controlam), quer impostas pelas ações motoras que tem de executar como correr, saltar, rematar, acelerar e travar movimento,  pensando que a força = massa x aceleração, estas crianças estão sujeitas a forças significativas para as suas estruturas físicas.

Do ponto de vista fisiológico, eu apenas evitaria cargas máximas com muita frequência. Mas, mais importante é o grau de maturidade, a capacidade de se focarem numa tarefa e cumprirem indicações do treinador com precisão. Se forem obrigados e sem diversão, complicamos as coisas.

Desde os meus 17 anos que treino crianças e adolescentes em clubes e escolas (31 anos). Quando lhes mostramos a importância de se protegerem e de aumentarem o seu potencial através de exercícios como os afundos de pernas, os agachamentos, as flexões de braços, as progressões das elevações e abdominais, eles parecem responder quase sempre de forma positiva.

Para tal, temos de nos focar na técnica primeiro. Sempre! Se nos focarmos nas repetições ou ignorarmos as técnicas que não respeitam a física e a anatomia, vão instalar-se erros grosseiros em fases precoces de aprendizagem e depois será difícil corrigir essa situação.

Devemos individualizar o processo de treino, designando um tipo de progressão diferente a cada indivíduo. Por exemplo: uns fazem flexões de braços completas mas ficam a um cm de tocar o solo, outros pousam completamente o corpo e empurram para terminar em prancha, outros apoiam joelhos, fazem a flexão e na extensão dos cotovelos passam para prancha.

Evitamos a competição entre eles quando ainda não dominam bem os exercícios.

Do ponto de vista do processo de ensino-aprendizagem, não há problema em adicionar carga, desde que já tenham bons níveis de força/resistência. Exemplo: se alguém consegue efetuar 100 agachamentos consecutivos, o melhor é adicionar a carga de uma barra. Se o indivíduo domina a técnica de agachamento com o peso do corpo, também será mais fácil introduzir a técnica com barra. Ou seja, as progressões são importantes.

Quando eles forem capazes de fazer mais de 50 agachamentos bem feitos, 15 flexões de braços, 15 elevações com salto, 40m de afundos de pernas, 10” de l-sit, então está na hora de criar mais sobrecarga. Até lá, não necessitamos material adicional. E quando for necessário, recomendo uma barra, discos e uma estrutura de apoio. Nessa altura, os exercícios serão ensinados em pequenos grupos de 3-5 jovens.

No caso dos desportos de equipa, recomendo reservar um tempo de 5 a 15 minutos no final do treino para a fadiga imposta pelos exercícios de força não influenciar negativamente a aprendizagem técnica.

Devemos incentivar o treino individual em casa com pequenas sessões de 5 minutos (ver treino 475).

No grupo, temos de ensinar uma técnica e deixar que durante 2 semanas a dominem e só depois adicionar stress. Exemplo: enquanto a técnica não está 70-80% consolidada, eu não peço para efetuarem X repetições no menor tempo possível ou outro tipo de condicionamento que imponha intensidade, pois irão perder o controlo. E mesmo quando já dominam as técnicas, durante um circuito, se perderem 40% da técnica, temos de parar, respirar, corrigir e eventualmente voltar ao desafio.

Aqui fica uma forma de introduzir exercícios com poucas repetições, em grupo e de forma organizada:

Se os exercícios com o peso do corpo forem adequadamente apresentados e introduzidos, os jovens vão sentir no seu dia-a-dia e no desporto, alterações tão positivas que vão sempre pedir mais. Mais importante ainda: criamos uma cultura para o futuro deles, gravando a necessidade de fortalecer o corpo para um futuro adulto. Recordemos que vivemos tempos em que infelizmente nos tornamos top europeu de obesidade infantil.

Recordemos que a condição física é transversal a todas as atividades. Se esta melhorar, tudo melhora. A força é a capacidade motora que mais impacto tem nas outras todas, por isso, podemos começar por aí.

Devemos dar preferencia ao treino individualizado e cargas sub-máximas. Se a técnica for boa, se o jovem está mentalmente preparado e obedece às indicações do treinador, podemos aproximar-nos de 6 a 8 Repetições Máximas.

Pela nossa experiência, controlar a parte excêntrica do movimento costuma ser um problema em crianças e jovens. Enquanto não atingirem um grau de maturação 4 na Escala de Tanner, devem evitar-se progressões lineares avançadas devido à influência que o grau de maturidade tem na recuperação. Em muitos casos por volta dos 16 anos a sobrecarga já poderá ser maior em termos de intensidade e volume.

Algo mais a ter em consideração é a concentração, a brincadeira excessiva, os períodos de recuperação quando trabalham com cargas mais pesadas. Adicionar algo de diversão que não deturpe a técnica do exercício e não se transforme naquele circo que agora vemos por aí camuflado por vezes com o título de treino funcional. Muita atenção para o controlo da velocidade de execução. Fundamental manter uma amplitude total de movimento eficaz para as articulações envolvidas e para o tipo de exercício que está a ser realizado.

A ideia é proteger de lesão e aumentar o potencial do jovem, fortalecendo-o, deixando boas práticas para um adulto mais saudável e mais sensível para este tipo de treino.

Exemplos de treinos:

Exemplos de treinos de transição para cargas adicionais:

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