Escrita Académica: Como Elaborar um Trabalho Científico – Versão 1.0

Escrita Académica: Como Elaborar um Trabalho Científico

Versão 1.0

Paulo Sena, PhD

Escola Superior de Educação de Fafe, Portugal

pjrsena@gmail.com

http://www.paulosena.com

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Escrita Académica: Como Elaborar um Trabalho Científico

Um trabalho académico, um trabalho de investigação, tem uma linguagem própria, tem regras da sociedade académica. Embora haja diferenças entre universidades e publicações académicas, no geral, são constituídos por:

Título/Folha de Rosto

O título do trabalho deverá dizer aos leitores qual o tema central do trabalho e seu significado. Muitas das vezes inclui uma espécie de “gancho” ou chamada de atenção e uma descrição breve sobre de que é que trata, incluindo palavras-chave mais comuns na área de investigação em que se centra.

Deverá ainda identificar o autor, a instituição à qual está ligado e incluir um contacto.

Abstract/Resumo

Um sumário do trabalho (cerca de 100-500 palavras). Deverá incluir: objectivos, resultados e conclusões.

Introdução

Na introdução repetimos o título do trabalho em vez de usarmos o título “introdução”.

Primeiro fornece um plano de fundo (background) e motivos para o tema que se está a estudar (habitualmente inclui a revisão da literatura). Depois descreve o objectivo do trabalho. Por último, dá uma visão geral dos conteúdos das várias partes do trabalho. Em termos de escrita, vai do geral para o particular.

Método/Procedimento

Nesta parte descreve-se aquilo que fizemos e como fizemos. O objectivo é dar informação suficiente ao leitor para o caso dele querer replicar o nosso trabalho.

Resultados

Aqui apresentam-se os dados obtidos. Gráficos, tabelas, etc. Deve ser dada alguma descrição aos dados e uma ajuda para o leitor reconhecer os pontos importantes dos dados obtidos.

Discussão/Conclusões

Na discussão relacionamos as nossas descobertas com as dos autores apresentados na revisão da literatura. Pontos em que coincidem os trabalhos dos outros autores ou as grandes diferenças dos trabalhos consultados. Ou simplesmente concluir que não há consenso na matéria…

O objectivo da conclusão é sumariar os seus pontos de vista, deixando exemplos específicos, reafirmar a ideia do trabalho e possivelmente sugerir possíveis investigações futuras acerca do tópico analisado. O texto deverá ser orientado do particular para o geral.

Bibliografia

Aqui apresentam-se todos os livros, revistas científicas, sites, vídeos e outros suportes de dados consultados. Deverá ser uma listagem ordenada por ordem alfabética. Na generalidade, coloca-se:

Último nome do autor, Iniciais dos dois primeiros nomes do autor. (ano de publicação.) Título. Local de publicação: Editora que publicou o trabalho. Aqui ficam alguns exemplos:

Livro. Paloutzian, R. (1996). Invitation to the psychology of religion (2nd ed.). Boston: Allyn and Bacon.

Documentos retirados da web. Hallam, A. Duality in consumer theory [documento em PDF]. Disponível em Lecture Notes Online Web site: http://www.econ.iastate.edu/classes/econ501/Hallam/index.html

Diapositivos. Roberts, K. F. (1998). Federal regulations of chemicals in the environment [diapositivos em PowerPoint]. Disponível em: http://siri.uvm.edu/ppt/40hrenv/index.html

Artigo online. Sena, P. (7 de Dezembro de 2011). Flacidez. Disponível em http://paulosena.com/2011/12/07/flacidez/

Vídeo no YouTube. Burpees a la Tour Eiffel [ficheiro em Vídeo]. Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=rmYbaBj-kVc&list=UUucTs2Xq5XIMBpBZN6QegZQ

Citações

Quando queremos adoptar material de outros autores para o nosso trabalho, deveremos citar o autor(es) a data(s) das fontes de onde retiramos a citação. Ou seja, o objectivo é reconhecer formalmente as ideias e palavras dos outros. Exemplos:

Wirth e Mitchell (1994) descobriram que a insulina tinha um efeito…

As revisões sobre a religião e a saúde concluíram que pelo menos alguns tipos de comportamentos religiosos estão relacionados com elevados níveis de saúde mental (Gartner, Larson, e Allen, 1991; Koenig, 1990; Levin e Vanderpool, 1991).

Figuras e Tabelas

As figuras e as tabelas deverão ser numeradas consoante a sua ordem de entrada no texto. As figuras e as tabelas deverão ter um título. O título da figura deverá situar-se por baixo da mesma enquanto o título de uma tabela deverá situar-se por cima desta. Utilizar o formato itálico de forma oposta como neste exemplo:

cropped-Logo_PauloSena2.jpg
Figura 1. Logótipo de Paulo Sena

 

Tabela 1.

Melhores marcadores do campeonato de futebol XX2

Jogador Golos
Paulo 10
Jorge 9

 

Normas de Apresentação

Existem normas de apresentação de trabalhos: a norma portuguesa NP 419.1995, as normas das associações internacionais como a APA, ACS, AMA, CBE, CMS, Turabian, Microsoft e a MLA. Utilizaremos como referência as normas APA – American Psychologycal Association. Mas como as normas são muito complicadas. Apresentaremos um resumo de orientações para que se criem bons hábitos na elaboração de trabalhos escritos.

Determinar Claramente o Objetivo do Trabalho

Antes de realizar a pesquisa para o trabalho, é fundamental compreender o objectivo do mesmo. O professor é que manda, por isso temos de perceber bem o que ele pretende.

Delimitar o Tema

Depois é necessário delimitar o tema.

Exemplos de temas:

  • A natação
  • Os benefícios da natação
  • A natação com idosos
  • Os benefícios da natação em idosos com osteoporose

Nestes exemplos anteriores o primeiro tema é muito vasto, por isso o último seria mais indicado pois delimita muito mais a quantidade de trabalhos a pesquisar.

Recomenda-se que o tema esteja ligado com os objectivos profissionais futuros, para que as descobertas do trabalho e o tempo dedicado sejam úteis e para que não se transforme apenas num documento de avaliação.

Questão de Partida

Após a escolha do tema para o qual poderá ser formulada uma questão de partida, poderá iniciar-se a pesquisa na tentativa de dar resposta a essa questão a esse problema de investigação. Convém ter em atenção ao pesquisar nas diversas fontes (em livros, vídeos, na Internet ou noutros suportes documentais) para se registarem sempre as fontes, os autores, as datas, etc. Esse registo irá depois servir para elaborar a listagem de referências bibliográficas consultadas.

A Revisão da Literatura

Na revisão bibliográfica vamos investigar sobre as opiniões, os trabalhos de investigação de outros autores. Antes de iniciar o processo de escrita, convém criar um índice para ajudar a organizar ideias do geral para o particular. Começamos a escrever a revisão com uma ligeira introdução, uma frase curta e simples. Se necessário, analisar primeiro definições, teorias e modelos antes de sintetizar. Procurar responder no nosso texto às seguintes questões para avaliar trabalhos de outros autores sobre os quais incide a nossa revisão:

  • O problema está apresentado de forma clara?
  • Os resultados apresentados são novos?
  • A amostra utilizada era grande?
  • Os argumentos são convincentes?
  • Como foram analisados os resultados?
  • Qual a perspectiva como eles foram vistos?
  • As generalizações são justificadas pelas evidências sobre as quais elas são efectuadas?
  • Qual é a significância da investigação?
  • Quais são as assunções por detrás da investigação?
  • A metodologia está bem justificada como a mais apropriada para estudar o problema?
  • A base teórica é transparente?
  • Quais as forças e fraquezas dos trabalhos revistos?
  • Quais as diferenças genuínas entre as teorias apresentadas nos vários trabalhos?
  • Elaborar um quadro final a sintetizar o que os outros fizeram.
  • Isolar e salientar as descobertas que são relevantes para a temática que estamos a estudar.

Atenção: não se fala do problema, apenas mostramos aquilo que os outros fizeram. Apresentar as ideias principais do estado da arte mas sem incluir as nossas ideias.

Podemos organizar a revisão da literatura de forma cronológica ou temática.

Por ex.: se houve várias teorias da liderança podemos organizar sub-títulos em torno delas. Demonstrar que consideramos os trabalhos dos outros e revelar poder de síntese e fazer uma leve avaliação do trabalho dos outros. Ao avaliar criticamente estamos à procura das forças de certos estudos e a significância das contribuições dos investigadores.

Frases de Início e Expressões Úteis

Quando começamos a escrever, por vezes, é difícil começar. Para tal, podemos procurar trabalhos de mérito, boas referências e retirar estruturas de frases mais comuns. Aqui ficam alguns exemplos que poderás utilizar com as devidas adaptações:

Introdução

… é um importante componente de…

O ponto central da disciplina de… é…

… é um assunto de crescente importância em…

Desenvolvimentos recentes na… demonstraram a necessidade de…

Desenvolvimentos recentes no campo da… levaram a um renovado interesse pela…

Este estudo contribui para…

No último século, houve um grande declínio…

Recentemente tem havido um crescente interesse por…

Até à data tem havido pouco consenso sobre…

A controvérsia sobre… tem existido nos últimos 30 anos…

Um assunto que tem dominado a área X durante os últimos anos…

A questão da… tem aumentado em termos de importância…

A maioria dos estudos de… foi apenas centrado na…

Até agora, pouca importância tem sido dada a…

Até agora, este método foi apenas aplicado a…

Revisão da literatura

Foi publicada já uma quantidade considerável de literatura sobre X…

No entanto, existem poucos trabalhos sobre…

Numerosos estudos argumentam que…

Vários estudos revelaram que…

A investigação até à data tende a focar-se em…

Dados de vários estudos identificaram a…

Tem sido sugerido que…

Tem sido conclusivamente demonstrado que…

Tem sido demonstrado que…

Pensa-se que…

Outros estudos consideraram a relação entre…

O primeiro estudo sistemático de… foi relatado por…

O estudo de X foi iniciado por…

Uma análise detalhada de… por Rodrigues (2015)… mostrou que…

Num estudo aleatório (randomizado)…

Num estudo comparativo, Rodrigues (2014) encontrou…

Esta visão é suportada por Rodrigues (2014), que argumenta…

Um problema chave com este argumento é…

No entanto, existe alguma inconsistência neste argumento apresentado…

A interpretação de Rodrigues (2014)…

No entanto, uma questão que tem de ser colocada…

Um problema com esta abordagem é…

A principal limitação deste estudo é…

No entanto, este método de análise tem várias limitações…

No entanto, a investigação não tem em conta o seguinte…

O autor não explica…

As principais lacunas deste estudo são…

Estudos anteriores apenas se focaram…

Muita da literatura recente não…

A literatura não apresenta um consenso sobre X, o que significa que…

A literatura actual apresenta vários exemplos de…

Segundo Santos (2012), os desportos colectivos são muito mais benéficos do ponto de vista educativo, por isso…

Jordan (2014) salienta que…

Jordan (2014) argumenta que…

Jordan (2014) conclui que…

Jordan (2014) sugere que…

Jordan (2014) propõe…

Rodrigues (2012) defende a ideia…

Rodrigues (2012) comenta…

Rodrigues (2012) cita…

Rodrigues (2012) olha para o trabalho de Santos (2014)…

Rodrigues (2012) acredita que…

Rodrigues (2012) lança a hipótese…

Rodrigues (2012) ataca…

Rodrigues (2012) condena…

Rodrigues (2012) refuta…

Embora tenha havido relativamente pouca investigação sobre X…

Nos últimos X anos a investigação tem disponibilizado um amplo suporte da ideia X…

A investigação actual parece validar a hipótese/ideia…

A investigação nesta área ainda é insuficiente para concluir acerca de…

Esta visão também é proposta por Jordan (2013), que refere…

O trabalho de Jordan (2013) é complementado pelo estudo dos desportos colectivos de Santos (2012)…

Ao contrário de Jordan, Rodrigues (2011) argumenta que…

Método

O procedimento foi…

Foi escolhida uma abordagem X porque…

Esta metodologia tem uma série de vantagens, tais como:

As limitações aos procedimentos do estudo incluem…

Os dados foram obtidos de…

… foi preparado de acordo com o procedimento delineado por…

A amostra inicial consistiu em…

O critério para seleccionar os indivíduos foi o seguinte:

Para incrementar a fiabilidade…

Resultados

Nota-se na Tabela 1 que…

Os dados na Figura 2 indicam que…

Encontrou-se uma forte evidência…

Encontrou-se uma correlação positiva entre… e…

Os resultados, como se verifica na Tabela 2, indicam que…

Não se encontrou uma forte redução em…

A maioria dos inquiridos referiu que…

Um pequeno número dos entrevistados indicou que…

Uma comparação entre os dois grupos revela que…

Discussão

Ao contrário daquilo que se esperava, este trabalho não encontrou diferença significativa entre…

Este resultado foi inesperado e sugere que…

Os resultados do presente estudo estão de acordo com os resultados de…

Existem similaridades entre este trabalho e o de…

Estes resultados sugerem…

Ao contrário de resultados anteriores…

Existem várias explicações para este resultado. Por exemplo:

Esta inconsistência pode dever-se a…

Os dados devem ser interpretados com precaução porque…

Este resultado tem implicações em…

Conclusões

O objectivo da presente investigação era…

Este estudo demonstrou que…

Uma descoberta importante deste estudo é…

Os resultados são significativos em 3 aspectos:

Em geral… Por isso, os resultados mostram…

Os resultados deste trabalho mostram confirmam anteriores resultados obtidos por…

No entanto, necessitam ser consideradas algumas limitações. Por exemplo:…

A investigação estava limitada de várias formas.

Várias limitações têm de ser reconhecidas.

Futuras investigações deverão orientar-se no sentido…

A investigação futura deveria concentrar-se em…

É necessária mais investigação para compreender…

Os resultados deste trabalho têm a seguinte implicação…

Recursos

https://scholar.google.pt/

http://www.efdeportes.com/

https://owl.english.purdue.edu/

http://www.phrasebank.manchester.ac.uk/

http://www.besttitlegenerator.com/

http://www.luizotaviobarros.com/2013/04/academic-writing-useful-expressions.html

Bibliografia

American Psychologycal Organization (2009). Publication Manual of the American Psychological Association (6th ed.). Washington: APA.

Morley, J. (2015). Academic Phrasebank: referring to sources. Retirado de: http://www.phrasebank.manchester.ac.uk/referring-to-sources/

RMIT University. (2014). Study tips – research writing: starter phrases. Retirado de: https://emedia.rmit.edu.au/learninglab/sites/default/files/Research_Starter_phrases_2014_Accessible.pdf

Taylor, D. (2001). The literature review: a few tips on conducting it. [Online]. Disponível em: http://www.utoronto.ca/writing/tirev.html [10 Fevereiro 2004].

Análise Fatorial Confirmatória do Exercise Motivation Inventory-2 (EMI-2) e Validação de uma Versão Reduzida

Paulo Sena, Susana Alves, Pedro Baptista, Teresa Bento, Luís Cid e João Moutão
Paulo Sena, Susana Alves, Pedro Baptista, Teresa Bento, Luís Cid e João Moutão

Atualmente surge, cada vez mais, uma necessidade de compreender quais as razões para o baixo número de praticantes de exercício físico na União Europeia, sendo que a percentagem de praticantes de exercício físico com regularidade encontra-se um pouco abaixo dos 30%. No seguimento deste raciocínio, centra-se assim uma enorme curiosidade em desvendar como se poderá compreender os motivos para esta pouca prática na população do velho continente ou, até, qual o motivo que direciona, de um forma mais preponderante, o praticante de exercício físico a fazer tal atividade.

       O Exercise Motivation Inventory 2 é um instrumento validado em vários países e para várias línguas e tem sido um dos principais questionários a ser utlizado para desvendar quais os principais motivos para a prática de exercício, sendo assim direcionado para o contexto dos ginásios. Este instrumento foi criado em 1997 por Ingledew e Markland e é uma versão melhorada de um Exercise Motivation Inventory que se apresentava como um instrumento debilitado, tendo sido acrescidos dois motivos e validado no seu construto. Este novo instrumento é composto por 51 itens, 14 fatores e 5 dimensões (motivos psicológicos, motivos interpessoais, motivos relacionados com o corpo, motivos de condição física, motivos de saúde), foi validade em termos da sua invariância entre vários grupos como o género e o fato de ser praticante ou não praticante. Tendo em conta estes aspetos pode-se referenciar este questionário como bastante abrangente (avalia vários motivos e vários grupos diferentes) e internacional (aplicável em vários países e línguas).

Pode-se assim afirmar que esta problemática demonstrada na União Europeia pode ser combatida e estudada recorrendo a este questionário, desvendando-se assim duas principais problemáticas na sua aplicação que se transformam nas hipóteses dos dois estudos que compõem esta tese: validação através de uma análise fatorial confirmatória para a população portuguesa e necessidade de redução da extensão do questionário de forma a torna-lo mais fácil e rápido de aplicar.

O primeiro estudo tem como objetivo validar o Exercise Motivation Inventory 2 numa versão orientada para a população portuguesa. Este questionário é constituído por 5 dimensões, 14 fatores e 51 itens. Esta validação é feita por intermédio de uma Análise Fatorial Confirmatória à estrutura apresentada no questionário do EMI-2, tendo em conta os valores de ajustamento do modelo e a aproximação destes aos parâmetros sugeridos pelos autores de referência (CFI e NNFI ≥ .90; RMSEA ≤ 0.06; SRMR ≤ .08). Para este estudo foi tida em conta uma amostra de 2266 indivíduos praticantes de fitness, de ambos os géneros, com uma média de idades de 35.95 anos (± 13,08). Para validação deste questionário foi necessário dividi-lo por dimensões e fatores para aplicar uma AFC de forma aos parâmetros se ajustarem, também foi necessário ajustar alguns pesos fatoriais e igualar a variância em alguns erros associados aos itens para ajustar fatores mais problemáticos, bem como a criação de correlações. Por fim pode-se afirmar que os valores retirados das AFC feitas aos fatores aceitam-se de forma separada, concretizando-se assim o objetivo deste estudo apesar de ser necessário salientar alguns itens e fatores problemáticos que poderiam ser eliminados.

No segundo estudo o objetivo foi criar uma nova versão do Exercise Motivation Inventory-2p. Este objetivo surge após se verificar a extensão deste questionário (é constituído por 5 dimensões, 14 fatores e 51 itens) para a aplicação no contexto do ginásio, perdendo assim alguma da sua utilidade e qualidade. Para este estudo foi tida em conta uma amostra de 2266 indivíduos praticantes de fitness, de ambos os géneros, com uma média de idades de 35,95 anos (±13,08). Esta redução é baseada na seleção dos itens mais fortes dentro de cada fator, previamente analisado através de uma Análise Fatorial Exploratória, de onde surgiria uma versão de apenas 3 fatores e 14 itens. Seguido de uma Análise Fatorial Confirmatória à estrutura apresentada nesta nova versão do questionário do EMI-2p, tendo em conta os valores de ajustamento do modelo (CFI, NNFI, SRMR, RMSEA, RMSEA IC 90%) e a aproximação destes aos parâmetros sugeridos pelos autores.    Para que seja possível esta redução foram experimentados 4 modelos diferentes com os itens previamente selecionados, após uma AFC verificou-se a necessidade de analisar os fatores em separado, chegando assim à conclusão de ser possível efetuar a redução do EMI-2p mantendo-se a sua consistência e o que pretende avaliar.

Como conclusão destes estudos tenho a referenciar que este tipo de análises nem sempre é fácil, sendo necessário enumeras tentativas na utilização do software AMOS 20.0 de forma a que os valores de corte aceitáveis sejam atingidos. Apesar de apresentar algumas reservas relativas a alguns valores apresentados no primeiro estudo posso afirmar que os objetivos foram atingidos e que agora a população portuguesa detém mais um instrumento que possa avaliar os cinco principais motivos e os respetivos catorze motivos nele inseridos e outro novo instrumento que consegue avaliar catorze sub-motivos de uma forma mais rápida.

Recomenda-se, contudo, mais investigação nesta área que tem imenso por onde desenvolver e um mercado excelente a explorar. Também se recomenda que um Psicólogo do Exercício consiga o seu espaço no ginásio de forma a conseguir intervir com os clientes do ginásio e colaborar com os instrutores e restante staff que o compõem. Para além destas recomendações, é importante referir que este questionário (versão reduzida do EMI-2p) deverá ser aplicado e que seja feita uma nova AFC de forma a compreender se há alterações nos valores de corte tendo em conta a análise feita nestes estudos.

Em termos práticos, este questionário poderá ser extremamente útil nos ginásios de forma a compreender os motivos que levam o cliente ao ginásio, tal como será fundamental transformar essa compreensão numa nova forma de intervenção junto do mesmo. A aplicação deste questionário poderá ser feita no momento da avaliação física inicial do cliente, onde o Psicólogo do Exercício, que estiver afiliado ao ginásio, poderá ter uma breve intervenção e aplicar o questionário para desvendar os motivos que levam o cliente a estar onde está no preciso momento.

Pedro Baptista

pedro_paluxa@hotmail.com

Mestre em Psicologia do Desporto e Exercício pela ESDRM.

Luís Cid

luiscid@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

João Moutão

jmoutao@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Motivos para a Prática de Exercício: tradução e validação do Goal Content for Exercise Questionnaire

Hugo Louro, Paulo Sena, Susana Alves, Luís Cid, Eduardo Ramos e João Moutão
Hugo Louro, Paulo Sena, Susana Alves, Luís Cid, Eduardo Ramos e João Moutão

O estudo da motivação para o exercício físico tem obtido um incremento de investigação nos últimos anos. Entre as teorias mais utilizadas, encontra-se a Teoria da Autodeterminação uma das mais importantes devido à sua aproximação com a prática, flexibilidade e fiabilidade. Dentro da Teoria da autodeterminação encontra-se a subteoria do conteúdo dos objetivos que carateriza o conteúdos dos objetivos para a prática de atividade física como intrínsecos ou extrínsecos.

Funciona como potenciador do crescimento pessoal dos praticantes, aumenta a satisfação pessoal e o bem-estar e culmina com o crescimento da indústria.

Esta investigação centra-se na tradução, adaptação e validação do Goal Content for Exercice Questionnaire para a população portuguesa e analisar a orientação do conteúdo dos objetivos dos praticantes portugueses de atividade física.

O GCEQ vem colmatar a ausência de instrumentos científicos nesta área e incrementar a oferta de instrumentos para o combate às barreiras e desistências, mas sobretudo à satisfação dos praticantes de atividade física em ginásios.

Na prática de exercício o conteúdo dos objetivos é fundamental para o entendimento dos reais valores do cliente face á execução e inscrição nos ginásios e para a análise pessoal e relacional.

Esse questionário para além da classificação dos objetivos categoriza anda os objetivos por fatores Intrínsecos (Afiliação Social, Manutenção da saúde e Desenvolvimento de capacidades) e fatores extrínsecos (Imagem corporal e reconhecimento de capacidades).

Permite ainda a redefinição da prática de exercício para os reais objetivos, ou seja, com estes dados obtemos uma aproximação da perceção de realidade pretendida com o “eu real”. Permite então claramente benefícios na satisfação, bem-estar, resultados ao nível do relacionamento e obtenção de resultados de forma eficiente.

Participaram no estudo 389 indivíduos praticantes de fitness (n = 171 masculino 44%, n= 218 feminino 56%), com idades compreendidas entre os 11 anos e os 75 anos de idade (M = 31.4; DP = 11.15) que frequentavam ginásios no Norte e Centro de Portugal (Aveiro 46 %; Porto 21 %; Castelo Branco 13 %; Viseu 9 % e Leiria 11 %).

Envolvidos em atividades de Cardiofitness (n = 186, 48%,) Musculação (n = 117, 30%) e Aulas de grupo (n = 85 ou seja 22 %).

Foi utilizado a versão preliminar portuguesa do Goal Content for Exercice Questionnaire (GCEQ) (Sebire et al., 2008) que se revela um questionário de 20 itens de medida que atesta a importância que as pessoas colocam nos seus esforços e na sua prática de atividade física.

Os principais resultados permitem antecipar uma relação entre o género e os motivos de afiliação social e desenvolvimento de capacidades (vocacionadas com a motivação intrínseca).

A relação entre a idade e o fator saúde indica que um dos principais fatores de adesão e manutenção na prática desportiva é a preocupação com a saúde, bem-estar e qualidade de vida.

Relativamente ao grupo de modalidades, essa escolha efetuada pelo praticante é baseada na perceção de competência sobre a realização de atividades de fitness (própria ou introjetada por terceiros).

Verificamos assim a importância da avaliação do conteúdo dos objetivos para uma máxima rentabilização de recursos, avaliação correta e coerente do real objetivo face à prática de atividade física e retenção de dados que podem ter valor da planificação de aulas e atividades.

Mas na realidade qual a implicação prática destes resultados e investigações?

Com os resultados demonstrados desta investigação e suporte na bibliografia podemos considerar extremamente importante a regulação comportamental nos ginásios e este aspeto é essencial na análise da motivação dos praticantes para a adesão e manutenção dos clientes.

Assim de forma mais prática iremos abordar e refletir sobre os processos em que a análise e avaliação do conteúdo dos objetivos possui influência na adesão e manutenção dos praticantes de forma faseada, demonstrando também a importância da Psicologia associada ao exercício físico.

  • Analisar e avaliar o praticante em relação ao contexto (ginásio):
    • Objetivos da prática;
    • Modalidades preferidas;
    • Informação básica (pessoal, experiências de prática)
  • Elaboração de planos ajustados aos dados recolhidos (objetivos, modalidades) em consonância com os instrutores, cliente e restante staff se necessário:
    • Explicação dos objetivos do plano de treino, do caminho a prosseguir.
    • Permitir ao cliente participar no desenho do plano de treino (autonomia, satisfação e responsabilidade)
    • Elaboração e implementação do plano de treino;
    • Objetivo a curto, médio e longo prazo a atingir;
    • Intervenção regular, assertiva e acompanhada ao nível da comunicação dos instrutores;
  • Adaptação do contexto ao objetivo do cliente:
    • Grupos de prática por conteúdo dos objetivos;
    • Definição de objetivos individuais por grupos de modalidade, por aula e por instrutor;
    • Avaliação constante dos objetivos e do plano traçado inicialmente;
    • Gravação de aulas para confrontação com os objetivos e plano traçado;
    • Promover a identificação com a prática e com o ginásio (reforço e valorização do esforço, das necessidades e dos objetivos)
    • Proporcionar o cumprimento do plano de objetivos.

Assim conseguimos afirmar que o conteúdo dos objetivos do cliente é proporcional com a realidade encontrada na prática, mantendo assim níveis positivos de identificação com a prática, manutenção de clientes, crescimento pessoal e comercial do ginásio, integração do comportamento desportivo do cliente e comportamento social e humano do ginásio.

Em suma, promovendo uma identificação, desenvolvemos relações.

Eduardo Ramos

eduh_ramos@hotmail.com

Mestre em Psicologia do Desporto e Exercício pela ESDRM.

João Moutão

jmoutao@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém

Luís Cid

luiscid@esdrm.ipsantarem.pt

Professor Adjunto no Instituto Politécnico de Santarém