Cozinhar e elaborar programas de treino: um cheirinho!

Quando vamos para a cozinha, acreditamos que a melhor receita fará o prato mais delicioso. Artilha-mo-nos até aos ossos com os melhores equipamentos, medidores de quantidades, luvas especiais na esperança de criar deliciosos petiscos.

Durante anos também acreditei que, no ginásio, a melhor combinação de exercícios teria como consequência os melhores resultados. E se não o tivesse, mexia nas quantidades de forma constante até obter nova receita. Aplicava-a vezes sem conta sem perceber que o problema da retenção nos ginásios e sobretudo nos programas de exercício físico é multi-factorial. Estávamos centrados na receita. Querem perder gordura? X repetições, N treinos por semana, exercício A, Z e X. Sempre na busca de exercícios “especiais” e combinações de séries e repetições como verdadeiras combinações de cofres.

A melhor receita não faz o melhor prato. A melhor receita de nada vale se não soubermos cozinhar.

A melhor rotina de exercícios não dá os melhores resultados. A melhor rotina de nada vale se não soubermos treinar ou liderar treinos de pessoas.  A prova são as rotinas de treino dos campeões que estão muito, mas muito longe de criar campeões em quantidades abundantes. Mas é isso que continua a ser vendido, procurando transformar os ginásios em verdadeiros self-service de stocks limitados. Sempre sob a desculpa que é necessário massificar para rentabilizar. O caminho é o mesmo, os princípios são os mesmos, os resultados são iguais: pouco convincentes.

Que cozinhados fazemos como personal trainers? PTs! O expoente máximo do profissional de ginásio! O verdadeiro chefe de cozinha que se disponibiliza a deslocar-se à cozinha do cliente para elaborar… 5 ou 6 menus?!!! Só tem 5 ou 6 receitas que produzem resultados exactos? Continuo a achar estranho que a elevada performance paga a peso de ouro se limite a um pequeno conjunto de receitas, passando de personalizado a generalista. É pena! Queremos vender fast-food como alta-cozinha. É uma verdadeira incoerência. Ir a uma máquina de hotdogs que saem quentinhos na hora e pagar 1 ou 2 euros é uma coisa, mas… Pagar 20?!!!

São actos humanos que fazem a diferença. E o mais incrível é que, as ferramentas mais feias, mais básicas, sem corantes nem conservantes conseguem ainda melhores resultados que os novos inventos de aroma intenso, corantes garridos, preparados para serem fotografados em vez de ingeridos.

Associações cognitivas sobre o personal training que se estão a tornar inevitáveis

Recordava por estes dias na companhia de uns amigos, alguns bons momentos vividos nos ginásios. Grande risota, muita gratidão e naturalmente também algumas coisas azedas. Veio à conversa a generalização dos serviços de personal training como sendo uma recente forma de intervenção nos centros de fitness.

Os serviços de treino personalizado conhecidos como personal training, têm vindo a ser popularizados pelas grandes cadeias de ginásios, pelas revistas de fitness e diversos meios de comunicação social. Mas, não são nada de novo e muito menos recente. Talvez fossem mais conhecidos no meio do golfe, do ténis ou do atletismo, mas quando pensamos em ginásios, em melhoria da condição física ou musculação, há que dizer que até os reis Eduardo VII e George V de Inglaterra já tinham o seu personal trainer.

Os serviços de treino personalizado que vemos anunciados por ai, podem ser de dois grandes tipos:

1. treinos formatados onde o personal trainer apenas acompanha a aplicação da “receita de séries e repetições” de acordo com o objectivo do indivíduo (perder peso, aumentar massa muscular, etc.).

2. processo de criação e aplicação de um programa de treino adaptado às necessidades do indivíduo e permanentemente reformulado de acordo com os condicionalismos impostos pela vida da pessoa treinada.

Na primeira situação, faz um certo sentido um extracto de uma frase menos feliz num anúncio de um ginásio onde se podia ler na descrição do serviço de PT: “… serviço de acompanhamento personalizado…” Não podemos confundir com acompanhantes de luxo, gigolos, mas a associação é inevitável devido ao facto desta actividade ter vindo a camuflar as actividades relacionadas com acompanhantes e sexo. O mesmo ocorre com os(as) massagistas.

Sem dúvida que os centros de fitness são locais onde a relação humana é muito importante, onde a proximidade física é inevitável, mas isso não quer dizer que não tenhamos em conta o factor de proximidade na comunicação (um raio de 0 a 45 cm em nosso redor) com os clientes. Os maiores problemas surgem para os envolvidos quando esse espaço é frequentemente invadido por ambos, ou quando os observadores projectam uma imagem das pessoas envolvidas que é pouco favorável. De facto, não há fumo sem fogo e tanto a publicidade da UZO, como o cruzeiro de fitness recentemente realizado por uma cadeia de ginásios ilustram a imagem, a percepção que muitas pessoas têm do personal trainer e dos instrutores de ginásios em geral.

Numa reportagem da revista Sábado de 7 de Maio de 2009, intitulada: infiltrado no barco do amor (cinco dias num cruzeiro com viciados no fitness). Desvenda-se (imagino aquilo que não se pode publicar ou difundir em público) toda uma actuação dos participantes do cruzeiro em actividades mais relacionadas com sexo do que com o fitness (embora a actividade sexual possa ser uma boa actividade física, tenho dúvidas que possa ser um bom “exercício físico”). Paralelamente à reportagem, apresentam-se algumas situações comuns que ocorrem nos ginásios, espelhadas nas descrições descrições… O Playboy, A Prenda, A Peixeirada, O Playboy. Aqueles que trabalhamos há muito tempo nos ginásios, já passamos por situações idênticas ou vimos colegas viverem acontecimentos parecidos com consequências similares, mais atenuadas ou mais graves ainda. A forma como estão ilustrados na reportagem, está muito interessante e denota conhecimento do assunto. Quer clientes, quer professores, lidam com essas situações de forma diferente. Recomendo vivamente a leitura (não tenho comissões).

Que pena uma imagem tão pesada para uma actividade, que, quando bem orientada pode mudar vidas. Já sabemos que muitos ginásios se parecem demasiado às discotecas quer no público-alvo, quer na música… Mas não são simplesmente locais de diversão e socialização. Já todos sabemos que o sexo, o poder e o dinheiro controlam bastante as nossas vidas, mas nem todos os personal trainers são pessoas que procuram vida fácil, nem todos têm 40 ou 50 clientes num ano, nem todos se limitam a dar 4 ou 5 treinos a cada pessoa. Muitos têm alunos durante anos a treinar regularmente, reabilitam-nos de lesões, ajudam-nos a melhorar sua a auto-estima, melhoram a sua imagem, melhoram sobretudo a funcionalidade dos seus alunos, intervindo positivamente de forma a mudar completamente o stilo de vida dos seus clientes, dando lugar a uma transformação positiva.

A função do personal trainer pode antes ser vista como um processo que ajuda as pessoas a melhorarem a sua qualidade de vida através do exercício físico e da mudança de hábitos e estilos de vida. A intervenção do PT não passa simplesmente pela aplicação de uma receita de séries e repetições, mas pela “arte de cozinhar”. Um bom PT tem experiência, certificação e formação académica. Lidera através do exemplo, é organizado, criativo, motivador e com atitude positiva. Gosta de cuidar de pessoas, escuta atentamente, comunica de forma clara, vai directo ao assunto, é modesto… É sobretudo um educador. Na linguagem moderna, talvez se enquadre em parte no chamado coaching. Um líder de pessoas com conhecimentos de treino, nutrição e psicologia, que recorre a especialistas de diversas áreas quando os seus conhecimentos não alcançam a intervenção pretendida na mudança de processos.