Eu não preciso treinar pernas porque jogo futebol

No futebol não usamos a amplitude total das articulações do quadril e do joelho. Assim, só vamos desenvolver força nos ângulos articulares usados nos movimentos do futebol. Por outro lado, ao usar amplitudes de movimento limitadas iremos perder mobilidade. Algo muito comum em futebolistas jovens que apenas jogam futebol.

Alguns futebolistas decidem trabalhar com cargas adicionais: elásticos, pesos e afins. No entanto, voltam a insistir na utilização dos mesmos ângulos articulares e padrões de movimento do jogo, agravando os desequilíbrios entre músculos da parte anterior e posterior da perna, da coxa e do quadril. Resultado: aumento do potencial de lesão.

Finalmente gostaria de acrescentar que existe sempre aumento de força e hipertrofia em quem não usa cargas adicionais e apenas joga futebol. Mas passado uns tempos isso deixa de ocorrer, porque já não há mais sobrecarga. Solução: incrementar progressivamente a resistência contra a qual produzimos força. A forma mais simples e segura é usar pesos. Uma barra e discos, uma estrutura de suporte e realizar aqueles exercícios que têm provado ser eficazes nos últimos 100 anos: agachamento, peso morto e eventualmente uns afundos de pernas.

A técnica deverá respeitar as Leis da Física, a anatomia e os movimentos deverão ser realizados em amplitude eficaz. Já sabemos que treinar pernas 2 vezes por semana é exigente, mas também o retorno é incrivelmente produtivo. Mas ficar pela leitura, seria estupidez. O melhor é experimentar.

Futebol – mais treinos à porta aberta?

A fim de se prepararem para o ambiente competitivo, parece-me que as equipas amadoras e sobretudo profissionais, deveriam fazer mais treinos à porta aberta, para aumentar o compromisso, controlar ansiedade, diminuir stress e terem um desempenho em jogo similar ao dos treinos nos quais alguns treinadores tanto ênfase dão nas conferências de imprensa quando se referem aos PROCESSOS.

Assisti a muitos treinos de Tomislav Ivic e Bobby Robson nas Antas, com muito público, com um ambiente mais próximo daquele que os atletas têm em jogo. Recordo inclusive ter presenciado a um treino após um jogo menos conseguido por parte da equipa liderada por Sir Robson. A presença de público interferia nitidamente no desempenho e no desenrolar dos exercícios de treino.

Só a exposição progressiva a todos os agentes stressores, poderá desenvolver nos jogadores, habilidades para lidar com as situações que eles inicialmente têm dificuldade em controlar. Não podemos preparar-nos para falar em público sem falar em público. Mas a exposição deverá ser progressiva. Na atualidade parece haver um grande desfasamento entre a pressão percebida de treino e de jogo.

Todos os que praticamos desporto de competição nos recordamos da diferença entre treinar e competir e das mudanças positivas e negativas nossas e de companheiros de equipa a quando dos jogos. Por muito que a visualização, a respiração diafragmática e a dissociação cognitiva proporcionada pela música ou palestras e momentos de humor nos possam ajudar, por muito que a mente humana tenha a capacidade de recriar mentalmente possíveis situações futuras com detalhe, vivenciar continua a ser distinto no estado emocional que gera em nós. Por isso, após um erro consciente cometido, uns querem uma nova oportunidade e outros não se querem expor outra vez.

Antes de serem futebolistas, são pessoas com as suas dimensões bio-psico-social a interagirem entre si.