Se tivermos uma doença grave, queremos o melhor médico do mundo.

Se tivermos uma doença grave, queremos o melhor médico do mundo. Não vamos perguntar à vizinha. Então, porque acreditamos em todo e qualquer indivíduo que nos indica algo sobre exercício físico?

Validem as vossas fontes de informação:

  • Que formação técnica e profissional tem a nossa fonte de informação?
  • Quer vender-nos algum produto?
  • Quantas pessoas treinou?
  • Que tipo de pessoas treinou (atletas, idosos, sedentários…)?
  • Que experiência tem? Tem um ano repetido dez vezes, ou construiu um conhecimento sólido baseado em grandes princípios de treino.
  • Ele próprio incorporou o exercício na sua vida de forma equilibrada e foi adaptando o programa de treino ao longo dos tempos?
  • Tem muitas certezas absolutas?
  • Interessa-se por nós como pessoa?
  • As indicações que nos dá, incluem sono e alimentação?
  • Faz perguntas poderosas?

Estas são apenas algumas questões que nos deveremos colocar a nós próprios ao aceitar informação sobre exercício e estilo de vida que vem de uma fonte desconhecida. Não tem de ser perfeito, mas… Também não pode ser qualquer um. Embora (confesso), grande parte das soluções no que toca ao exercício físico estejam mesmo dentro de nós. Por vezes, apenas necessitamos de uma ajuda profissional séria e uma dose de motivação que nos faça

Como diria Arthur Jones: “Se queres aprender a treinar um cavalo de corrida… Não perguntes a um cavalo de corrida!”

O Sistema CAM

Roberto G. Radaelli
Roberto G. Radaelli

Por Roberto G. Radaelli

biomecanica@professor.sp.gov.br

Introdução

Trata-se de um sistema que varia a resistência oferecida pelos equipamentos de musculação, de acordo com a capacidade de produção de força dos músculos envolvidos nos exercícios.
O Sistema CAM, foi desenvolvido na década de 70, nos Estados Unidos, por Arthur Jones, após ter observado que os músculos esqueléticos variam sua capacidade de produzir força dentro dos seus respectivos arcos articulares.

Física do Sistema Muscular (músculos, ossos): Arthur Jones e sua equipe, primeiro precisaram definir exatamente, as curvas de potência de todos os grupos musculares, ou seja, precisaram definir onde (em que ângulo) cada músculo do esqueleto humano (relacionados ao movimento) aumentava e diminuía sua capacidade de produzir força dentro de seus respectivos arcos articulares.

Física: O segundo desafio envolvia basicamente a Física, onde, através de alavancas e polias, ele precisou calcular com precisão “como?”, ele conseguiria variar corretamente a resistência oferecida aos músculos, para igualar o braço de momento da resistência (dos equipamentos) ao braço de momento de força (dos músculos).

“Melhor que forçar o homem a se adaptar à máquina, devemos fazer com que a máquina se adapte ao homem”.

“Para facilitar a participação (Ativação) muscular, você deve variar a resistência.”
Gideon B. Ariel (PHD)
“sobre o sistema CAM”

Discussão

Gideon B. Ariel (PHD) afirma que em 1972 introduziu este sistema. Sabemos que, mesmo tendo ele algumas opiniões que divergiam das do Sr. Jones, ele desenvolveu alguns equipamentos para Arthur Jones.
Grande parte da comunidade científica internacional considera Arthur Jones (1926-2007), fundador das empresas Nautilus e MED-X, como o “pai” do sistema CAM, criando esse sistema no inicio da década de 70.

Arthur Jones em uma das primeiras linhas Nautilus.

Um pouco de história e curiosidades sobre a evolução da biomecânica mundial:

Das empresas internacionais, a pioneira no Sistema CAM é sem dúvida a Nautilus. Em 1986 Arthur Jones vendeu a Nautilus e fundou a MED-X.
Um dos maiores designers da atualidade em desenvolvimento de equipamentos contra resistência (que tem total domínio sobre a tecnologia CAM), é o engenheiro mecânico Greg Highsmith, formado pela Iowa State University onde cursou de 1979 a 1984.
Após se formar Highsmith trabalhou na Cybex de 1985 a 1996 como diretor de produção dos equipamentos de força. De agosto de 1996 a maio de 2007 o Sr. Highsmith trabalhou na empresa Life Fitness, como vice-presidente de educação e produção de equipamentos de força e de junho de 2007 até hoje (Jan./2009), trabalha em uma divisão da empresa Technogym nos EUA, como diretor de marketing de produtos.
A empresa Hammer Strength fundada por Gary Jones (filho de Arthur Jones) no início dos anos 80, inicialmente utilizava somente sistema de alavanca, que igualava a curva de resistência à curva de potência do grupo muscular envolvido no exercício; Nada mais do que o sistema CAM em equipamentos de alavancas.

Significado das letras (C.A.M.)

Por que o sistema que varia a resistência durante o executar dos exercícios foi denominado de CAM?
A análise a seguir não é proveniente de nenhuma pesquisa ou informação oficial por parte das empresas (Nautilus e MED-X). Trata-se somente de uma análise com base em estudos e pesquisas biomecânicas.
E mesmo que não estiver correta a seguinte análise, isso não anula o restante do presente estudo sobre equipamentos para treinamento resistido, pois cabe à empresa que lançou o sistema no mercado denominá-lo, e ao fim da análise ficará claro que faz sentido minha suspeita quanto ao significado dessas letras.
É simples. Nos exercícios resistidos nós temos de um lado os músculos e suas determinadas capacidades de resistência à tração, e de outro lado os equipamentos que são responsáveis por gerar a resistência a esses músculos. No ângulo em que o músculo tem uma maior capacidade de produzir força (suportar mais carga), também mencionamos que é onde esse músculo gerou um maior braço de momento de força. Desta forma os músculos estão relacionados com o termo “braço de momento de força” (maior ou menor, podendo vir a variar durante toda a amplitude articular, ou parte dela).
Já os equipamentos podem gerar dois tipos de resistência, levando em conta a variação da resistência: Resistência dinâmica constante, que não varia a resistência durante todo percurso de deslocamento, ou; Resistência dinâmica variada, que varia a resistência dependendo da capacidade dos músculos envolvidos no trabalho. No caso da resistência dos equipamentos o termo usado é, “braço de momento da resistência”. Quando a resistência gerada é menor, dizemos que o braço de momento da resistência naquele ângulo foi menor e quando a resistência foi maior dizemos que o braço de momento da resistência neste ângulo foi maior.
Neste sentido de análise, quando o sistema CAM iguala a curva de resistência (dos equipamentos) à curva de potência dos músculos envolvidos em cada exercício, na verdade está igualando, o braço de momento da resistência dos equipamentos ao braço de momento de força dos músculos.
Agora vejamos como faz sentido, usando a análise anterior nas letras;
Braço de momento em português significa Moment Arms em inglês. Quem lançou o sistema CAM no mercado usou a língua inglesa para isso, por tanto só conseguiremos achar um significado para as letras C. A. M. no idioma inglês.
O Sistema CAM converge (iguala) em um mesmo ângulo o braço de momento dos equipamentos (Braço de Momento da Resistência) e o braço de momento dos músculos (Braço de Momento de Força), igualando desta forma a resistência, a real capacidade de produção de força dos músculos. Ficando desta forma:

Convergent Arms Moment ou ainda:

Inglês

Convergent Arms Moment

Português

Braço de Momento Convergente

Conceitos de algumas empresas globais sobre o S. CAM

Technogym: A technogym chama as polias CAM de Physio Cammes e diz que as mesmas foram projetadas de modo a adaptar a carga de maneira fisiológica às variações de força ligadas à biomecânica articular.

Cybex: A empresa afirma que em seus equipamentos, o perfil da resistência em cada movimento tem sido projetado na máquina, assegurando que a resistência venha suprir como um espelho completamente a capacidade do corpo no percurso de deslocamento.

Nautilus: A Empresa afirma que em seus equipamentos a curva de resistência se iguala à curva de potência dos usuários para máximos resultados.

Opinião de um profissional renomado

Dr. José João Zanini Filho (Reportagem publicada na revista Muscle In Form Ano 6 número 30/02) – Referindo-se ao sistema CAM- ” A outra evolução identificada se refere aos sistemas operacionais das máquinas que passam a utilizar polias excêntricas, cientificamente projetadas para permitir a excelência do movimento, onde no executar dos exercícios, as resistências variam em conformidade com o arco articular, adaptando-se assim a carga às variações da curva de força, proporcionando uma prática segura do exercício e muito mais resultados práticos”.
O fato é que esse sistema, se bem elaborado, realmente iguala entre todos os ângulos de trabalho muscular, a quantidade de resistência oferecida pelos equipamentos à real capacidade de produção de força do grupo muscular envolvido no exercício.

Em minha opinião, com todo respeito, não se trata exatamente de polias excêntricas como sugere o Dr. Zanini, mais no caso de equipamentos com sistema de polias, pode-se usar simplesmente polias irregulares (não necessariamente excêntricas). Afirmo ainda que a resistência não precisa ser necessariamente variada com polias (ainda que é a melhor maneira de se variar a resistência), mas também podemos variar a resistência, com alavancas, ângulo de inserção dos cabos nos equipamentos, etc.
Porém o Dr. Zanini está correto ao afirmar que a carga (resistência) é adaptada às variações da curva de força.

Trocando em “miúdos”: Onde os músculos têm uma maior capacidade de suportar cargas, o equipamento com o CAM, (através de Polias ou alavancas, ou ângulo dos cabos) aumenta a resistência, e obviamente onde os músculos têm uma menor capacidade de suportar cargas o equipamento diminui a resistência.
Desta forma, o equipamento é que se adapta à mecânica humana.
Com um correto sistema CAM, o equipamento não permiti que os músculos trabalhem em limiares abaixo de sua real potencialidade, como ocorre com a resistência dinâmica constante.
O sistema atua também diminuindo a chance de lesões musculares, uma vez que, onde os músculos têm uma menor capacidade de produção de força o equipamento diminui a resistência, fazendo assim com que os músculos não ultrapassem sua capacidade de suportar carga e desta forma venham a sofrer alguma lesão por sobrecarga.
Isso costuma ocorrer quando a resistência utilizada é a dinâmica constante, uma vez que, como a resistência não varia de acordo com a capacidade de produção de força dos músculos, pode vir a ocorrer, que em determinados ângulos seja oferecida uma resistência maior onde os músculos não consigam suportar, facilitando desta forma a ocorrência de lesões musculares.

Conclusão

Concluo que um autêntico sistema CAM, aumenta a eficiência dos exercícios para qualquer tipo de objetivos,
hipertrofia, reabilitação ou condicionamento físico, diminuição de adiposidade, etc.
São equipamentos ideais para reabilitação, desde que seus sistemas de regular amplitude (ROM) estejam perfeitamente sincronizados com o CAM.

Referências Bibliográficas

AABERG, E. Bio-Mechanically Correct. Dallas: Realístic, 1996.

ARIEL, G. Variable Resistance vs. Standard Resistance Training, Scholastic Coach 46 (5), DEC: 1976, 68-69; 74.

CAMPOS, M. A. Biomecânica da Musculação – Rio de janeiro: Sprint, 2000.

CAMPOS, M. A. Exercícios Abdominais: Uma abordagem prática e científica – Rio de janeiro: Sprint, 2002.

CARPENTER, C. S. Biomecânica. Rio de Janeiro: Sprint, 2005.

MIRANDA, E. Bases de Anatomia e Cinesiologia. Rio de Janeiro: 6º edição: Sprint, 2006.

NAUTILUS’S CATALOGUE. Features. CAM-Tecnology. 15 pg. Switzerland, 2003.

OKUNO, E; FRATIN, L. Desvendando a física do corpo humano: Biomecânica. Barueri, SP: Manole, 2003.

WALLACE B, WINCHESTER J, MCGUIGAN M, (2006). Effects of elastic bands on force and power characteristics during the back squat exercise. Journal of strength and conditioning research, 20 (2): 268-272.

Arthur Jones

Arthur Jones foi o fundador da Nautilus Sports/Medical Industries e da MedX, Inc., foi também o criador das máquinas Nautilus nos anos 70. Ainda hoje o design das cams fisiológicas destas máquinas não é fácil de superar.

Revolucionário nos anos 70 com ideias que então eram contestadas, consideradas uma heresia e hoje em dia fazem parte das orientações do American College of Sports Medicine para o treino de força.

A grande vantagem deste Senhor, foi o facto de não ter como objectivo principal enriquecer ao criar máquinas de musculação. Era já uma pessoa com alguma riqueza, tendo mesmo o maior aeroporto privado dos EUA (ainda existente: Jumbolair e hoje em parte adquirida pelo actor John Travolta). Aliás, foi mesmo nomeado na lista da Forbes Fortune como uma das 400 pessoas mais ricas.

Este homem tinha o espírito do verdadeiro inventor, do verdadeiro cientista: céptico, curioso e disposto a levar as coisas até ao fim. Gastou milhões de dólares para criar máquinas diferentes, máquinas que fizessem algo que os pesos livres não eram capazes. Conseguiu desenvolver a cam, uma peça revolucionária que permitiu e permite uma variação da resistência das máquinas que ainda hoje utilizamos. Depois da Nautilus, outras marcas copiaram as cames desconhecendo o que as fazia funcionar tão bem nas velhas Nautilus com suavidade e pouco atrito.

As ideias de Arthur Jones passavam por incentivar um trabalho mais intenso em vez de um trabalho baseado em grandes volumes de treino. Realizou diversas experiências que podemos considerar de pouco académicas, mas que, pelo menos não estavam povoadas de assunções, dogmas, presunções e patrocínios como as investigações comuns no desporto da actualidade.

Em 1986, vendeu a Nautilus e criou a Med-X. Faleceu de causas naturais em Agosto de 2007 em Ocala, Florida (local onde residia). O seu filho Gary Jones, viria a criar outra revolução nas máquinas de musculação, a: Hammer Strength.

Um verdadeiro cientista!

Mais informação:

Wikipedia

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