Futebol – mais treinos à porta aberta?

A fim de se prepararem para o ambiente competitivo, parece-me que as equipas amadoras e sobretudo profissionais, deveriam fazer mais treinos à porta aberta, para aumentar o compromisso, controlar ansiedade, diminuir stress e terem um desempenho em jogo similar ao dos treinos nos quais alguns treinadores tanto ênfase dão nas conferências de imprensa quando se referem aos PROCESSOS.

Assisti a muitos treinos de Tomislav Ivic e Bobby Robson nas Antas, com muito público, com um ambiente mais próximo daquele que os atletas têm em jogo. Recordo inclusive ter presenciado a um treino após um jogo menos conseguido por parte da equipa liderada por Sir Robson. A presença de público interferia nitidamente no desempenho e no desenrolar dos exercícios de treino.

Só a exposição progressiva a todos os agentes stressores, poderá desenvolver nos jogadores, habilidades para lidar com as situações que eles inicialmente têm dificuldade em controlar. Não podemos preparar-nos para falar em público sem falar em público. Mas a exposição deverá ser progressiva. Na atualidade parece haver um grande desfasamento entre a pressão percebida de treino e de jogo.

Todos os que praticamos desporto de competição nos recordamos da diferença entre treinar e competir e das mudanças positivas e negativas nossas e de companheiros de equipa a quando dos jogos. Por muito que a visualização, a respiração diafragmática e a dissociação cognitiva proporcionada pela música ou palestras e momentos de humor nos possam ajudar, por muito que a mente humana tenha a capacidade de recriar mentalmente possíveis situações futuras com detalhe, vivenciar continua a ser distinto no estado emocional que gera em nós. Por isso, após um erro consciente cometido, uns querem uma nova oportunidade e outros não se querem expor outra vez.

Antes de serem futebolistas, são pessoas com as suas dimensões bio-psico-social a interagirem entre si.

Metas intermédias, objetivos de Tarefa… Psicologia Aplicada

Quando treinas sozinho, tens o amiguinho dentro da tua cabeça a empurrar em frente ou a puxar para trás. No meu caso é o Jorginho.

Disciplina

Começamos o treino porque uma força interior e o plano delineado para esta semana dizia: remo. Nunca fui remador, mas o remo indoor conquistou-me há anos quando a passadeira irritou os meus rotulianos e antes ainda quando o tempo era curto para treinar. Mas foi no dia em que, na antiga Solinca de luxo recebi um cartaz com vários desafios de remo e decido fazer tudo: desde 500m até uma hora a remar. O quadro estava vazio e tinha de liderar pelo exemplo: um cirurgião não tem de se submeter às suas técnicas, mas também não vai fazer dos pacientes suas cobaias.

Expectativas

Comecei a remar focado na técnica: pernas – tronco – braços. Tinha apenas definido remar 2km.

Dissociação cognitiva

Resolvi ligar a música, mas lembrei-me que podia ter um treinador virtual por uns minutos. Nada melhor do que Eric Murray. Cliquei e…

O Eu Analítico

Comecei por escutar um vídeo técnico, mas a vozinha crítica prendia os meus movimentos. Mudei para um vídeo mais longo e deixei-me ir. Quando somos crianças, aprendemos por modelagem, imitando quem nos rodeia. Olhei para o Eric e procurei imitar sem pensar nas pernas ou nos braços e os metros foram avançando pelo ar fresco de Vila Real ao som dos passarinhos que nos lembram a primavera. Lembrei-me do Timothy Gallwey 🙂

Mudar o Foco

Já havia alterado o monitor para watts, deixando de ver o andamento em tempo (referência que mais domino) e desligando a atenção do passado e do futuro.

Objetivos de Resultado

Não sabendo a distância percorrida nem a velocidade, era mais difícil focar-me no futuro sem referências. Isso permitiu que a minha ansiedade diminuisse em relação ao habitual. Vivo um período há muito tempo em que as sensações por vezes levam a interpretações inadequadas do Jorginho.

Objetivos de Tarefa

O presente é tudo o que temos garantido. É o aqui e agora. Podemos deixar o barco ir com a corrente: go with the flow. Podemos pensar em pernas – tronco – braços. Em expirar quando a barra toca o tronco e quando ela está sobre os pés.

Metas Intermédias

É meu hábito como professor, partir 2km em pedaços mais pequenos e focar a minha instrução em técnica nos primeiros 500m, contar remadas nos segundos 500m, distrair o alunos nos 1500 e só a partir daí mudar o foco para…

Objetivos de Resultado

Quando já tinha 23 minutos e me deixei ir com a corrente ao lado do Eric (algo que nem em sonhos com ele em má forma), resolvi dar um comando: páras aos 25min, mesmo que te apeteça fazer mais! Obedeci mesmo sem estar cansado, focando-me novamente no futuro, num objetivo de resultado.

A Surpresa

Mudei o monitor para ver metros percorridos. Pensava ter uns 4300, mas… Estava nos 4750 com pouco mais de um minuto para o final. Resolvi fazer umas remadas mais poderosas e em vez das 18 por minuto, passei a 26. Não queria terminar com falta de ar. Fazia tempo que não percorria 5km. Está longe dos 20 minutos de há 20 anos, mas foi engraçado.