Sair a jogar… Identidade… DNA… Ironias

evening field football field goal
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Passei as últimas três temporadas a ver semanalmente jogos de futebol juvenil, com os treinadores a insistirem em sair a jogar com jogadores sem recursos para tal, originando derrotas pesadas em grupos de jovens já por si desmotivados e preparados frequentemente para perder antes de jogarem os 80 ou 90 minutos.

Passei duas temporadas a ver o Mr. Lopetegui a irritar-se quando um defesa “apertado” dava um “chutão” para à frente; vi recentemente, equipas profissionais nos últimos 5 minutos de jogo a perderem por um golo de diferença, tentando sair a jogar e outras equipas perdendo por dois golos de diferença a terminarem o encontro com 3 passes consecutivos entre o guarda-redes e o lateral (provavelmente para passar tempo porque desejariam perder?). Tudo isto sob o “guarda-chuva” intitulado “identidade” ou DNA. Até hoje tenho muita dificuldade em identificar a “identidade” da maioria das equipas porque, por aquilo que me dão a entender, querem todas imitar outros jogadores e outras equipas. Exemplos:

  • todas defendem cantos com 11 jogadores praticamente dentro da área, mas depois reclamam que não conseguem sair para o ataque;
  • a maioria marca cantos enviando a bola no sentido do guarda-redes (trabalhando um pouco contra as leis da física), depois reclamam que o número de golos que resultam da marcação de um canto, diminuem;
  • os avançados correm mais para defender, do que para atacar; marcam menos golos porque supostamente dão intensidade ao jogo defensivo correndo que nem loucos atrás da bola junto da defesa adversária e depois falta-lhes um “Danoninho” quando tentam marcar golo, falta-lhes a melhor condição para decidir;
  • todas as equipas querem “sair a jogar” partindo do guarda-redes em passes curtos (quantos guarda-redes jogam bem com os pés?), os quais, embora mais fáceis de executar, sob pressão e quando não têm técnica para isso… Perdem a bola numa zona perigosa;
  • a maioria das equipas do campeonatos nacionais (incluindo algumas do 3º escalão), treina em segredo de porta fechada; depois reclamam que se sentem intimidados e mal preparados para defrontar as adversidades de um ambiente competitivo hostil; será por isso que agora querem que ninguém use o português vernáculo para se manifestar num estádio de futebol?! A partir de agora as claques vão começar a cantar: – Exmº senhor jogador da equipa adversária, faça o obséquio de ir para casa!
  • joga-se de noite mas treina-se de manhã;
  • bloqueios não vale 🙂
  • todas as equipas têm treinadores de guarda-redes em todos os escalões há mais de 30 anos, mas a “produção” significativa de elementos para essa zona específica deixa muito a desejar, lutando a seleção e os clubes mais ricos de Portugal com enorme dificuldade para a ocupação desse posto de trabalho por parte de portugueses, não se verificando que sejamos grandes exportadores de “goleiros” ou “guarda-metas”.
  • segundos antes de um jogador entrar em campo, “despeja-se” um conjunto de tácticas e “processos” criativos usando dezenas de esquemas em papel ou mesmo com um belo tablet (por isso já se desenvolveram proteções de chuva e anti-queda para os mesmos).

Lá porque agora utilizamos termos como:

  • transição rápida em vez de contra-ataque,
  • transição ofensiva,
  • intensidade (pelo que dão a entender, mede-se pelos metros percorridos e número de pancadas dadas),
  • espaço entre linhas,
  • linha da bola,
  • autocarro (penso que se referem a um conjunto de defesas sempre diante da baliza, ao estilo do que se passa sempre no andebol e embora também no futebol seja permitido pelas regras, chateia que se farta os treinadores de equipas cheias de supostos recursos técnicos e tácticos),
  • corredor lateral e corredor central,
  • box to box (podemos dizer que é tipo atletismo num campo de futebol, tendo como consequência frequente, alguns centros disparatados sem oposição ou uma frequente ausência de laterais na defesa quando necessário),
  • o jogo interior (que é tipo: vamos para o “barulho” e nem sequer conseguimos um livre à entrada da área, mas também se o conseguirmos, não acertamos na baliza),
  • os movimentos de rotura (é tipo o jogo contrário ao “jogo passivo” de “lateralização” de bola),
  • marcação alta,
  • duas linhas de 4…

E ainda falavam do Manuel Machadês. Eu cada vez percebo menos disto. Mas também eles fecham a porta dos treinos… Por vezes nem os próprios treinadores parecem perceber o que estão a dizer, chegando ao cúmulo de discutir com os jornalistas que viram tal como nós espectadores, um jogador passar a 90% do tempo numa zona do campo, mas só o treinador é que viu que no sistema dinâmico que ele montou, que o jogador estava sempre no lado oposto e aparecia ali por magia (embora não conseguindo sequer ser ilusionista).

A evolução pela terminologia, o facto de chamarmos esférico à bola, não esconde a falta de treino na modalidade, nem o aumento do interesse pela playstation, o foco excessivo no telemóvel ou a preocupação pelas chuteiras de 300€ em vez de treinos adicionais de remate (perdão! Finalização) ou a dureza dos agachamentos e peso morto para reduzir as taxas de lesão e aumentar o potencial físico dos jogadores.

Infelizmente, nos últimos cinco ou seis anos, vejo mais evolução na linguagem do futebol, nos meios audiovisuais, no controlo dos deslocamentos por GPS, nos elásticos, barreiras, colchões e cones utilizados nos treinos, do que na inteligência de jogo, na capacidade para efetuar passes longos, na capacidade para centrar uma bola sem oposição e colocá-la devidamente num colega em vez de fazer dois dribles e “despacharem” a bola de qualquer maneira, na capacidade para jogar nas costas da defesa, nos remates de fora da área (melhor dizendo: meia distância), na capacidade para tirar o “autocarro” da frente da baliza e encontrar espaços, na capacidade para jogar contra 10, na capacidade de gerir ambiente emocional de jogo dentro e fora do campo, na criatividade e eficácia das bolas paradas…

Para tudo isto, treina-se 90 minutos por dia 4 a 5 vezes por semana, porque qualquer processo de treino que envolva a comunicação e socialização de onze indivíduos é extremamente fácil e rápido de consolidar 🙂 É tudo muito científico.

Por incrível que pareça, continuo a aprender sobre futebol no Bar da SporTV. Pode ser útil e divertido 🙂

Personal Trainer – As 11 Estratégias Top Para o Sucesso

Reunimos neste pequeno texto algumas estratégias que sempre funcionaram independentemente dos ambientes, das pessoas e dos locais onde operamos ao longo destes 30 anos, durante milhares de horas, com milhares de pessoas diferentes.

1. Foco

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Vivemos hoje uma época de distracção. Solicitamos concentração, mas estamos muito treinados na distracção. O crossfit veio contribuir para maior ênfase em variedade, mas é impossível sermos bons em tudo. Por isso, a primeira grande ideia é focarmos a nossa atenção numa coisa de cada vez. Esse é o mesmo conselho para quem quer ser bom no crossfit: passar uns meses dando prioridade a um movimento, depois outra temporada a outro e assim sucessivamente. Dessa forma, se seleccionar bem os movimentos que aparecem na maioria dos WODs, será sempre mais bem sucedido do que aqueles que procuram progredir ao mesmo ritmo em tudo.

O personal trainer é um treinador gourmet. Deveria ser um profissional com boa formação e muita experiência, para poder fazer um fato à medida como faz o alfaiate ou criar pratos únicos e saborosos como um bom chef de cozinha. Para tal, tem de focar a sua atenção numa pessoa só. Toda a atenção. Se tiver 2 clientes em simultâneo está com um pequeno grupo, não é treino personalizado.

O personal trainer não é especialista em boxe, massagem, mobilidade, força, ginástica… Pode ter bons fundamentos em diversas áreas, mas haverá sempre uma base de trabalho.

Pessoalmente, considero que a minha especialidade é conseguir integrar bem as várias áreas do conhecimento como marketing, psicologia, sociologia e biologia durante um treino com uma pessoa. Por ter nascido como treinador no campo de futebol, crescido no ginásio, piscina e em escolas portuguesas, a experiência obtida nesses ambientes, é obviamente uma base de intervenção no meu trabalho. Suportado pela formação académica em educação física, gestão desportiva e psicologia, não esperem que eu invente nos meus treinos com artes marciais, dança ou brincadeiras com bolinhas e elásticos 🙂

2. Disciplina + Método + Controlo

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Existem 3 grandes razões pelas quais as pessoas necessitam ajuda de um coach, de um explicador, de um tutor, de um treinador:

a) Falta de auto-disciplina. A capacidade de cumprir uma rotina, um plano, de treinar quando está mais cansado, quando faz sol ou faz chuva.

b) Falta-lhes um método adequado para as suas necessidades. Quando temos 16 anos e vivemos em casa dos pais, quando andamos cheios de entusiasmo por sermos iniciados e temos 2h por dia para treinar, acabamos por usar todo esse tempo. Mas quando começamos a trabalhar, quando temos filhos e vida familiar intensa, a disponibilidade física, mental e temporal é diferente. O método usado para treinar 2h por dia já não serve. Embora as leis naturais sejam as mesmas, embora os princípios de treino se apliquem em ambos os casos, a realidade é bem diferente. É possível evoluir com 3 treinos por semana de 1h, mas o indivíduo que só sabe treinar com 2h por dia em 6 dias por semana, acaba por abandonar muitas das vezes por não poder aplicar o único método que conhece.

c) Por último, as pessoas não têm auto-controlo. É aí que entra o registo de treino, é ai que entram as aplicações de telemóvel, os diversos gadgets de punho, ou os anéis de controlo de atividade que procuram ajudar a criar disciplina e controlo.

3. Técnica => Intensidade => Endurance

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Um dos problemas da popularidade das corridas, dos trails ou do crossfit, é a falta de progressão e o excesso de volume numa fase precoce. Se mal dominamos a técnica e procuramos colocar demasiada intensidade e volume, arriscamos lesão. Enquanto não dominamos a técnica, não podemos colocar essa técnica sob stress (ex: efetuar muitas repetições em pouco tempo ou efetuar a técnica mal dominada no mínimo de tempo possível). Quem tem melhor técnica gasta menos energia. Isso é fácil de verificar na natação. Se eu dominar a técnica e procurar executar sob stress, consigo manter um padrão de movimento que respeite a física e a anatomia e assim, poder perdurar no tempo (endurance).

4. Física + Anatomia + Princípios do Treino

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As metodologias de treino podem ser muito diferentes, mas se não respeitarmos as leis da física, será tudo mais difícil de executar e arriscamos rapidamente lesão. Imaginem no agachamento, no press e no peso morto, uma barra que não está alinhada com o meio do pé. Dificulta imenso o exercício e obriga a tensões em pontos do corpo que não estão preparados para tal. O desrespeito pelas funções musculares e articulares, também leva a invenções de exercícios, técnicas que obrigam a um esforço inadequado de músculos que supostamente não deveriam ser os principais mobilizadores do movimento, desconforto generalizado e lesões muito comuns nas desproporções de trabalho parte superior com parte inferior do corpo, músculos de empurrar e músculos de puxar, etc.

Se me pedirem para verificar se o plano de treino B está bem feito, a primeira coisa que vou fazer é certificar-me que respeita as leis naturais do treino. Aliás, os princípios do treino deveriam ser aprendidos na prática por todos os clientes: sobrecarga, ação retardada e reversibilidade são muito desrespeitados pelos profissionais na criação de rotinas de exercícios.

5. Stress + Recuperação + Adaptação

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Treinar é sair da zona de conforto, é fazer algo ao qual não estamos habituados. Aplicamos assim um estímulo. Se deixarmos que o corpo recupere, este poderá produzir mudanças para se adaptar às novas exigências impostas por esse estímulo. Se treinarmos com demasiada frequência e não deixarmos os corpo recuperar, não haverá mudança positiva. Muitas metodologias de treino baseadas em grandes volumes e grande variedade de exercícios, não permitem uma recuperação adequada, gerando por vezes retrocesso, doença, overtraining, que são de certa forma, adaptações indesejáveis.

6. Seres bio+psico+sociais

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Uma pessoa quando treina, não é só um ser físico, mas cada vez mais assim é tratado pelos profissionais da atividade física: como se fosse um conjunto de interações bioquímicas condicionadas pela sua genética. Mas os fatores ambientais são responsáveis por mais de 70% daquilo que é o indivíduo. O estado de humor, o comportamento, a personalidade e os aspectos que conhecemos como psicológicos, têm de ser tidos em conta na hora de treinar pessoas. Por isso uma sequência de repetições 10-9-8…+1 funciona melhor com uma pessoa com perfil de afastamento. A cultura geral e desportiva, os factores familiares e socio-económicos, também condicionam a elaboração de um programa de treino, porque o ser humano é um ser social e as suas interações com outros indivíduos alteram positiva ou negativamente o seu estado. Esta abordagem bio-psico-social, tem vindo a ser cada vez mais utilizada na medicina também (felizmente). 

Muitos programas de treino esquecem que as pessoas fazem parte de um mundo real, não de um mundo utópico em que vivemos para treinar. As pessoas têm filhos, emprego exigente, deslocações, situações que não controlam (stress), dificuldade em preparar refeições e conseguir tempo de treino diário em slots exagerados de horas e horas como se fossem profissionais.

7. Coisas simples muito bem feitas com emoção

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Como em tudo na vida, são as coisas simples, muito bem feitas, de forma consistente que nos levam ao êxito. São os movimentos básicos repetidos de forma impecável e progressiva que nos levam de iniciados a intermédios ou avançados. Não são os exercícios de detalhe, os movimentos de reabilitação aplicados em pessoas saudáveis que  lhes vão melhorar significativamente o seu estilo de vida, a sua performance desportiva ou criar o bem-estar que procuram. Se aos movimentos básicos adicionarmos progressão e começarmos a gostar daquilo que fazemos, então o êxito está mesmo garantido e a sobrevivência assegurada.

8. Rapport + Comunicação VAKOG no aquário

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Muito antes de conseguirmos comandar, de acharmos que vamos impôr determinados exercícios ou um conjunto de repetições, temos de estabelecer rapport com um cliente, encontrar pontos comuns e definir uma base de comunicação visual, auditiva, cinestésico e olfativa para ajudarmos a pessoa a ir do seu estado atual para o estado desejado. Tudo isto, conscientes de que atuamos numa área de serviços, na qual se vendem “atos humanos” e onde estamos permanentemente sob observação de outros clientes e de outros profissionais. Aqui não há treinos à porta fechada, a não ser no domicílio dos clientes (situação que só recomendo em circunstâncias muito especiais e de preferencia se eles tiverem um espaço próprio de treino).

8. Força é a base

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A força é a capacidade base de todas as outras capacidades que conhecemos por velocidade, resistência, equilíbrio e agilidade. Mesmo a capacidade de coordenar várias ações motoras irá depender de algum nível de força. Podemos dizer que, se queremos carregar um camião com 50 fardos de palha, temos de ter força para carregar um fardo de palha. Sem isso não conseguimos completar a tarefa. Se queremos equilibrar-nos em cima de uma plataforma instável, temos de ter força para nos segurarmos numa plataforma estável. Por isso, é importante não colocar uma pessoa em cima de um situação instável; não colocar ninguém a saltar para cima de uma caixa antes de ser capaz de fazer 40 ou 50 agachamentos, correr à máxima velocidade (sprint) antes de ser capaz de fazer corrida lenta durante alguns minutos; agachar com barra antes de ser capaz de agachar em amplitude total com o seu peso corporal; de fazer “pino” antes de ser capaz de fazer 5-10 flexões de braços; fazer kipping toes to bar ou pullups antes de ser capaz de ficar suspensa cerca de um minuto na barra; fazer snatch antes de fazer overhead e peso morto com boa técnica e nível de força próximo do seu peso corporal, etc, etc, etc. Qualquer programa de treino de jovens ou idosos, terá como base o treino de força. Por isso, quando não vemos agachamento, press, peso morto, elevações ou uma progressão destes movimentos básicos, será difícil e arriscado efetuar com segurança outro tipo de movimentos que exijam mais coordenação ou velocidade.

10. Mudar estados – mudar hábitos

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Para resolver problemas, temos de mudar o estado em que abordamos o problema. Perder peso, melhorar, saúde, melhorar condição física, ter mais energia, diminuir stress, tudo implica mudar estados. E mudar estado do professor pode influenciar a mudança de estado no aluno. Mudamos estados, mudando o nosso foco, pensando noutra coisa, mudando a forma como representamos a realidade na nossa mente em termos de sons, imagens e sensações. Mudamos estados, mudando a forma como nos movimentamos, a forma como respiramos, a nossa postura, a nossa expressão. Para ajudar a mudar o comportamento de uma pessoa, o primeiro a mudar somos nós.

Reconhecemos que todos querem um processo rápido de mudança física e mental, por isso a indústria do fitness investe milhões em dispositivos e dietas milagrosas, para ir de encontro às necessidades dos clientes ou para criar necessidades não existentes nesses mesmos clientes. Basta ver a parafernália de acessórios que as pessoas levam para um treino no qual a sua demonstração de força ou condição física geral é medíocre.

Tudo o que se contrói rápido, destrói-se depressa. Processos rápidos e drásticos de perda de peso, rotinas de treino militares aplicadas a sedentários, muita imposição e uma permanente e violenta saída da zona de conforto, não costumam criar mudanças a longo prazo. Mudar hábitos, sempre foi a solução. A ciência diz-nos que podemos tardar entre 21 a 128 dias a alterar um hábito. Daí que seja necessário focarmos-nos num hábito que tenha grande impacto nas nossas vidas e trabalhar essa questão, em vez de tentar tudo ao mesmo tempo.

11. Progresso = Sucesso = Felicidade

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Progresso é o objetivo do treino. Por isso é mais fácil ter êxito numa atividade em que haja uma forma fácil de mensurar o progresso em termos de tempo, carga ou distância. Daí a procura da balança como forma de medir progresso nas pessoas que pretendem ser mais magras.

Progresso significa aplicar o já mencionado princípio de sobrecarga ou da intensidade. A pessoa que pega em mais peso é sempre maior e mais forte. Será muito difícil medir progresso no trabalho complexo com elásticos, nas aulas onde a confusão entre a preocupação coreográfica e a aplicação dos princípios de treino é evidente.

Embora a felicidade deva ser algo interior, sabemos que está intimamente ligada ao sucesso, ao auto-conhecimento, à perceção de sermos capazes de fazer algo, de resolver um problema ou vencer um obstáculo. Daí que progresso, sucesso e felicidade, estejam interligados.

As vendas são naturais quando o serviço é bom. Se os clientes estiverem satisfeitos, eles vão recomendar. Reparem que os negócios bem sucedidos fazem pouca publicidade (não necessitam dizer: “-Eu sou bom!”).

Bons treinos!

Entrevista a Bruno Teixeira: powerlifter/personal trainer

0Nome: Bruno Teixeira
Idade: 25 anos
Naturalidade: Chaves
Modalidade: Powerlifting
Contacto: obrunoteixeira@gmail.com

Há quanto tempo fazes powerlifting?

A minha primeira competição de powerlifting foi em 2013 e a última foi em 2017. Durante este tempo competi de forma contínua, mas já treinava para Powerlifting antes de 2013 e continuei a treinar depois de 2017, por isso “fazer” powerlifting pode significar muita coisa dependendo de cada um, para alguns só faz powerlifting quem compete e outros nunca competem e dizem que fazem powerlifting… Resumindo, pode-se dizer que faço powerlifting há mais de 5 anos.

Como começaste?

A verdade é que o meu início nesta modalidade foi acidental e diria até algo cómico ah ahah. Poucas pessoas sabem a história… Para melhor entendimento terei de explicar desde o princípio.
Desde os 14 anos que frequento ginásios, tendo na época começado com musculação num ginásio da minha cidade, com o objetivo de perder peso. A verdade é que os pesos passaram a fazer parte do meu dia desde então, mas ao contrário da maioria sempre me interessei mais pelas barras e os halteres do que pelas típicas máquinas de musculação, o que me permitiu com o decorrer dos anos e mesmo após ter perdido bastante peso, ganhar bons níveis de força.
Optei por entrar na Licenciatura em Ciências do Desporto e foi no 1º ano da Licenciatura,
que após alguns meses de paragem nos treinos pela primeira vez desde os meus 14 anos
regressei aos mesmos. Os meus níveis de força não se tinham perdido muito e comecei a
melhorar rapidamente. Foi nessa altura que encontrei na internet publicidade a dois eventos diferentes, surgindo então dois caminhos à minha frente, pois eu queria participar em algo que me realizasse e achava que estava numa boa forma. Esses dois eventos eram o Campeonato Europeu de Powerlifting de 2013, que teria lugar
em Portugal em Vila do Conde e se não estou em erro a 1ª ou 2ª edição dos Promofit Games. Eu não sabia ainda o que era Powerlifting e conhecia pouco o Cross Training, mas mesmo sem saber, os meus treinos aproximavam-se muito desses dois “métodos”. Investiguei melhor sobre o que era o Powerlifting e vi que as marcas dos campeonatos nacionais anteriores não eram muito diferentes do que eu fazia no ginásio. Mas o que me fez realmente escolher o Powerlifting foi não ter uma câmara ahahah. Ou seja, para participar nos PromofitGames eu teria de filmar o treino e enviar para aprovação, só que eu não tinha uma câmara e o meu telemóvel filmava pessimamente, logo decidi-me por participar no Powerlifting.
Entrei em contacto com o Sandro Eusébio, o presidente da federação e um dos homens mais fortes de Portugal, que me incentivou desde o início a comparecer no campeonato nacional que daria acesso ao Europeu (eu nem sabia disso lol). Com ajuda dele e de mais algumas pessoas, fui fazer a minha primeira prova de Powerlifting sem sequer saber as regras nem o funcionamento e com material emprestado pelo Sandro pois eu não tinha rigorosamente nada, nem um cinto ou umas ligas para os pulsos. Fui muito bem recebido e apaixonei-me por esta modalidade inclusiva, onde vi em prova novos, velhos, gordos, magros, altos e baixos e percebi que ali era o meu lugar. Acabei por ser Campeão Nacional nesse ano na minha categoria de peso e de idade, sem saber muito bem como, apurando-me para o Campeonato da Europa desse ano.

Quais foram os teus melhores resultados?

As minhas melhores marcas oficiais foram no Campeonato Nacional de 2017, 550kg de total (200kg de Agachamento, 110kg de Supino e 240kg de Peso Morto). Nesse ano competi na categoria de -90kg. Apesar de essas terem sido as minhas melhores marcas e no Powerlifting o que importa é o peso levantado, considero que tive anos melhores, tal como o ano de 2016 em que fui campeão nacional em Júnior, na categoria de -75kg, com a marca de 515kg de total (190kg de Agachamento, 97,5kg de Supino e 227,5kg de Peso Morto) o que para alguém com apenas 75kg e júnior, foram umas marcas boas para o que se fazia em Portugal nesse tempo.

Quem te treinou e quem te influenciou?

Nunca tive treinador, sempre fui um autodidata! Venho de uma cidade onde quando pela
primeira vez fiz peso morto, disseram que eu era maluco e nunca tinham visto aquele
exercício na vida. Quando fui para a faculdade em Vila Real as coisas melhoram um pouco, mas continuava a ser o único powerlifter na região. Felizmente o Crossfit teve a
consequência de impulsionar e vulgarizar o treino com pesos, porque mesmo em Vila Real (anos de 2013 ou 2014) lembro-me de não me deixarem treinar ou nem sequer terem pesos suficientes para o que eu fazia naquela época. O único espaço onde me deixavam treinar só dispunha de 180kg de peso, incluindo a barra.
Apesar disso tive algumas pessoas que me deram conselhos e que me influenciaram de
alguma forma. Uma das pessoas foi o Sandro Eusébio e pessoas do seu núcleo, que sempre me deu conselhos que me fizeram melhorar bastante, pena ter tantos quilómetros a separar-me de aprender mais, mesmo assim ajudou-me muito.

Após o Campeonato da Europa de 2013, também conheci o Nuno, que era do Porto e
treinava powerlifting, mas que estudava e era investigador na UTAD (se não estou em erro) e tinha família na zona, o que fez encurtar a distância e me permitiu obter mais algum conhecimento, através das pequenas dicas que me ia dando aos vídeos que eu fazia dos meus treinos. Também o Paulo Sena me influenciou de alguma forma quando foi meu professor de educação física no secundário, aguçando a minha curiosidade pelo que efetivamente resulta.
Como nunca tive quem me treinasse ou me ensinasse, muitos autores, powerlifters de topo e pessoas relacionadas com o treino de força acabaram por me influenciar de alguma forma, pois era o conhecimento que eu bebia. Desde Mark Rippetoe, Louie Simmons, Mark Bell, Konstantine Konstantinov, Boris Sheiko, Chris Duffin, Dan Green, Jim Wendler, Andrey Malanichev, Benedikt Magnusson, Ray Williams, Blaine Sumner, Yury Belkin, Brandon Lilly, Bill Kazmaier, Mikhail Koklyaev, Brian Shaw, Mike Thuchscherer, Dave Tate, Kirk Karwoski, Paul Anderson, Zydrunas Savickas, Ed Coan, Andy Bolton, JP Sigmarsson, Shwarznegger, Ronnie Coleman, Franco Columbo, etc etc. Muitos mais nomes poderia acrescentar, desde autores a treinadores, atletas de Powerlifting, Strongman ou BodyBuilding, todos me influenciaram de alguma forma.

Conheces alguém que seja bom atleta no powerlifting sem ter boa genética para
tal?

Sim. Ao contrário de outras modalidades, a genética não é o mais importante no powerlifing, mas sim a mentalidade e a capacidade de sacrificar coisas pelo powerlifting,
No pouco tempo que tenho deste desporto já vi imensos atletas a desistir, alguns com um
potencial genético fantástico. Isto acontece porque nem todos estão dispostos a fazer o que é preciso fazer para se competir. Não é uma vida fácil, muito menos em Portugal onde não há apoios, somos um desporto amador onde tudo nos sai do “bolso e do lombo”, como eu costumo dizer.
Portanto para se ser um bom powerlifter a genética é o que importa menos na minha
opinião. O que importa mais é ter a capacidade de ser persistente e sacrificar muitas coisas pelos objetivos e ter boa técnica nos movimentos. Sacrificar a vida pessoal, ignorar a dor, gastar todo o dinheiro e todo o tempo livre a treinar e com este desporto. Como dizia Muhammad Ali “They have to have the skill, and the will. But the will must be stronger than the skill.”

Quais são os atletas ou treinadores mais fora do comum que conheces? Porquê?
Que pensas deles e dos seus métodos?

Louie Simmons! Por tudo o que fez e faz e pela personalidade. No ginásio dele é só campeões, usando uma metodologia um pouco diferente do que estamos habituados. Também o russo Boris Sheiko apresenta métodos diferentes, mais ligados aos soviéticos. Mike Thuchscherer também me tem despertado algum interesse. Atletas, há vários fora do comum, não consigo destacar.

Treinaste outros atletas para serem capazes de fazer aquilo que tu fazes? Eles
conseguiram replicar os teus resultados?

Sim, já treinei alguns atletas. Dois deles conquistaram o pódio e se não estou em erro um
deles chegou mesmo a ser Campeão Nacional de Supino e Peso Morto e tinha uma genética espetacular para força. Surpreendentemente nenhum deles continua a competir. Muitos se interessam pela modalidade, mas são poucos que se mantêm a competir quando percebem os sacrifícios que precisamos de fazer diariamente e a maioria das pessoas não está para fazer sacrifícios e prefere desistir. No início todos gostam porque a progressão é mais rápida e os sacrifícios são menores, mas quando a progressão começa a ser mais lenta, ou são fortes mentalmente para continuar o caminho, ou então desistem.

Quais são os grandes erros e mitos que vês no treino?

Há muitos erros que vejo nos treinos. Um dos erros e mito também, é a necessidade de ter de variar o treino. Isso incutiu-se de tal forma que hoje em dia o treino é demasiado variado não permitindo uma evolução e uma sobrecarga favorável a melhorias. Por exemplo, com o chamado “treino do dia”, que muitos fazem com exercícios, séries e repetições à sorte, sem qualquer fundamento, colocando assim em causa o 2o Princípio de Treino (Princípio da Sobrecarga), para não falar também dos outros princípios de treino que são completamente postos de lado por alguns indivíduos, quando deviam de ser a base de qualquer treino.
Posso também falar do mito dos joelhos não poderem passar a ponta do pé no agachamento ou do peso morto fazer mal as costas. Quem diz isso é claramente alguém que não percebe rigorosamente nada de treino.
Estar sempre a mudar de plano de treino só porque passado umas semanas não está a
resultar ou então mudar mesmo quando o plano está a dar resultado, só porque sim,
também é um erro grave.
Outro erro é imitar o plano de treino de atletas de topo ou pagar balúrdios por “receitas”
(planos de treino) elaboradas por instagrammers que não percebem nada do assunto. Sempre ouvi dizer que se quisermos saber como um cavalo de corrida foi o vencedor, perguntamos ao treinador e não ao cavalo.

Quais são as maiores perdas de tempo no treino?

Querer evoluir sem fazer os exercícios básicos que estão connosco há centenas de anos. Hoje em dia procura-se muito o exercício acessório, o elástico e mil e uma coisas que não fazem sentido para quem não faz os básicos e domina as técnicas dos básicos. Com meia dúzia de exercícios é possível fazer um plano que resulte quer para o ganho de força, hipertrofia ou perda de massa gorda. A chave não é a variedade, mas sim a técnica e a intensidade! Dá-me pena quando vejo muitas pessoas a sacrificarem ser fortes para serem “rainhas dos burpees”.
Outra perda de tempo é treinar sem objetivos e não fazer o registo do treino.
Já me esquecia… acabem com a almofadinha na barra nos agachamentos!

Quais são os teus livros, vídeos ou recursos favoritos sobre o treino para
o powerlifting?

Vários eheheh… Para facilitar recomendo começar por um livro que costumo citar sempre e acho que serve de base para o treino de força em geral (Starting Strength do Mark Rippetoe). Acho um ótimo manual para se começar no treino de força em geral, tal como o do Jim Wendler. Depois há outros ligeiramente mais complexos e mais ligados ao
Powerlifting como o Cube Method do Brandon Lilly, Juggernaut Method do Chad Wesley
Smith, o livro do Mike Thuchscherer, os livros da West Side Barbell ou do Boris Sheiko
também são bons.
Em recursos eletrónicos recomendo o site T-Nation, o Powerlifting To Win e o Strong Lifts e canais de youtube como o do Starting Strength, Mark Bell, Juggernaut Training Systems, Chris Duffin, Stan Efferding, Brandon Lilly, Boris Sheiko, Donnie Thompson, Powerlifting Motivation, Alan Thrall e Meg Squats, por exemplo.
Hoje em dia a informação é tanta que para alguém que é iniciado pode ser em demasia e
levar a confusão.

Se as pessoas tiverem de começar a treinar sozinhas, o que recomendarias?

O que recomendei em cima pode ter imensas informações que podem ajudar a quem quer começar a treinar sozinho, mas como hoje em dia a informação é tanta, é necessário encontrar alguém que nos ajude a interpreta-la.
Quando eu comecei não tinha ninguém com quem treinar, mas hoje em dia as coisas já não são assim. Recomendo por isso encontrar um parceiro de treino, pois é importante
essencialmente por questões de motivação.
Outra recomendação que faço é procurarem alguém com formação e/ou conhecimento
sobre o tema, neste caso o Powerlifting e evitar cair em banha da cobra, pois não faltam
pessoas nas redes sociais intitulados de doutores e de atletas maravilha, quando nem para eles sabem.
O powerlifting tem muito o “espírito de comunidade” e facilmente se encontra ajuda. Há
hoje várias pessoas no powerlifting português habituadas a treinar outras e alguns até com formação académica (não que isso seja o mais importante).
Se possível comprar uma câmara ou utilizar o telemóvel e filmar os treinos. Desse modo se alguém vir o vídeo facilmente consegue aconselhar algumas coisas, se for alguém experiente e com formação, melhor ainda.
No caso de não poderem treinar em ginásios, podem sempre treinar em casa, basta uma
barra, uma rack, um banco e uns pesos, para terem um treino mais efetivo que 90% das
pessoas que frequentam um ginásio.
No que toca a templates de treino, para um iniciado um template Starting Strength, Strong Lifts, Madcow ou Bill Starr. Apesar de com estes “planos”, que não são de todo
personalizados, se conseguir alguns resultados, mais importante que o plano é aprender a executar os movimentos com boa técnica e a melhor forma de aprender isso é ter alguém que nos ensine.
Se quando eu comecei tivesse ao meu dispor os recursos que existem hoje, teria certamente contratado um treinador.

Quais são os principais erros que os novatos fazem quando treinam?

Achar que Roma se contruiu num dia! O treino leva o seu tempo e é preciso aprender a
respeitar esse tempo. Os novatos muitas vezes acham que vai ser tudo rápido e que os
resultados vão surgir a curto prazo, que hoje fazem 100kg de agachamento e que daqui a
um mês ou dois vão estar a fazer 200kg, mas as coisas no mundo real não funcionam assim, levam o seu tempo. Não é por verem nas redes sociais pessoas a ter evoluções fantásticas, que isso vai acontecer, porque muitas vezes, para não dizer sempre, essas pessoas têm ajuda de “doping”, o que me leva ao segundo erro.
Outro erro que os novatos cometem é devido à necessidade de querer evoluir rápido,
optarem por caminhos mais curtos, começando muitas vezes a tomar esteroides
anabolizantes, doping, jarda ou o que lhe quiserem chamar, sem sequer terem tido tempo para conhecer as maravilhosas adaptações do treino e constatarem todo o potencial que podem atingir sem precisarem disso. Isso quanto muito é para atletas de alto nível que querem bater recordes do mundo, não para um novato… Infelizmente vejo cada vez mais novatos a optar pelos “atalhos”.
Posso ainda salientar o erro de acharem que a técnica não é importante, quando é a base de tudo e só chega mais longe quem possui uma boa técnica, mesmo que tenham imensa força bruta.
Outro erro é enquanto iniciados quererem os equipamentos da melhor qualidade e ter uns sapatos de halterofilismo de 200€ quando têm um agachamento que vale 50 cêntimos! Há muito para refletir nesta frase…

Se me treinasses durante 4 semanas para uma competição de powerlifting e
tivesses um milhão de euros para gastar, como seria o treino? E se fossem 8 semanas?

Ninguém se prepara para uma competição de Powerlifting em 2 meses, muito menos em 1 mês! É um trabalho que exige um ciclo de treino mais alargado. Num mês ou dois não se vai construir nada de relevante, quanto muito pode-se fazer uma fase de “peaking”, mas já tem de existir um trabalho grande que venha detrás.
Portanto vamos dobrar as semanas de treino e dividir o valor, pois em 4 meses e com 500
mil euros já se consegue treinar para uma competição de uma forma eficaz, eu não tinha
esse dinheiro e treinava eh eh eh. Não acho o dinheiro um fator preponderante para se
treinar melhor, quanto muito pode-se comprar material de treino de melhor qualidade,
barras de melhor qualidade, pesos de melhor qualidade, etc. Mas sempre que penso nisso lembro-me do treino do Rocky Balboa vs o treino do Ivan Drago no filme Rocky IV… Nem sempre quem tem o melhor equipamento e as melhores condições de treino é que se torna o vencedor.

O Princípio de Paretto, diz-nos que 20% dos nossos esforços, geram 80% dos
resultados. Onde colocarias os 20%? Como ordenavas as fases dos 20%?

Pergunta complicada. Foco, disciplina, dedicação, determinação, motivação, técnica,
descanso… vários fatores são importantes para se obter resultados. Se queremos 100% de
resultados, teremos que ter 100% de esforço. Pessoalmente não considero que com pouco
esforço se consiga resultados de excelência ou bons, quanto muito conseguem-se resultados medíocres, por isso se queremos ter bons resultados teremos que ter o máximo empenho e esforço.

O que têm em comum os grandes atletas de powerlifting?

A vontade infinita de serem os melhores ou o melhor que puderem ser.

O que é que faz a diferença nesta modalidade? Quais as peças-chave?

A minha resposta anterior faz todo o sentido aqui também. É importante como eu costumo dizer, trabalhar em 3D – Dedidação, Disciplina e Determinação. A diferença nesta modalidade está na mentalidade acima de tudo, depois podemos também considerar a técnica nos movimentos, ser consistente nos treinos e acreditar naquilo que se está a fazer.
É importante treinar duro, cada treino como se fosse o último, cada kg a mais como uma
vitória na batalha daquilo que é a grande guerra por levantar mais peso. Não ter medo de fazer sacrifícios pessoais e sociais e ser corajoso, pois ninguém se mete de baixo de barras com centenas de quilos se não tiver coragem. E descanso, um bom e recuperador descanso, pois até Deus descansou ao 7º dia.

O que faz de ti uma pessoa diferente?

Sou apaixonado pela modalidade e acho que isso é o mais importante. Não tive treinadores, nem as condições de treino que muitos tiveram. Ser o único powerlifter em toda uma região, não ter ninguém perto de mim com quem aprender, não ter parceiro de treino (porque os que tentaram desistiam por não terem estofo para treinar duro), não ter condições de treino, não me deixarem treinar em vários ginásios por bater com os pesos ou por não terem pesos para mim ou barras que aguentassem, nunca ter tomado esteróides e apesar disto tudo ter conseguido as marcas que consegui (que hoje podem já não ser tão especiais, mas para mim, nas minhas condições foram) e ter conseguido ganhar um campeonato da europa e 5 campeonatos nacionais consecutivos e ter ainda um 5o lugar num mundial, me podem tornar um pouco diferente.
Licenciei-me em Ciências do Desporto e acabei por me tornar Mestre em Ciências do
Desporto no ano passado com especialização em Desportos Coletivos na área da análise da performance. Conheço bem os desportos coletivos e os individuais, o mundo teórico e
científico e o mundo prático. O meu maior conhecimento foi adquirido debaixo da barra a tentar e a errar e a aprender com esses erros. Já tive 65kg e 100kg de peso corporal, umas vezes por opção, outras não.
Ando no mundo dos pesos há mais de 10 anos, já experimentei muita coisa na pele, já li
muito e estudei muito, já pratiquei muito e sacrifiquei muitas coisas para conseguir os
objetivos a que me propus. Já treinei várias pessoas com objetivos muito diferentes, já
ensinei pessoas do zero e já treinei pessoas que levantavam mais do que eu.
Tudo isto não faz de mim melhor ou pior atleta, melhor ou pior treinador, faz apenas com que seja diferente, tendo a minha própria história e percurso.

Quais os teus grandes objetivos como atleta?

Neste momento os meus objetivos são ligeiramente diferentes pois encontro-me a
recuperar de uma lesão bastante grave que segundo consta já cá estava a vários anos
(possivelmente antes até de começar a competir), mas que só no último ano me deu
problemas. Fiz vários meses de tratamento e agora tenho retornado ao treino
vagarosamente, começando do zero, apenas com a barra.
É duro, pois se esta pergunta me fosse feita em 2017 eu diria que o meu objetivo como atleta seria ser campeão do mundo e quem sabe bater um recorde europeu ou mundial, pois quando estava em boa forma, várias vezes olhava para a lista de recordes, sabia o nome dos atletas que estavam lá e as marcas que eram recorde e queria um dia bate-los e sentia-me próximo.
O azar bateu-me à porta e hoje em dia o meu objetivo é recuperar plenamente e a longo
prazo tenho como objetivo voltar a competir, após isso, o que tiver de ser, será, porque a
sorte também bate à porta! Só espero estar lá para abrir eheheh.

Agora és tu o entrevistador. Podes fazer apenas uma pergunta a cada um destes
grandes atletas.

a. Que pergunta farias ao Ed Coan?

O que achas de “novos” equipamentos de treino como as máquinas isocinéticas que têm
vindo a (re)surgir e que tu já usavas na tua cave, lá nos anos 70, antes mesmo de começares
no powerlifting?

b. Que pergunta farias ao Andrzej Stanaszek?

Dada a vantagem mecânica, porque não há mais anões a fazer powerlifting?

c. Que pergunta farias ao Sheriff Othman?

No supino, o leg drive é um mito?