Os desejos da passagem de ano

A passagem de ano é um motivo de festa. Para os que vivem no hemisfério sul é altura de férias grandes, de mudança de temporada desportiva, de… Verão! É mesmo algo muito marcante.
Para nós que iniciamos a temporada de trabalho em setembro, ou a temporada desportiva em julho/agosto, pode ser um momento de reflexão, de reformulação, de renovar energias.

Se recuarmos 5 ou 10 anos, todos tivemos afirmações do estilo:
Se… conseguir XXXX serei feliz!
Se… alcançar XXXX serei feliz!
Se… tiver XXXX serei feliz!
Se… fizer XXXX serei feliz!
Se…

Muitos dos XXXX foram alcançados. Ora pensa lá… Mas… Somos mais felizes por isso? Aprendemos algo? Ou apenas nos destruímos?

Ou simplesmente corremos atrás do próximo XXXX por sentirmos um vazio ou por estarmos perdidos? Ou será que não sabemos apreciar o que temos e o que somos?

Agora estamos na época do ano das afirmações: Se conseguir XXXX vou ser feliz!

Mas… a nossa existência é sermos felizes por simplesmente estarmos vivos. Somos uns sortudos!

Claro que queremos desfrutar da nossa existência na sua plenitude, formulamos desafios para andarmos mais excitados no dia a dia (porque temos as necessidades básicas asseguradas), porque queremos evitar depressões, porque achamos que correr atrás disso nos trará felicidade, mas… Vamos de novo indexar a felicidade a este modelo? Resulta?

Será apenas mais uma história que contamos a nós próprios para nos convencermos do valor que isso terá para uma vida mais feliz?

Será melhor termos o foco no caminho? Nas AÇÕES que eventualmente nos levarão a um lugar que imaginamos…

Aquilo que geralmente fazemos, é ter o foco no resultado e nunca apreciamos o caminho. Sem gostar do caminho, sem apreciar as acções que nos levam ao tal objetivo, fica muito dura a nossa existência. E quem criou essa dureza fomos nós.

Pensa nisso!

Metas intermédias, objetivos de Tarefa… Psicologia Aplicada

Quando treinas sozinho, tens o amiguinho dentro da tua cabeça a empurrar em frente ou a puxar para trás. No meu caso é o Jorginho.

Disciplina

Começamos o treino porque uma força interior e o plano delineado para esta semana dizia: remo. Nunca fui remador, mas o remo indoor conquistou-me há anos quando a passadeira irritou os meus rotulianos e antes ainda quando o tempo era curto para treinar. Mas foi no dia em que, na antiga Solinca de luxo recebi um cartaz com vários desafios de remo e decido fazer tudo: desde 500m até uma hora a remar. O quadro estava vazio e tinha de liderar pelo exemplo: um cirurgião não tem de se submeter às suas técnicas, mas também não vai fazer dos pacientes suas cobaias.

Expectativas

Comecei a remar focado na técnica: pernas – tronco – braços. Tinha apenas definido remar 2km.

Dissociação cognitiva

Resolvi ligar a música, mas lembrei-me que podia ter um treinador virtual por uns minutos. Nada melhor do que Eric Murray. Cliquei e…

O Eu Analítico

Comecei por escutar um vídeo técnico, mas a vozinha crítica prendia os meus movimentos. Mudei para um vídeo mais longo e deixei-me ir. Quando somos crianças, aprendemos por modelagem, imitando quem nos rodeia. Olhei para o Eric e procurei imitar sem pensar nas pernas ou nos braços e os metros foram avançando pelo ar fresco de Vila Real ao som dos passarinhos que nos lembram a primavera. Lembrei-me do Timothy Gallwey 🙂

Mudar o Foco

Já havia alterado o monitor para watts, deixando de ver o andamento em tempo (referência que mais domino) e desligando a atenção do passado e do futuro.

Objetivos de Resultado

Não sabendo a distância percorrida nem a velocidade, era mais difícil focar-me no futuro sem referências. Isso permitiu que a minha ansiedade diminuisse em relação ao habitual. Vivo um período há muito tempo em que as sensações por vezes levam a interpretações inadequadas do Jorginho.

Objetivos de Tarefa

O presente é tudo o que temos garantido. É o aqui e agora. Podemos deixar o barco ir com a corrente: go with the flow. Podemos pensar em pernas – tronco – braços. Em expirar quando a barra toca o tronco e quando ela está sobre os pés.

Metas Intermédias

É meu hábito como professor, partir 2km em pedaços mais pequenos e focar a minha instrução em técnica nos primeiros 500m, contar remadas nos segundos 500m, distrair o alunos nos 1500 e só a partir daí mudar o foco para…

Objetivos de Resultado

Quando já tinha 23 minutos e me deixei ir com a corrente ao lado do Eric (algo que nem em sonhos com ele em má forma), resolvi dar um comando: páras aos 25min, mesmo que te apeteça fazer mais! Obedeci mesmo sem estar cansado, focando-me novamente no futuro, num objetivo de resultado.

A Surpresa

Mudei o monitor para ver metros percorridos. Pensava ter uns 4300, mas… Estava nos 4750 com pouco mais de um minuto para o final. Resolvi fazer umas remadas mais poderosas e em vez das 18 por minuto, passei a 26. Não queria terminar com falta de ar. Fazia tempo que não percorria 5km. Está longe dos 20 minutos de há 20 anos, mas foi engraçado.