O personal trainer começa no carrossel

Levo mais de 3 décadas a treinar pessoas e a frequentar ginásios como professor e utilizador, e como ainda não percebi quatro estratégias para vender o serviço de personal training:

  1. Não dês atenção ao cliente para ele comprar PT.
  2. Luta pelas avaliações da condição física e pressiona a venda com o mecanismo dor-prazer e toneladas de descontos com sentido de urgência.
  3. Sub-contratar pessoas que recebem 20% do valor pago ao balcão por um cliente. Obviamente que, ao contratar um profissional em início de carreira para desempenhar uma função avançada, vai ter uma enorme exigência para o profissional e haverá enorme probabilidade de ocorrer um desfazamento entre a expectativa dos 40€ pagos pelo cliente e o ato humano (serviço) do esforçado profissional.
  4. Vender o corpo, vestindo roupas ousadas, justas, “descapotáveis”, para criar a ilusão que todos podemos ter aquele corpo, sem drogas, sem viver para treinar, sem a genética daquela instrutora ou instrutor de 20 anos. Não interessa o que és capaz de fazer, nem a tua funcionalidade. Apenas interessa o teu aspeto físico.

A primeira situação é ridícula, porque dificilmente alguém que nunca me viu trabalhar, alguém a quem eu não dei atenção, a quem eu nunca mostrei a minha competência, me irá confiar a sua saúde e o seu dinheiro. Simplesmente estarei a dar uma má imagem. É do género: só vou mostrar todo o meu futebol quando for jogar para uma grande equipa e quando for muito bem pago.

Na segunda estratégia, estamos a falar da primeira ou segunda visita de um cliente do qual pouco sabemos, com o qual pouco ou nenhum rapport fizemos, alguém que não tem a nossa confiança… Por isso a solução usada é criar imagens muito más na mente do cliente, dizendo-lhe que no caso de não iniciar um programa de treino daqueles que propomos, ele irá ficar muito mal de saúde, que lhe vai acontecer isto e aquilo, usamos palavras poderosas como “imagine”, “transformação”, “você pode melhorar se…”, “faz sentido para si?”, criamos imagens detalhadas na sua mente, procurando gerar uma sensação má. Depois mudamos a nossa expressão corporal, mudamos o tom de voz e apresentamos a solução mágica do pack de personal training, o qual, por acaso, até ao final daquela semana está com uma oferta (ou desconto) extraordinária. É tipo a técnica do telejornal: notícias más e depois vem o prazer dos anúncios publicitários.

A terceira situação resultará durante algum tempo, porque há muitos jovens em busca do primeiro emprego, os quais são basicamente ensinados a usar as duas primeiras estratégias mencionadas, vendem 500 treinos num ano a 50 pessoas diferentes, das quais poucas pessoas voltam a comprar e são rapidamente substituídos por outros treinadores e assim se alimenta o sistema de vendas. Já se questionaram porque é que não há mais pessoas a frequentar ginásios do que em anos anteriores, mas existe uma tremenda oferta de emprego no personal training? Soa um bocado à oferta de emprego intitulada “procuram-se vendedores”, “diretores comerciais”… É estranha esta aplicação da leia da oferta e da procura.

Para terminar, podemos ser sedutores e provocadores diante dos clientes, complementando essa tarefa árdua com dezenas de publicações de instagram reveladoras dos principais grupos musculares 🙂

Mas será duradoura esta estratégia? Ela sempre existiu e continuará a existir. Foi adaptada de outras áreas, concebida com o foco na faturação rápida. Não está focada no cliente, não está centrada na necessidade de um profissional continuar 5 ou 10 anos a trabalhar nesta área com uma boa imagem. Recordo que o nosso nome é a nossa marca e marketing é tudo aquilo que fazemos para criar uma relação comercial com alguém. Vivemos num país de pequena escala e todos sabemos o quanto é difícil criar uma reputação e uma imagem de credibilidade.

Sabemos que gerar atenção positiva em direção à nossa pessoa e criar uma relação de confiança, são chave para o nosso negócio de treinadores. Nesse sentido, recomendo um bom carrossel (dar um momento de atenção a cada cliente de acordo com as necessidades individuais; no fundo, dar um, dois ou 3 minutos de PT) para quem trabalha em sala de musculação (o coração de qualquer ginásio, o berço do personal training, o local para onde “atiram” com as populações especiais):

  • façam marcações para as primeiras 1 a 4 sessões de treino, criando nesses treinos iniciais uma amostra daquilo que é o personal training (máximo 2 pessoas por cada slot de tempo de 30min);
  • organizem-se entre os instrutores de sala, para uns estarem nas marcações e outros estarem a fazer o carrossel;
  • chega a horas muitas vezes, durante muito tempo, para obteres o rótulo de: “pontual”;
  • cumprimenta todos os presentes;
  • procura saber os nomes de todos os que frequentam o ginásio e algumas características pessoais. Usa o teu diário para isso;
  • traz sempre contigo o livro que andas a ler e deixa-o em cima da tua secretária :);
  • compra umas sapatilhas só para uso no ginásio;
  • se possível usa polos de boa qualidade em vez de t-shirts e um equipamento sóbrio;
  • presta atenção à tua higiene pessoal antes de entrar na sala (hálito, cheiros, barba, cabelo… Imagina que vais entrar em palco);
  • evita perfumes fortes que possam incomodar ou transferir-se para os clientes;
  • objetiva sempre a prática de quem chega (ao nível da intensidade, da técnica, da continuidade ou não de certos exercícios);
  • todas as pessoas devem ter um registo diário de treino (variáveis importantes: data, duração total do treino, exercícios, repetições, carga, distância, nível de esforço, distância);
  • evita sentar no computador;
  • sempre que falas com um cliente, foca toda a atenção nele, naquilo que te está a dizer e na sua linguagem corporal;
  • deixa o telemóvel fora da sala;
  • evita ficar demasiado tempo com um cliente (toda a gente nota isso. Esse tempo dependerá do número de pessoas na sala). Mas dá o mesmo tempo a todos os presentes, mas não sejas inoportuno;
  • procura criar diálogos entre os clientes próximos;
  • ensina tudo o que sabes, todos os teus segredos, nunca te limites apenas porque desconfias que aquela pessoa não tem capacidade para comprar PT;
  • educa as pessoas. És um educador!;
  • usa o sistema interno de TV para persuadir pessoas a melhorarem a sua técnica (ex: recolhe um conjunto de vídeos de boas técnicas executadas por pessoas parecidas com os clientes e coloca numa das TVs; podes ser radical e colocar acidentes por má técnica, se vires que há gente a colocar em risco outras pessoas e estão com dificuldade em atender as tuas indicações);
  • coloca música ambiente de acordo com o tipo de clientes (fica sabendo que não há uma solução para todos, por isso recomendo música comercial de maior aceitação geral, os anos 80 são sempre boa opção. Usa uma rádio de acordo com a faixa etária dos clientes). Cuidado com o volume da música;
  • trata os clientes como pessoas, como seres bio-psico-sociais, porque os fracos estão apenas focados na fisiologia;
  • lidera pelo exemplo;
  • treina fora do teu horário de trabalho diante dos clientes, porque eles adoram ver que tu também treinas;
  • se treinares com um amigo, faz de treinador com ele e depois troca de posição (é uma forma de apresentares os teus skills de comunicação a quem está a ver);
  • se encontrares clientes fora do ginásio, reconhece-os como tal, com um sorriso, um olá, ou uma pequena conversa, se notares que parecem estar disponíveis para isso;
  • em vez de dizeres que és bom, faz tudo para que essa opinião prolifere indiretamente pelos colegas e pelos clientes. Ou seja, menos publicidade, mais relações públicas;
  • preocupa-te menos com os programas de treino, com as receitas e foca-te mais em ensinar técnica, adequar os exercícios aos clientes, fazer boas progressões e ajustar intensidade. Ou seja, ensina-os a cozinhar :);
  • mostra o teu entusiasmo na comunicação visual, auditiva e cinestésica;
  • tem atenção para não invadires o espaço íntimo das pessoas e quando o fizeres, sê rápido e profissional;
  • se tiveres de tocar em alguém, usa a mão em lâmina e as costas da mão. Em certos casos excecionais em que necessitamos de maior ponto de contacto, durante muito tempo, usamos uma toalha (uma por cliente);
  • cuida da tua postura, da tua linguagem corporal. A colocação dos pés de forma equilibrada, o peito elevado, a posição da cabeça e das mãos, é muito importante;
  • sê honesto; a mentira tirou sempre a boa reputação desta indústria do fitness;
  • porque prometes o que não consegues cumprir? Porque prometes resultados que estão fora do teu controlo?;
  • evita vender poções mágicas e suplementos milagrosos;
  • leva os clientes para fora da zona de conforto de acordo com a tolerância ao esforço de cada um;
  • aplica o princípio de sobrecarga porque é a ferramenta base do teu trabalho;
  • faz tudo para que as pessoas não necessitem usar auriculares e sintam necessidade de conversar com outros clientes e contigo. Desta forma estarás a fomentar a comunicação na tua “tribo”;
  • faz cumprir as regras de funcionamento da casa, mas foca-te primeiro no cliente;
  • o cliente nem sempre tem razão, mas é sempre o cliente;
  • procura fazer programas de treino que resultem com uma enorme variedade de clientes. Encontra um modelo de treino base para tirar as pessoas do sedentarismo e fazer com que venham ao ginásio 3 vezes por semana, para depois construires a intensidade a partir daí;
  • nos programas generalistas, procura uma série ou duas de trabalho até à falha muscular;
  • pede às pessoas para fazerem cada série até à falha muscular nos programas generalistas (elas não chegarão lá, mas irão pelo menos chegar à falha volitiva);
  • pede amplitude total de movimento;
  • mal uma pessoa consiga fazer 8 a 12 repetições ou 30 a 90 segundos numa máquina, aumenta a carga (tens de estar muito atento);
  • cuida da posição da coluna como prioridade (cabeça neutra, manter as curvaturas da coluna e evitar movimentos de rotação);
  • usa um método para ensinar cada exercício (recorda que as pessoas necessitam de um treinador por falta de disciplina, falta de método e de um processo de controlo);
  • dá indicações pós treino sobre repouso, alimentação e afins;
  • se te aperceberes que alguns clientes necessitam dicas para os seus aquecimentos de atividades desportivas fora do ginásio, ajuda-os;
  • gera atenção positiva em vez de pressionares as vendas;
  • em sala, para fazer passar muita gente, temos de ter mais padronização do que personalização em termos de programação, por isso temos de nos focar nos momentos de contacto para personalizar;
  • aprende muito sobre programação neurolinguística, hipnose, psicologia, sociologia e recorda que a base segura do treino é BIOLOGIA, FÍSICA, ANATOMIA E PRINCÍPIOS DE TREINO (segura-te no que é sólido);
  • aprende sociologia e dinâmicas de grupo;
  • procura posicionar-te sempre de forma a veres toda a sala;
  • faz pausas de 5min de hora a hora (hidrata, come, medita, carrega baterias);
  • escuta e aprende com os clientes;
  • eleva os teus standards e procura modelos de ação e ambientes 5 estrelas. Como é um hotel de 5 estrelas? Como se apresentam os funcionários? Como atuam? Como é esse ambiente? (frequenta alguns desses e outros locais de elevada exigência nos serviços para te inspirares e trazeres ideias de melhoria para o teu local de trabalho);
  • foca-te no PROGRESSO das pessoas porque fazer horas de treino sem progresso, é pouco produtivo;
  • em vez de avaliações da condição física, faz triagens de acordo com fatores de risco e nada de rotular os clientes como medíocres, maus e obesos mórbidos;
  • não dês beijinhos às meninas bonitas e “bacalhaus” às feias (vais ter sarilhos com isso);
  • quando entrares na sala, arruma tudo e faz para que tudo se mantenha arrumado na tua hora de trabalho;
  • todos os clientes devem ter programa de treino; de preferência uma folha com registo diário e que possa ser colocado dentro de uma folha de plástico e pendurado em qualquer máquina (sim, resulta com 3 mil pessoas, também resulta no teu local de trabalho);
  • quem é responsável pela sala és tu e tudo o que aconteça de bom e de mau, é da responsabilidade do Diretor Técnico (o teu boss);
  • os clientes ajudam-se uns aos outros, mas não são instrutores;
  • eu sei que é mais fácil trabalhar com a vossa faixa etária, mas Portugal tem mais de 4 milhões de pessoas acima de 50 anos que dominam a sociedade do ponto de vista político, económico e social. Na maioria dos casos pagam aos de 20 para irem ao ginásios. A grande maioria dos clientes do serviço de personal training têm mais de 40 anos;
  • evita competições do estilo homem mais forte do mundo e similares. Em vez disso cria dinâmicas em que todos tenham possibilidades de contribuir e se sentirem bem (exemplo: volta a Portugal em remo ou Porto-Paris em bicicleta);
  • atribui importância ao progresso técnico, ao progresso em termos de frequência e finalmente em termos de intensidade;
  • coloca como prioridade na tua instrução: 1º técnica, 2º técnica sob stress, 3º endurance;
  • adiciona valor e adequa-te ao preço que estás a praticar e ao mercado onde desenvolves o teu trabalho;

Nos carroceis, as pessoas que recolhem as fichas, passam por todos os clientes. Os instrutores devem fazer o mesmo. Se temos 3 pessoas na sala, temos de dar micro-sessões de treino personalizado a cada um desses clientes, distribuindo a atenção de forma equilibrada, procurando também conhecer cada pessoa de forma a melhor comunicar com ela, de forma a melhorar a frequência semanal, fazendo com que a pessoa “consuma” exercício físico para sentir os benefícios bio-psico-sociais do mesmo e depois ir trabalhando a intensidade de forma a ocorrer progresso. A consequência natural será: seduzir clientes para o serviço de personal training (os quais terão de ter condições financeiras para o fazer) e criar um conjunto de fans que irão vender por nós, falando aos amigos, recomendando os nossos serviços e criando uma imagem pública da nossa pessoa e da nossa ação profissional.

Conscientes que nem todos serão clientes do serviço de personal training, mas todos terão uma opinião sobre nós, mesmo que nunca tenhamos uma interação com eles. O teste? Aquilo que os clientes dizem de nós quando não estamos presentes.

Bons treinos!

Personal Trainer – As 11 Estratégias Top Para o Sucesso

Reunimos neste pequeno texto algumas estratégias que sempre funcionaram independentemente dos ambientes, das pessoas e dos locais onde operamos ao longo destes 30 anos, durante milhares de horas, com milhares de pessoas diferentes.

1. Foco

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Vivemos hoje uma época de distracção. Solicitamos concentração, mas estamos muito treinados na distracção. O crossfit veio contribuir para maior ênfase em variedade, mas é impossível sermos bons em tudo. Por isso, a primeira grande ideia é focarmos a nossa atenção numa coisa de cada vez. Esse é o mesmo conselho para quem quer ser bom no crossfit: passar uns meses dando prioridade a um movimento, depois outra temporada a outro e assim sucessivamente. Dessa forma, se seleccionar bem os movimentos que aparecem na maioria dos WODs, será sempre mais bem sucedido do que aqueles que procuram progredir ao mesmo ritmo em tudo.

O personal trainer é um treinador gourmet. Deveria ser um profissional com boa formação e muita experiência, para poder fazer um fato à medida como faz o alfaiate ou criar pratos únicos e saborosos como um bom chef de cozinha. Para tal, tem de focar a sua atenção numa pessoa só. Toda a atenção. Se tiver 2 clientes em simultâneo está com um pequeno grupo, não é treino personalizado.

O personal trainer não é especialista em boxe, massagem, mobilidade, força, ginástica… Pode ter bons fundamentos em diversas áreas, mas haverá sempre uma base de trabalho.

Pessoalmente, considero que a minha especialidade é conseguir integrar bem as várias áreas do conhecimento como marketing, psicologia, sociologia e biologia durante um treino com uma pessoa. Por ter nascido como treinador no campo de futebol, crescido no ginásio, piscina e em escolas portuguesas, a experiência obtida nesses ambientes, é obviamente uma base de intervenção no meu trabalho. Suportado pela formação académica em educação física, gestão desportiva e psicologia, não esperem que eu invente nos meus treinos com artes marciais, dança ou brincadeiras com bolinhas e elásticos 🙂

2. Disciplina + Método + Controlo

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Existem 3 grandes razões pelas quais as pessoas necessitam ajuda de um coach, de um explicador, de um tutor, de um treinador:

a) Falta de auto-disciplina. A capacidade de cumprir uma rotina, um plano, de treinar quando está mais cansado, quando faz sol ou faz chuva.

b) Falta-lhes um método adequado para as suas necessidades. Quando temos 16 anos e vivemos em casa dos pais, quando andamos cheios de entusiasmo por sermos iniciados e temos 2h por dia para treinar, acabamos por usar todo esse tempo. Mas quando começamos a trabalhar, quando temos filhos e vida familiar intensa, a disponibilidade física, mental e temporal é diferente. O método usado para treinar 2h por dia já não serve. Embora as leis naturais sejam as mesmas, embora os princípios de treino se apliquem em ambos os casos, a realidade é bem diferente. É possível evoluir com 3 treinos por semana de 1h, mas o indivíduo que só sabe treinar com 2h por dia em 6 dias por semana, acaba por abandonar muitas das vezes por não poder aplicar o único método que conhece.

c) Por último, as pessoas não têm auto-controlo. É aí que entra o registo de treino, é ai que entram as aplicações de telemóvel, os diversos gadgets de punho, ou os anéis de controlo de atividade que procuram ajudar a criar disciplina e controlo.

3. Técnica => Intensidade => Endurance

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Um dos problemas da popularidade das corridas, dos trails ou do crossfit, é a falta de progressão e o excesso de volume numa fase precoce. Se mal dominamos a técnica e procuramos colocar demasiada intensidade e volume, arriscamos lesão. Enquanto não dominamos a técnica, não podemos colocar essa técnica sob stress (ex: efetuar muitas repetições em pouco tempo ou efetuar a técnica mal dominada no mínimo de tempo possível). Quem tem melhor técnica gasta menos energia. Isso é fácil de verificar na natação. Se eu dominar a técnica e procurar executar sob stress, consigo manter um padrão de movimento que respeite a física e a anatomia e assim, poder perdurar no tempo (endurance).

4. Física + Anatomia + Princípios do Treino

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As metodologias de treino podem ser muito diferentes, mas se não respeitarmos as leis da física, será tudo mais difícil de executar e arriscamos rapidamente lesão. Imaginem no agachamento, no press e no peso morto, uma barra que não está alinhada com o meio do pé. Dificulta imenso o exercício e obriga a tensões em pontos do corpo que não estão preparados para tal. O desrespeito pelas funções musculares e articulares, também leva a invenções de exercícios, técnicas que obrigam a um esforço inadequado de músculos que supostamente não deveriam ser os principais mobilizadores do movimento, desconforto generalizado e lesões muito comuns nas desproporções de trabalho parte superior com parte inferior do corpo, músculos de empurrar e músculos de puxar, etc.

Se me pedirem para verificar se o plano de treino B está bem feito, a primeira coisa que vou fazer é certificar-me que respeita as leis naturais do treino. Aliás, os princípios do treino deveriam ser aprendidos na prática por todos os clientes: sobrecarga, ação retardada e reversibilidade são muito desrespeitados pelos profissionais na criação de rotinas de exercícios.

5. Stress + Recuperação + Adaptação

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Treinar é sair da zona de conforto, é fazer algo ao qual não estamos habituados. Aplicamos assim um estímulo. Se deixarmos que o corpo recupere, este poderá produzir mudanças para se adaptar às novas exigências impostas por esse estímulo. Se treinarmos com demasiada frequência e não deixarmos os corpo recuperar, não haverá mudança positiva. Muitas metodologias de treino baseadas em grandes volumes e grande variedade de exercícios, não permitem uma recuperação adequada, gerando por vezes retrocesso, doença, overtraining, que são de certa forma, adaptações indesejáveis.

6. Seres bio+psico+sociais

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Uma pessoa quando treina, não é só um ser físico, mas cada vez mais assim é tratado pelos profissionais da atividade física: como se fosse um conjunto de interações bioquímicas condicionadas pela sua genética. Mas os fatores ambientais são responsáveis por mais de 70% daquilo que é o indivíduo. O estado de humor, o comportamento, a personalidade e os aspectos que conhecemos como psicológicos, têm de ser tidos em conta na hora de treinar pessoas. Por isso uma sequência de repetições 10-9-8…+1 funciona melhor com uma pessoa com perfil de afastamento. A cultura geral e desportiva, os factores familiares e socio-económicos, também condicionam a elaboração de um programa de treino, porque o ser humano é um ser social e as suas interações com outros indivíduos alteram positiva ou negativamente o seu estado. Esta abordagem bio-psico-social, tem vindo a ser cada vez mais utilizada na medicina também (felizmente). 

Muitos programas de treino esquecem que as pessoas fazem parte de um mundo real, não de um mundo utópico em que vivemos para treinar. As pessoas têm filhos, emprego exigente, deslocações, situações que não controlam (stress), dificuldade em preparar refeições e conseguir tempo de treino diário em slots exagerados de horas e horas como se fossem profissionais.

7. Coisas simples muito bem feitas com emoção

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Como em tudo na vida, são as coisas simples, muito bem feitas, de forma consistente que nos levam ao êxito. São os movimentos básicos repetidos de forma impecável e progressiva que nos levam de iniciados a intermédios ou avançados. Não são os exercícios de detalhe, os movimentos de reabilitação aplicados em pessoas saudáveis que  lhes vão melhorar significativamente o seu estilo de vida, a sua performance desportiva ou criar o bem-estar que procuram. Se aos movimentos básicos adicionarmos progressão e começarmos a gostar daquilo que fazemos, então o êxito está mesmo garantido e a sobrevivência assegurada.

8. Rapport + Comunicação VAKOG no aquário

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Muito antes de conseguirmos comandar, de acharmos que vamos impôr determinados exercícios ou um conjunto de repetições, temos de estabelecer rapport com um cliente, encontrar pontos comuns e definir uma base de comunicação visual, auditiva, cinestésico e olfativa para ajudarmos a pessoa a ir do seu estado atual para o estado desejado. Tudo isto, conscientes de que atuamos numa área de serviços, na qual se vendem “atos humanos” e onde estamos permanentemente sob observação de outros clientes e de outros profissionais. Aqui não há treinos à porta fechada, a não ser no domicílio dos clientes (situação que só recomendo em circunstâncias muito especiais e de preferencia se eles tiverem um espaço próprio de treino).

8. Força é a base

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A força é a capacidade base de todas as outras capacidades que conhecemos por velocidade, resistência, equilíbrio e agilidade. Mesmo a capacidade de coordenar várias ações motoras irá depender de algum nível de força. Podemos dizer que, se queremos carregar um camião com 50 fardos de palha, temos de ter força para carregar um fardo de palha. Sem isso não conseguimos completar a tarefa. Se queremos equilibrar-nos em cima de uma plataforma instável, temos de ter força para nos segurarmos numa plataforma estável. Por isso, é importante não colocar uma pessoa em cima de um situação instável; não colocar ninguém a saltar para cima de uma caixa antes de ser capaz de fazer 40 ou 50 agachamentos, correr à máxima velocidade (sprint) antes de ser capaz de fazer corrida lenta durante alguns minutos; agachar com barra antes de ser capaz de agachar em amplitude total com o seu peso corporal; de fazer “pino” antes de ser capaz de fazer 5-10 flexões de braços; fazer kipping toes to bar ou pullups antes de ser capaz de ficar suspensa cerca de um minuto na barra; fazer snatch antes de fazer overhead e peso morto com boa técnica e nível de força próximo do seu peso corporal, etc, etc, etc. Qualquer programa de treino de jovens ou idosos, terá como base o treino de força. Por isso, quando não vemos agachamento, press, peso morto, elevações ou uma progressão destes movimentos básicos, será difícil e arriscado efetuar com segurança outro tipo de movimentos que exijam mais coordenação ou velocidade.

10. Mudar estados – mudar hábitos

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Para resolver problemas, temos de mudar o estado em que abordamos o problema. Perder peso, melhorar, saúde, melhorar condição física, ter mais energia, diminuir stress, tudo implica mudar estados. E mudar estado do professor pode influenciar a mudança de estado no aluno. Mudamos estados, mudando o nosso foco, pensando noutra coisa, mudando a forma como representamos a realidade na nossa mente em termos de sons, imagens e sensações. Mudamos estados, mudando a forma como nos movimentamos, a forma como respiramos, a nossa postura, a nossa expressão. Para ajudar a mudar o comportamento de uma pessoa, o primeiro a mudar somos nós.

Reconhecemos que todos querem um processo rápido de mudança física e mental, por isso a indústria do fitness investe milhões em dispositivos e dietas milagrosas, para ir de encontro às necessidades dos clientes ou para criar necessidades não existentes nesses mesmos clientes. Basta ver a parafernália de acessórios que as pessoas levam para um treino no qual a sua demonstração de força ou condição física geral é medíocre.

Tudo o que se contrói rápido, destrói-se depressa. Processos rápidos e drásticos de perda de peso, rotinas de treino militares aplicadas a sedentários, muita imposição e uma permanente e violenta saída da zona de conforto, não costumam criar mudanças a longo prazo. Mudar hábitos, sempre foi a solução. A ciência diz-nos que podemos tardar entre 21 a 128 dias a alterar um hábito. Daí que seja necessário focarmos-nos num hábito que tenha grande impacto nas nossas vidas e trabalhar essa questão, em vez de tentar tudo ao mesmo tempo.

11. Progresso = Sucesso = Felicidade

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Progresso é o objetivo do treino. Por isso é mais fácil ter êxito numa atividade em que haja uma forma fácil de mensurar o progresso em termos de tempo, carga ou distância. Daí a procura da balança como forma de medir progresso nas pessoas que pretendem ser mais magras.

Progresso significa aplicar o já mencionado princípio de sobrecarga ou da intensidade. A pessoa que pega em mais peso é sempre maior e mais forte. Será muito difícil medir progresso no trabalho complexo com elásticos, nas aulas onde a confusão entre a preocupação coreográfica e a aplicação dos princípios de treino é evidente.

Embora a felicidade deva ser algo interior, sabemos que está intimamente ligada ao sucesso, ao auto-conhecimento, à perceção de sermos capazes de fazer algo, de resolver um problema ou vencer um obstáculo. Daí que progresso, sucesso e felicidade, estejam interligados.

As vendas são naturais quando o serviço é bom. Se os clientes estiverem satisfeitos, eles vão recomendar. Reparem que os negócios bem sucedidos fazem pouca publicidade (não necessitam dizer: “-Eu sou bom!”).

Bons treinos!