Entrevista a Bruno Teixeira: powerlifter/personal trainer

0Nome: Bruno Teixeira
Idade: 25 anos
Naturalidade: Chaves
Modalidade: Powerlifting
Contacto: obrunoteixeira@gmail.com

Há quanto tempo fazes powerlifting?

A minha primeira competição de powerlifting foi em 2013 e a última foi em 2017. Durante este tempo competi de forma contínua, mas já treinava para Powerlifting antes de 2013 e continuei a treinar depois de 2017, por isso “fazer” powerlifting pode significar muita coisa dependendo de cada um, para alguns só faz powerlifting quem compete e outros nunca competem e dizem que fazem powerlifting… Resumindo, pode-se dizer que faço powerlifting há mais de 5 anos.

Como começaste?

A verdade é que o meu início nesta modalidade foi acidental e diria até algo cómico ah ahah. Poucas pessoas sabem a história… Para melhor entendimento terei de explicar desde o princípio.
Desde os 14 anos que frequento ginásios, tendo na época começado com musculação num ginásio da minha cidade, com o objetivo de perder peso. A verdade é que os pesos passaram a fazer parte do meu dia desde então, mas ao contrário da maioria sempre me interessei mais pelas barras e os halteres do que pelas típicas máquinas de musculação, o que me permitiu com o decorrer dos anos e mesmo após ter perdido bastante peso, ganhar bons níveis de força.
Optei por entrar na Licenciatura em Ciências do Desporto e foi no 1º ano da Licenciatura,
que após alguns meses de paragem nos treinos pela primeira vez desde os meus 14 anos
regressei aos mesmos. Os meus níveis de força não se tinham perdido muito e comecei a
melhorar rapidamente. Foi nessa altura que encontrei na internet publicidade a dois eventos diferentes, surgindo então dois caminhos à minha frente, pois eu queria participar em algo que me realizasse e achava que estava numa boa forma. Esses dois eventos eram o Campeonato Europeu de Powerlifting de 2013, que teria lugar
em Portugal em Vila do Conde e se não estou em erro a 1ª ou 2ª edição dos Promofit Games. Eu não sabia ainda o que era Powerlifting e conhecia pouco o Cross Training, mas mesmo sem saber, os meus treinos aproximavam-se muito desses dois “métodos”. Investiguei melhor sobre o que era o Powerlifting e vi que as marcas dos campeonatos nacionais anteriores não eram muito diferentes do que eu fazia no ginásio. Mas o que me fez realmente escolher o Powerlifting foi não ter uma câmara ahahah. Ou seja, para participar nos PromofitGames eu teria de filmar o treino e enviar para aprovação, só que eu não tinha uma câmara e o meu telemóvel filmava pessimamente, logo decidi-me por participar no Powerlifting.
Entrei em contacto com o Sandro Eusébio, o presidente da federação e um dos homens mais fortes de Portugal, que me incentivou desde o início a comparecer no campeonato nacional que daria acesso ao Europeu (eu nem sabia disso lol). Com ajuda dele e de mais algumas pessoas, fui fazer a minha primeira prova de Powerlifting sem sequer saber as regras nem o funcionamento e com material emprestado pelo Sandro pois eu não tinha rigorosamente nada, nem um cinto ou umas ligas para os pulsos. Fui muito bem recebido e apaixonei-me por esta modalidade inclusiva, onde vi em prova novos, velhos, gordos, magros, altos e baixos e percebi que ali era o meu lugar. Acabei por ser Campeão Nacional nesse ano na minha categoria de peso e de idade, sem saber muito bem como, apurando-me para o Campeonato da Europa desse ano.

Quais foram os teus melhores resultados?

As minhas melhores marcas oficiais foram no Campeonato Nacional de 2017, 550kg de total (200kg de Agachamento, 110kg de Supino e 240kg de Peso Morto). Nesse ano competi na categoria de -90kg. Apesar de essas terem sido as minhas melhores marcas e no Powerlifting o que importa é o peso levantado, considero que tive anos melhores, tal como o ano de 2016 em que fui campeão nacional em Júnior, na categoria de -75kg, com a marca de 515kg de total (190kg de Agachamento, 97,5kg de Supino e 227,5kg de Peso Morto) o que para alguém com apenas 75kg e júnior, foram umas marcas boas para o que se fazia em Portugal nesse tempo.

Quem te treinou e quem te influenciou?

Nunca tive treinador, sempre fui um autodidata! Venho de uma cidade onde quando pela
primeira vez fiz peso morto, disseram que eu era maluco e nunca tinham visto aquele
exercício na vida. Quando fui para a faculdade em Vila Real as coisas melhoram um pouco, mas continuava a ser o único powerlifter na região. Felizmente o Crossfit teve a
consequência de impulsionar e vulgarizar o treino com pesos, porque mesmo em Vila Real (anos de 2013 ou 2014) lembro-me de não me deixarem treinar ou nem sequer terem pesos suficientes para o que eu fazia naquela época. O único espaço onde me deixavam treinar só dispunha de 180kg de peso, incluindo a barra.
Apesar disso tive algumas pessoas que me deram conselhos e que me influenciaram de
alguma forma. Uma das pessoas foi o Sandro Eusébio e pessoas do seu núcleo, que sempre me deu conselhos que me fizeram melhorar bastante, pena ter tantos quilómetros a separar-me de aprender mais, mesmo assim ajudou-me muito.

Após o Campeonato da Europa de 2013, também conheci o Nuno, que era do Porto e
treinava powerlifting, mas que estudava e era investigador na UTAD (se não estou em erro) e tinha família na zona, o que fez encurtar a distância e me permitiu obter mais algum conhecimento, através das pequenas dicas que me ia dando aos vídeos que eu fazia dos meus treinos. Também o Paulo Sena me influenciou de alguma forma quando foi meu professor de educação física no secundário, aguçando a minha curiosidade pelo que efetivamente resulta.
Como nunca tive quem me treinasse ou me ensinasse, muitos autores, powerlifters de topo e pessoas relacionadas com o treino de força acabaram por me influenciar de alguma forma, pois era o conhecimento que eu bebia. Desde Mark Rippetoe, Louie Simmons, Mark Bell, Konstantine Konstantinov, Boris Sheiko, Chris Duffin, Dan Green, Jim Wendler, Andrey Malanichev, Benedikt Magnusson, Ray Williams, Blaine Sumner, Yury Belkin, Brandon Lilly, Bill Kazmaier, Mikhail Koklyaev, Brian Shaw, Mike Thuchscherer, Dave Tate, Kirk Karwoski, Paul Anderson, Zydrunas Savickas, Ed Coan, Andy Bolton, JP Sigmarsson, Shwarznegger, Ronnie Coleman, Franco Columbo, etc etc. Muitos mais nomes poderia acrescentar, desde autores a treinadores, atletas de Powerlifting, Strongman ou BodyBuilding, todos me influenciaram de alguma forma.

Conheces alguém que seja bom atleta no powerlifting sem ter boa genética para
tal?

Sim. Ao contrário de outras modalidades, a genética não é o mais importante no powerlifing, mas sim a mentalidade e a capacidade de sacrificar coisas pelo powerlifting,
No pouco tempo que tenho deste desporto já vi imensos atletas a desistir, alguns com um
potencial genético fantástico. Isto acontece porque nem todos estão dispostos a fazer o que é preciso fazer para se competir. Não é uma vida fácil, muito menos em Portugal onde não há apoios, somos um desporto amador onde tudo nos sai do “bolso e do lombo”, como eu costumo dizer.
Portanto para se ser um bom powerlifter a genética é o que importa menos na minha
opinião. O que importa mais é ter a capacidade de ser persistente e sacrificar muitas coisas pelos objetivos e ter boa técnica nos movimentos. Sacrificar a vida pessoal, ignorar a dor, gastar todo o dinheiro e todo o tempo livre a treinar e com este desporto. Como dizia Muhammad Ali “They have to have the skill, and the will. But the will must be stronger than the skill.”

Quais são os atletas ou treinadores mais fora do comum que conheces? Porquê?
Que pensas deles e dos seus métodos?

Louie Simmons! Por tudo o que fez e faz e pela personalidade. No ginásio dele é só campeões, usando uma metodologia um pouco diferente do que estamos habituados. Também o russo Boris Sheiko apresenta métodos diferentes, mais ligados aos soviéticos. Mike Thuchscherer também me tem despertado algum interesse. Atletas, há vários fora do comum, não consigo destacar.

Treinaste outros atletas para serem capazes de fazer aquilo que tu fazes? Eles
conseguiram replicar os teus resultados?

Sim, já treinei alguns atletas. Dois deles conquistaram o pódio e se não estou em erro um
deles chegou mesmo a ser Campeão Nacional de Supino e Peso Morto e tinha uma genética espetacular para força. Surpreendentemente nenhum deles continua a competir. Muitos se interessam pela modalidade, mas são poucos que se mantêm a competir quando percebem os sacrifícios que precisamos de fazer diariamente e a maioria das pessoas não está para fazer sacrifícios e prefere desistir. No início todos gostam porque a progressão é mais rápida e os sacrifícios são menores, mas quando a progressão começa a ser mais lenta, ou são fortes mentalmente para continuar o caminho, ou então desistem.

Quais são os grandes erros e mitos que vês no treino?

Há muitos erros que vejo nos treinos. Um dos erros e mito também, é a necessidade de ter de variar o treino. Isso incutiu-se de tal forma que hoje em dia o treino é demasiado variado não permitindo uma evolução e uma sobrecarga favorável a melhorias. Por exemplo, com o chamado “treino do dia”, que muitos fazem com exercícios, séries e repetições à sorte, sem qualquer fundamento, colocando assim em causa o 2o Princípio de Treino (Princípio da Sobrecarga), para não falar também dos outros princípios de treino que são completamente postos de lado por alguns indivíduos, quando deviam de ser a base de qualquer treino.
Posso também falar do mito dos joelhos não poderem passar a ponta do pé no agachamento ou do peso morto fazer mal as costas. Quem diz isso é claramente alguém que não percebe rigorosamente nada de treino.
Estar sempre a mudar de plano de treino só porque passado umas semanas não está a
resultar ou então mudar mesmo quando o plano está a dar resultado, só porque sim,
também é um erro grave.
Outro erro é imitar o plano de treino de atletas de topo ou pagar balúrdios por “receitas”
(planos de treino) elaboradas por instagrammers que não percebem nada do assunto. Sempre ouvi dizer que se quisermos saber como um cavalo de corrida foi o vencedor, perguntamos ao treinador e não ao cavalo.

Quais são as maiores perdas de tempo no treino?

Querer evoluir sem fazer os exercícios básicos que estão connosco há centenas de anos. Hoje em dia procura-se muito o exercício acessório, o elástico e mil e uma coisas que não fazem sentido para quem não faz os básicos e domina as técnicas dos básicos. Com meia dúzia de exercícios é possível fazer um plano que resulte quer para o ganho de força, hipertrofia ou perda de massa gorda. A chave não é a variedade, mas sim a técnica e a intensidade! Dá-me pena quando vejo muitas pessoas a sacrificarem ser fortes para serem “rainhas dos burpees”.
Outra perda de tempo é treinar sem objetivos e não fazer o registo do treino.
Já me esquecia… acabem com a almofadinha na barra nos agachamentos!

Quais são os teus livros, vídeos ou recursos favoritos sobre o treino para
o powerlifting?

Vários eheheh… Para facilitar recomendo começar por um livro que costumo citar sempre e acho que serve de base para o treino de força em geral (Starting Strength do Mark Rippetoe). Acho um ótimo manual para se começar no treino de força em geral, tal como o do Jim Wendler. Depois há outros ligeiramente mais complexos e mais ligados ao
Powerlifting como o Cube Method do Brandon Lilly, Juggernaut Method do Chad Wesley
Smith, o livro do Mike Thuchscherer, os livros da West Side Barbell ou do Boris Sheiko
também são bons.
Em recursos eletrónicos recomendo o site T-Nation, o Powerlifting To Win e o Strong Lifts e canais de youtube como o do Starting Strength, Mark Bell, Juggernaut Training Systems, Chris Duffin, Stan Efferding, Brandon Lilly, Boris Sheiko, Donnie Thompson, Powerlifting Motivation, Alan Thrall e Meg Squats, por exemplo.
Hoje em dia a informação é tanta que para alguém que é iniciado pode ser em demasia e
levar a confusão.

Se as pessoas tiverem de começar a treinar sozinhas, o que recomendarias?

O que recomendei em cima pode ter imensas informações que podem ajudar a quem quer começar a treinar sozinho, mas como hoje em dia a informação é tanta, é necessário encontrar alguém que nos ajude a interpreta-la.
Quando eu comecei não tinha ninguém com quem treinar, mas hoje em dia as coisas já não são assim. Recomendo por isso encontrar um parceiro de treino, pois é importante
essencialmente por questões de motivação.
Outra recomendação que faço é procurarem alguém com formação e/ou conhecimento
sobre o tema, neste caso o Powerlifting e evitar cair em banha da cobra, pois não faltam
pessoas nas redes sociais intitulados de doutores e de atletas maravilha, quando nem para eles sabem.
O powerlifting tem muito o “espírito de comunidade” e facilmente se encontra ajuda. Há
hoje várias pessoas no powerlifting português habituadas a treinar outras e alguns até com formação académica (não que isso seja o mais importante).
Se possível comprar uma câmara ou utilizar o telemóvel e filmar os treinos. Desse modo se alguém vir o vídeo facilmente consegue aconselhar algumas coisas, se for alguém experiente e com formação, melhor ainda.
No caso de não poderem treinar em ginásios, podem sempre treinar em casa, basta uma
barra, uma rack, um banco e uns pesos, para terem um treino mais efetivo que 90% das
pessoas que frequentam um ginásio.
No que toca a templates de treino, para um iniciado um template Starting Strength, Strong Lifts, Madcow ou Bill Starr. Apesar de com estes “planos”, que não são de todo
personalizados, se conseguir alguns resultados, mais importante que o plano é aprender a executar os movimentos com boa técnica e a melhor forma de aprender isso é ter alguém que nos ensine.
Se quando eu comecei tivesse ao meu dispor os recursos que existem hoje, teria certamente contratado um treinador.

Quais são os principais erros que os novatos fazem quando treinam?

Achar que Roma se contruiu num dia! O treino leva o seu tempo e é preciso aprender a
respeitar esse tempo. Os novatos muitas vezes acham que vai ser tudo rápido e que os
resultados vão surgir a curto prazo, que hoje fazem 100kg de agachamento e que daqui a
um mês ou dois vão estar a fazer 200kg, mas as coisas no mundo real não funcionam assim, levam o seu tempo. Não é por verem nas redes sociais pessoas a ter evoluções fantásticas, que isso vai acontecer, porque muitas vezes, para não dizer sempre, essas pessoas têm ajuda de “doping”, o que me leva ao segundo erro.
Outro erro que os novatos cometem é devido à necessidade de querer evoluir rápido,
optarem por caminhos mais curtos, começando muitas vezes a tomar esteroides
anabolizantes, doping, jarda ou o que lhe quiserem chamar, sem sequer terem tido tempo para conhecer as maravilhosas adaptações do treino e constatarem todo o potencial que podem atingir sem precisarem disso. Isso quanto muito é para atletas de alto nível que querem bater recordes do mundo, não para um novato… Infelizmente vejo cada vez mais novatos a optar pelos “atalhos”.
Posso ainda salientar o erro de acharem que a técnica não é importante, quando é a base de tudo e só chega mais longe quem possui uma boa técnica, mesmo que tenham imensa força bruta.
Outro erro é enquanto iniciados quererem os equipamentos da melhor qualidade e ter uns sapatos de halterofilismo de 200€ quando têm um agachamento que vale 50 cêntimos! Há muito para refletir nesta frase…

Se me treinasses durante 4 semanas para uma competição de powerlifting e
tivesses um milhão de euros para gastar, como seria o treino? E se fossem 8 semanas?

Ninguém se prepara para uma competição de Powerlifting em 2 meses, muito menos em 1 mês! É um trabalho que exige um ciclo de treino mais alargado. Num mês ou dois não se vai construir nada de relevante, quanto muito pode-se fazer uma fase de “peaking”, mas já tem de existir um trabalho grande que venha detrás.
Portanto vamos dobrar as semanas de treino e dividir o valor, pois em 4 meses e com 500
mil euros já se consegue treinar para uma competição de uma forma eficaz, eu não tinha
esse dinheiro e treinava eh eh eh. Não acho o dinheiro um fator preponderante para se
treinar melhor, quanto muito pode-se comprar material de treino de melhor qualidade,
barras de melhor qualidade, pesos de melhor qualidade, etc. Mas sempre que penso nisso lembro-me do treino do Rocky Balboa vs o treino do Ivan Drago no filme Rocky IV… Nem sempre quem tem o melhor equipamento e as melhores condições de treino é que se torna o vencedor.

O Princípio de Paretto, diz-nos que 20% dos nossos esforços, geram 80% dos
resultados. Onde colocarias os 20%? Como ordenavas as fases dos 20%?

Pergunta complicada. Foco, disciplina, dedicação, determinação, motivação, técnica,
descanso… vários fatores são importantes para se obter resultados. Se queremos 100% de
resultados, teremos que ter 100% de esforço. Pessoalmente não considero que com pouco
esforço se consiga resultados de excelência ou bons, quanto muito conseguem-se resultados medíocres, por isso se queremos ter bons resultados teremos que ter o máximo empenho e esforço.

O que têm em comum os grandes atletas de powerlifting?

A vontade infinita de serem os melhores ou o melhor que puderem ser.

O que é que faz a diferença nesta modalidade? Quais as peças-chave?

A minha resposta anterior faz todo o sentido aqui também. É importante como eu costumo dizer, trabalhar em 3D – Dedidação, Disciplina e Determinação. A diferença nesta modalidade está na mentalidade acima de tudo, depois podemos também considerar a técnica nos movimentos, ser consistente nos treinos e acreditar naquilo que se está a fazer.
É importante treinar duro, cada treino como se fosse o último, cada kg a mais como uma
vitória na batalha daquilo que é a grande guerra por levantar mais peso. Não ter medo de fazer sacrifícios pessoais e sociais e ser corajoso, pois ninguém se mete de baixo de barras com centenas de quilos se não tiver coragem. E descanso, um bom e recuperador descanso, pois até Deus descansou ao 7o dia.

O que faz de ti uma pessoa diferente?

Sou apaixonado pela modalidade e acho que isso é o mais importante. Não tive treinadores, nem as condições de treino que muitos tiveram. Ser o único powerlifter em toda uma região, não ter ninguém perto de mim com quem aprender, não ter parceiro de treino (porque os que tentaram desistiam por não terem estofo para treinar duro), não ter condições de treino, não me deixarem treinar em vários ginásios por bater com os pesos ou por não terem pesos para mim ou barras que aguentassem, nunca ter tomado esteróides e apesar disto tudo ter conseguido as marcas que consegui (que hoje podem já não ser tão especiais, mas para mim, nas minhas condições foram) e ter conseguido ganhar um campeonato da europa e 5 campeonatos nacionais consecutivos e ter ainda um 5o lugar num mundial, me podem tornar um pouco diferente.
Licenciei-me em Ciências do Desporto e acabei por me tornar Mestre em Ciências do
Desporto no ano passado com especialização em Desportos Coletivos na área da análise da performance. Conheço bem os desportos coletivos e os individuais, o mundo teórico e
científico e o mundo prático. O meu maior conhecimento foi adquirido debaixo da barra a tentar e a errar e a aprender com esses erros. Já tive 65kg e 100kg de peso corporal, umas vezes por opção, outras não.
Ando no mundo dos pesos há mais de 10 anos, já experimentei muita coisa na pele, já li
muito e estudei muito, já pratiquei muito e sacrifiquei muitas coisas para conseguir os
objetivos a que me propus. Já treinei várias pessoas com objetivos muito diferentes, já
ensinei pessoas do zero e já treinei pessoas que levantavam mais do que eu.
Tudo isto não faz de mim melhor ou pior atleta, melhor ou pior treinador, faz apenas com que seja diferente, tendo a minha própria história e percurso.

Quais os teus grandes objetivos como atleta?

Neste momento os meus objetivos são ligeiramente diferentes pois encontro-me a
recuperar de uma lesão bastante grave que segundo consta já cá estava a vários anos
(possivelmente antes até de começar a competir), mas que só no último ano me deu
problemas. Fiz vários meses de tratamento e agora tenho retornado ao treino
vagarosamente, começando do zero, apenas com a barra.
É duro, pois se esta pergunta me fosse feita em 2017 eu diria que o meu objetivo como atleta seria ser campeão do mundo e quem sabe bater um recorde europeu ou mundial, pois quando estava em boa forma, várias vezes olhava para a lista de recordes, sabia o nome dos atletas que estavam lá e as marcas que eram recorde e queria um dia bate-los e sentia-me próximo.
O azar bateu-me à porta e hoje em dia o meu objetivo é recuperar plenamente e a longo
prazo tenho como objetivo voltar a competir, após isso, o que tiver de ser, será, porque a
sorte também bate à porta! Só espero estar lá para abrir eheheh.

Agora és tu o entrevistador. Podes fazer apenas uma pergunta a cada um destes
grandes atletas.

a. Que pergunta farias ao Ed Coan?

O que achas de “novos” equipamentos de treino como as máquinas isocinéticas que têm
vindo a (re)surgir e que tu já usavas na tua cave, lá nos anos 70, antes mesmo de começares
no powerlifting?

b. Que pergunta farias ao Andrzej Stanaszek?

Dada a vantagem mecânica, porque não há mais anões a fazer powerlifting?

c. Que pergunta farias ao Sheriff Othman?

No supino, o leg drive é um mito?

OS DESAFIOS DO CROSSFIT – Uma Perspetiva

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Palhaço Pukie

Na última década, o CrossFit, chegou, viu e venceu. Ganhou espaço numa indústria do fitness que necessitava de outro sentido comunitário. Precisava de voltar a usar as ferramentas que a levaram ao êxito e de… Intensidade. A atividade tornou-se popular, em parte por se basear em princípios e modalidades sólidas que a compõem: a escolha da ginástica, do powerlifting, halterofilismo e das melhores atividades de endurance, assegura ferramentas de intervenção bastante estudadas e que já estavam no mercado há mais de 100 anos. Por outro lado, a intensidade é a chave dos resultados no exercício físico e não foi por acaso que o criador Greg Glassman as tomou como base de trabalho. Também o sentido comunitário, a forma de comunicação e partilha via blogues, foram até referenciados como possuindo um sentido tribal no livro Tribos de Seth Godin. Também os professores da Harvard Divinity School, Thurston e Kuile (2015) num relatório sobre a comunidade não religiosa, incluem uma observação sobre o CrossFit, referindo o evangélico entusiasmo dos crossfitters. Estes autores mencionam também o November Project, no qual os membros ligam uns aos outros quando não comparecem na sua hora habitual e colocam mesmo fotos na parede, daqueles que se comprometeram em aparecer e não estão presentes há algum tempo. Thurston e Kuile relatam ainda uma experiência do líder evangélico Rick Warren com o CrossFit Faith que disponibiliza WODs espirituais paralelamente ao regime diário usual de pesos e burpees. 
A parceria da marca com a Reebok, alavancou as competições mundiais que se iniciaram em 2007 para um nível que até a televisão adotou como espetáculo, embora esse facto tenha condicionado o tipo de WODs criados para que surtam melhor efeito em ambiente de estádio e como show televisivo.
A CrossFit Inc. tem cerca de 14.000 unidades “afiliadas” em mais de 120 países e prevê-se que o setor facture 5 biliões de USD em 2019. Em Portugal, existem apenas 44 boxes oficiais. Os países com maior número de afiliados são EUA e Brasil.
Para criar uma box afiliada, temos de ter um professor certificado com o Level One da marca, que consiste num workshop/exame que vale cerca de 1000USD, renovado por cerca de 500USD passados 5 anos. Na diretoria mundial de treinadores Nível Um em Portugal estão registados agora mais de 700 treinadores. Ou seja, mais de 700000USD para a casa CrossFit. Embora, a maioria destes treinadores exerça fora do âmbito afiliado, se os distribuíssemos pelos afiliados registados, teríamos cerca de 16 instrutores por afiliado. Ou seja, neste momento, dificilmente haverá trabalho “oficial” para todos estes instrutores em Portugal. Outrora um certificado distinto, o Level One, tornou-se agora algo mais banal, embora o conhecimento possa ser utilizado noutros âmbitos. Ainda me recordo da polémica entrevista (Sena, 2010) ao amigo Sérgio Rodrigues, quando 2 ou 3 instrutores certificados em Portugal.

Para trabalhar numa box não afiliada, apenas é necessário o título profissional de Técnico de Exercício Físico – TEF e obviamente o conhecimento técnico que poderá ser obtido de outras formas que não a certificação CrossFit Level One. Por outro lado, um instrutor certificado CrossFit sem cédula TEF não pode exercer a sua atividade numa box afiliada. Esta cédula é obtida através de uma licenciatura em EDF ou um curso de cerca de 1200h disponível em alguns centros de formação autorizados.

Mas… Vejamos em nosso entender quais os desafios que o CrossFit enfrenta para se continuar a impor no mercado do fitness.

CrossFit e Concorrência não CrossFit

Para criar uma box de CrossFit, as royalties custam cerca de 3000USD ao ano e competem neste momento com espaços não afiliados que não usam a marca, embora incluam atividades, processos, programação e cultura idêntica, usando em alternativa outros nomes como: Crosstraining, CF, Cross Life, etc.

Espaços Amplos

As boxes, para serem rentáveis e permitirem um número significativo de pessoas em cada treino, como usam materiais como as barras de 220cm ou as estruturas de elevações para múltiplas pessoas, necessitam espaços amplos (16 pessoas poderão necessitar mais de 600m2 para não condicionar muito os WODs e terem um bom nível de segurança; para 20 pessoas, estaríamos a falar de um campo de andebol com medidas oficiais), habitualmente armazéns, que condicionam o negócio pela sua localização, nem sempre a mais central e atrativa para os clientes. Por outro lado, as rendas destes espaços, têm vindo a aumentar. 

Aulas de Grupos Pequenos

No fundo, a base de intervenção de uma box é uma aula de grupo. No entanto, os grupos são relativamente pequenos quando comparados com a agitada Zumba ou outro tipo de aulas de grupo tradicionais. Para que exista qualidade no serviço, a relação entre o número de instrutores e o número de alunos, não pode ser de 1 para 50 como por vezes ocorre em salas de musculação tradicionais.

Professores Caros

Uma das reclamações que se ouvem sobre operacionalizar um espaço deste tipo, é que os professores cobram mais do que a média dos outros profissionais de aulas de grupo da indústria, fazendo com que as mensalidades pagas pelos sócios, sejam algo caras para uma aula de grupo. 

Falta de Conforto

A falta de conforto dos locais também não abona na captação de outro tipo de clientela mais exigente e com capacidade para despender dinheiro nos clássicos WODs mas também em sessões de treino personalizado e outros serviços. No entanto, já se podem observar outras formas de intervenção, quer ao nível de instalações, quer ao nível de serviços disponibilizados em paralelo com o CrossFit, como é o caso do CrossFit Solace.

Expectativas Elevadas

A publicidade CrossFit (2019) refere que o CrossFit é um estilo de vida caracterizado por exercício seguro, eficaz e boa nutrição. Mas vão mais longe, mencionando que o CrossFit pode ser utilizado para alcançar qualquer objetivo, desde a melhoria de saúde, passando pela perda de peso até à melhoria da performance. Dizem ainda que o programa de treino funciona para todo o tipo de pessoas, desde aquelas que estão a começar até aqueles que treinam há anos. Falar em saúde, segurança e adequado para todo o tipo de pessoas… Não deixa a fasquia das expectativas muito baixa. Continuarão a dar boa resposta a essas expectativas?

A Polémica dos Hidratos de Carbono

Os Crossfitters advogam uma dieta baixa em hidratos de carbono: a Paleo Diet. Aquilo que verificamos na prática, pela exigência energética dos treinos, é um elevado consumo de cafeína, pré-treinos e estimulantes. Algo que também ocorre nos atletas de modalidades exigentes do ponto de vista cardiorespiratório e de endurance quando se procura implementar este tipo de dietas. Também não encontramos muita evidência científica, mas como não somos nutricionistas nem “nutrólogos”, apenas podemos recomendar o site nutritionfacts.org para quem desejar investigar um pouco sobre o assunto.

Público – Alvo

Numa fase inicial, sobretudo nos EUA, as boxes apresentavam um tipo de público vasto, sobretudo acima dos 40 anos de idade, bombeiros, donas de casa, jovens, tudo a treinar numa garagem. Mas fruto das exigências dos treinos, do tipo de exercícios, da falta de adaptação fácil em grupo, verifica-se novamente ao visitar qualquer box que a faixa etária mais comum é bastante similar à de qualquer ginásio tradicional. Aliás, parece ter havido esta perceção por parte da marca nos últimos anos, abrindo mais espaço a desafios scaled e mais categorias de masters (embora com participação reduzida, mesmo por parte daqueles que uma década antes eram os atletas destacados). Mesmo os desafios scaled, incluem ainda muito trabalho com impacto, nem sempre adequado para populações de idades mais avançadas. 

Cultura Crossfit
Embora a cultura não seja a lista de regras, de valores exposta na parede de uma empresa (ou de um clube, de uma box neste caso), estas, nem sempre se expressam no comportamento e ações reais dos membros da organização. Mas no caso do CrossFit, parece notória a forma como a atitude da casa mãe se revela mesmo em espaços não afiliados. Na interação regular dos membros destes espaços, bem como nas atitudes e comportamentos que se verificam nas principais competições, na linguagem com termos próprios como WOD – Workout of the Day; KB – Kettlebell; METCON – Metabolic Conditioning Workout; SQ – Squat; DL – Deadlift; REP – Repetition; PR – Personal Record; AMRAP – As Many Reps as Possible; CFT – CrossFit Total – consiste em máximo squat, press, and deadlift. Os costumes e rituais que podemos apreciar nos aquecimentos muito próprios e intensos, habitualmente caracterizados pela utilização de calistenia, elásticos e rolos para mobilidade e libertação miofascial. As normas e standards usados como os treinos com nomes de mulheres, os treinos de referência, os burpees como forma de punição, etc. Os valores que publicamente são anunciados como vimos anteriormente na forma de publicitar a atividade. As regras de funcionamento idênticas nos diversos locais. O clima visto como uma sensação transmitida pelos layouts físicos das boxes (cores, design, materiais e marcas comuns) e também pela forma como os membros interagem entre si. Técnicas mais enraizadas de execução dos próprios exercícios como o kipping e as alterações que realizam por exemplo à forma clássica de utilização das kettlebells. Os hábitos e processos iniciais de socialização de novos membros. As cores das roupas, a utilização das meias compridas, do magnésio e treinar em tronco nu. Atirar as barras ao solo mesmo quando não se efetuam levantamentos máximos. Os símbolos mesmo para além do logo da marca e os elementos que se incluem nos logos das boxes. Recordo que um dos símbolos do crossfit há uns anos atrás era o boneco Pukie e a presença de um balde para o efeito em todas as boxes. Os significados que partilham por exemplo da FRAN (um dos treinos de referência). Todos estes elementos caracterizam esta cultura da tribo CrossFit e lhe dão força e identidade. E como referem Hagberg e Heifetz (2000), a cultura dirige a organização e as suas ações, é como o “sistema operativo” da organização.

A Competição

Uma das mais atrativas, mas mais polémicas ofertas do CrossFit, são as competições. Os jogos mundiais de crossfit, começaram em 2007 e realizam-se todos os anos com um sistema aberto inicial e posteriores apuramentos para as finais mundiais. Em Portugal a competição similar não afiliada de maior relevo são os Promofitgames que se iniciaram em 2012 e vão já para a sua 14ª edição.

Por vezes ficamos com a perceção de que: se vens fazer CrossFit, vens competir. Talvez tenha sido um exagero nesse sentido que os portugueses lhe deram e eu também tive a minha dose de culpa por ter incentivado as primeiras competições, mas a ideia deveria ser proporcionar boas soluções para a população que necessita melhorar condição física e saúde. Depois, os melhores, mais disciplinados, mais interessados, acabariam por ir competir com outros atletas de forma mais séria. O lado competitivo dos WODs de CrossFit, mesmo fora do âmbito dos CrossFitGames, empurra as pessoas para o erro técnico nos movimentos, para a contabilidade exagerada a fim de terminarem a tempo, para a diminuição da amplitude dos movimentos e para colocar por vezes demasiado stress em pessoas que não dominam a técnica dos exercícios que fazem parte da programação. No entanto, a responsabilidade pela instalação desse tipo de hábitos, reside fundamentalmente na liderança do instrutor. Se ele se focar nas repetições, a probabilidade dos alunos o fazerem é mais elevada. Se ele se foca na amplitude de movimento e na técnica, também irá focar a atenção dos sócios na importância desses aspetos. A competição connosco próprios permite progresso, a competição com os outros, se for bem enquadrada, para algumas pessoas também poderá levar à superação. No entanto, se for em demasia e descontrolada, levará a estados de perturbação pessoal e ao abandono do exercício físico, numa indústria do fitness com taxas de abandono acima dos 50%. Recordemos que o sentido comunitário depende da relação que se cria sobretudo nestas situações competitivas. Acima de tudo, para que um espaço deste tipo se mantenha em atividade, a fidelização de clientes é fundamental. Um sócio de uma box paga uma mensalidade no mínimo três vezes superior à de um espaço low-cost, por isso, o serviço deverá adicionar mais valor para além dos equipamentos e do espaço.

Na atualidade, as competições de CrossFit, são para quem domina os pesos. Fundamentalmente: agachamento, peso morto e snatch são a base. Não é com ginástica que se vencem uns jogos. Recordamos atletas como Annie Thorisdottir que em 2009 fez o seu primeiro muscleup em prova e segundo consta aprendeu a fazer o snatch no aquecimento da competição. Viria a vencer em 2011. No final de tudo, a boa técnica permite gastar menos energia, manter equilíbrio e confiança. Por isso: técnica, técnica, técnica!

Só nunca percebemos porque é que os primeiros jogos mundiais em 2007, num país com acesso aos melhores materiais e treinadores, apresentavam técnicas deficientes para o elevado nível dos atletas. Notou-se grande evolução sobretudo quando aqueles como eu que, assinavam o CrossFit Journal, se aperceberam que a casa CrossFit pedia a colaboração dos melhores treinadores de cada área. Passamos então a ver os melhores treinadores de halterofilismo e corrida, os melhores do powerlifting, os melhores da ginástica e da natação. Consequência? Uma melhoria abismal sobretudo de 2011 em diante, na técnica, nas cargas utilizadas e na performance geral dos atletas participantes.

Também se pode verificar um grande aumento de massa muscular na generalidade dos atletas. Aqui fica uma provocação para aqueles que acham que para ser maior não é preciso levantar mais peso. (comparem a primeira vencedora Jolie Gentry em 2007, com a última vencedora Tia-Clair Toomey em 2018). Curiosamente, parece existir um problema de longevidade. Durante mais de uma década encontramos poucos atletas que se mantenham em competição de alto nível, como ocorre noutras modalidades. Alguns dos poucos exemplos de longevidade são: Rebecca Voigt Miller, aparecendo em todos os jogos desde 2008, Ben Smith desde 2009 ou Chris Spealer que esteve nos primeiros jogos e noutras 6 edições.

Programação

Os halterofilistas quando iniciam a sua carreira, podem passar vários meses a efetuar apenas 2 ou 3 exercícios. São movimentos complexos que exigem técnica apurada, e meses de progressões para dominar os movimentos explosivos. Quando lhes adicionamos fadiga, falta de equilíbrio, falta de força, falta de mobilidade e pouca frequência de treino, aumentamos drasticamente o risco. As últimas boxes que frequentamos neste ano com quadros semanais de programação, incluíam 24 a quase 40 movimentos diferentes. São muitos exercícios difíceis de aprender, demasiada variedade semanal e como em muitos destes espaços a frequência média semanal dos sócios raramente supera 2 vezes por semana, isso dificulta ainda mais a aquisição de domínio técnico dos exercícios.

Quem vier apenas terça e quinta feira frequentar os WODs, vai certamente evitar os exercícios habituais de segunda, quarta e sexta. Por vezes confunde-se variedade nos treinos com variedade de exercícios. Costumo dar o exemplo das confeitarias onde base de trabalho são o açúcar, os ovos, a farinha e a manteiga. Quatro ingredientes apenas que podem criar inúmeros resultados diferentes, com pontos de açúcar diversos, massas de texturas diversificadas, sendo depois são trabalhados, recheados e enfeitados. No treino, 4 exercícios podem dar 24 permutações diferentes. Se a isto adicionarmos séries, então as combinações são imensas. Ao tentarmos fazer muita coisa ao mesmo tempo, acabamos por ser medíocres ou medianos em tudo. Enquanto não se consolida a técnica, não podemos colocar stress no sistema, não podemos pedir velocidade nem muito volume de repetições. É necessário tempo para que ocorra progresso.

Lesões e Recuperação

O volume de treino aplicado numa semana de desafios, dificulta a recuperação de todas as pessoas que praticam a atividade e as dores musculares frequentes condicionam a técnica. Gasta-se muita fita kinesio nestes locais, passando uma imagem de dificuldade funcional. Nos últimos 5 anos já começamos a verificar algum interesse em estudar o fenómeno. Mehrab, de Vos, Kraan e Mathijssen (2017) estudaram 449 crossfitters holandeses, verificando uma incidência de lesão de 56.1%, sendo os locais mais frequentes: ombro, zona lombar e joelho. O tempo de participação reduzida (<6 meses estava significativamente associada com o aumento do risco de lesão. Embora a maioria dos trabalhos usem como metodologia de obtenção de dados os questionários auto-aplicados, é interessante verificar as indicações que vão surgindo destes estudos.
Feito, Burrows e Tabb (2018), examinaram a incidência de lesões em 3049 praticantes que relataram ter treinado CrossFit entre 2013 e 2017. Os autores concluíram que o CrossFit é relativamente seguro quando comparado com modalidade mais tradicionais. No entanto, parece que os praticantes que estavam no seu primeiro ano de treino e aqueles que faziam menos de 3 vezes por semana, tinham maior risco de lesão.
Estas conclusões reforçam a preocupação face ao tipo de programação perante a baixa frequência com que as pessoas vão aos ginásios em geral e às boxes em particular. Mais uma vez, tal como ocorre no ginásio tradicional onde a programação típica implica divisão por grupos musculares destinada a pessoas que vão menos de duas vezes por semana ao ginásio, nas boxes também deveria ter-se em conta este fenómeno de assiduidades em vez de programar como se a maioria dos clientes viesse todos os dias. Consequência? O abandono.

A resposta para a crítica sobre as lesões por parte de Greg Glassman: “Fuck injuries. You think we got to 15,000 boxes by hurting everyone?” (Easter, 2018).

Futuro?

Poderá passar pela melhor exploração do serviço de personal training, ainda pouco trabalhado por parte dos professores que laboram nesses locais, embora exista material e conhecimento para a prestação de bom serviço. Talvez a perceção do mercado e a falta de conforto das instalações não incentive muito a procura desse serviço.

Menos competição e mais foco nas populações acima dos 35 anos. Recordamos que mais de 40% da população portuguesa tem mais de 50 anos de idade. Para tal serão necessários mais instrutores nessas faixas etárias e programações de treino adequadas, bem como maior foco na técnica e nas progressões individualizadas dos exercícios e eventual anulação de alguns dos movimentos habituais de crossfit mais explosivos e arriscados para quem começa em idades tardias.

Os horários sem WODs parecem ainda pouco explorados e podem ser uma boa solução para os clientes que não podem estar nos horários das aulas de grupo, bem como aqueles sócios que necessitam um programa individualizado sem ser necessariamente um treino personalizado.

Em suma, o crossfit recordou ao público a vantagem dos pesos livres, dos melhores movimentos que sempre se realizaram com êxito na musculação, revitalizou o halterofilismo, provou mais uma vez que os melhores resultados são obtidos com ferramentas e processos simples e que os seres humanos são seres sociais. Se corrigir o ênfase exagerado na competição, se aproveitar melhor a falta de exploração de open box e de serviços de PT, com melhores e mais cuidadas progressões e uma melhor liderança por parte dos instrutores, poderá vincar a presença deste conjunto de modalidades combinadas em alta intensidade e de forma variada neste emaranhado que é o mercado do fitness.

Os desafios que acabamos de mencionar neste texto, são aquilo que verdadeiramente parece desafiar esta prática física e que podem ser vistos de forma negativa como problemas ou de forma positiva como… DESAFIOS.

Bibliografia e mais leituras

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Crossfit (2019). What is Crossfit?. Disponível em: http://www.crossfit.com/what-is-crossfit

Diamond, D. (2015). Is crossfit good for you? What 60 minutes didn’t say. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/dandiamond/2015/05/11/is-crossfit-good-for-you-what-60-minutes-didnt-say/#54c89f57508c

Easter, M. (1018). CrossFit’s Greg Glassman Disrupted Fitness. Next, He’s Taking on Healthcare. Can CrossFit fix the healthcare industrial complex? Glassman thinks so. Disponível em: https://www.menshealth.com/health/a23663806/greg-glassman-crossfit-health/

Feito, Y. Burrows, E. e Tabb, L. (2018). A 4-Year Analysis of the Incidence of Injuries Among CrossFit-Trained Participants. Orthop J Sports Med, Oct 24;6(10)

Hagberg, R., Heifetz, J. (2000). Corporate culture/ organizational culture: understanding and assessment [Online]. Disponível em: http://www.hcgnet.com/html/articles/underetanding-Culture.html [5Abril2000].

Larson, A. (2015). cfganalysis. Disponível em: http://cfganalysis.blogspot.com

Mehrab, M., de Vos, R., Kraan, G. Mathijssen, N. (2017). Injury Incidence and Patterns Among Dutch CrossFit Athletes. Orthop J Sports Med, Dec 18;5(12)

Godin, S. (2008). Tribos.Lisboa: Lua de Papel.

Sena, P. (2010). ENTREVISTA a Sérgio Rodrigues: um dos primeiros instrutores CrossFit em Portugal. Disponível em: https://paulosena.wordpress.com/2010/12/21/entrevista-sergio-rodrigues-o-primeiro-instrutor-crossfit-em-portugal/

Sena, P. (2013). A metodologia crossfit. Disponível em: https://paulosena.wordpress.com/2013/06/04/crossfit-2/

Shakhawala, S. (2019). Numbers Don’t Lie: CrossFit Open Movements To Master For 2019. Disponível em:
https://wodprep.com/blog/7-movements-master-crossfit-open/

Thurston, A e Kuile, C. (2015). How We Gather – A New Report On Non-Religious Community. Disponível em: https://caspertk.files.wordpress.com/2015/04/how-we-gather.pdf

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