Reflexões sobre curiosidade, ler, escrever, fazer contas e a obsessão em dar matéria.

Sempre me lembro de ser um rapaz muito curioso. Quando aprendi a ler, comecei a devorar livros que tinha em casa dos meus pais e dos meus tios, onde passei muito tempo da minha infância.

Os meus trabalhos de casa nos primeiros 6 anos de escolaridade, eram feitos em consultórios médicos, onde minha mãe trabalhava.

Esta curiosidade não parava e aos 14 anos já tinha lido uma enciclopédia chamada “ler e saber”, o livro Papillon e outras fontes que me despertavam curiosidade tremenda no início dos anos 80. Mas não consigo explicar porque era assim e compreendo que outros não tenham essa curiosidade, ou que a manifestem de forma diferente.

A partir do momento que sabemos ler, escrever e fazer contas, temos as ferramentas base para ir em busca de informação e desenvolver conhecimento.

Na atualidade, é possível adquirir toda a informação teórica sobre qualquer assunto, incluindo medicina, física quântica, química, ou outro conteúdo qualquer.

Já não fazemos isso usando o primeiro método de ensino à distância chamado livro, mas através de podcasts, videos e outras ferramentas interativas.

Podemos ter o problema de filtrar a informação porque poucos nos ensinam a refletir sobre quem publicou, sobre o que estamos a consumir e qual a sua credibilidade. Cada vez temos mais pessoas que falam sobre mudar fraldas e nunca mudaram nenhuma, ou comentadores que tudo comentam mas não informam.

Uma notícia é um facto. Aprendi que uma noticia nos dá respostas sobre quem, o quê, onde, quando, como e eventualmente o porquê de um acontecimento. É ai que entra o comentador. Quando perguntamos: – Como? Obtemos como resposta um processo. Quando perguntamos: – Porquê? Vem uma história, um conjunto de razões, vem opinião, crítica, hipóteses, etc.

Ao ler, temos de perceber que a pessoa que comenta: omite, generaliza ou distorce informação. Por isso podemos usar questões para determinar isso mesmo na noticia, no trabalho publicado ou no estudo que tenta generalizar conclusões com uma amostra de 10 indivíduos. Eis algumas interessantes a fazer perante algo que lemos, ou algo que escutamos:

Como?

O quê?

Quando?

Onde?

Quem especificamente?

Quem disse?

De acordo com quem?

Toda a gente?

Sempre?

Nunca?

Ninguém?

Nada?

Todos?

O que queres dizer com isso?

Comparado com quem?

Comparado com o quê?

Como sabes?

O que te impede?

O que aconteceria se conseguisses?

Se temos um assunto, algo que nos excita, se queremos aprender e temos as ferramentas base, em 2020, podemos fazê-lo como eu nunca pude nos anos 80. Podemos ter mentores à distância, modelar comportamentos e formas de comunicar, podemos observar como se faz uma cirurgia… Mas…

Necessitamos praticar. Sim! Para saber mudar fraldas, temos de as mudar. Para saber cozinhar, não basta saber as receitas e os procedimentos de memória.

Onde quero chegar com esta reflexão?

O professor que se acha dono do conhecimento, tal qual o sábio de há uns séculos atrás, ainda não percebeu que tem de ser um facilitador. O treinador não pode limitar o progresso dos seus atletas, só porque nunca conseguiu fazer melhor do que 12 segundos aos 100m. Mas muitos professores fazem isso mesmo. Outros já perceberam que não é essa a via para mostrarem a sua importância.

O aluno pode não ter disciplina, pode necessitar de um método e um processo de controlo. Mas dar matéria, ser um leitor, avançar com conteúdos que até poderão estar obsoletos em 10 anos, não é uma necessidade premente na atualidade. Sabemos que a escola funciona porque tem datas, objetivos e processos de controlo. A escola não é eficaz nos conteúdos que procura transmitir e ainda está formatada pela fase da revolução industrial. A utilidade do processo de escolarização, está cada vez menos no conteúdo.

Ou seja, eu posso saber ler, escrever e fazer contas, mas não ter algo que me excite, uma visão clara daquilo que pretendo, não ser disciplinado nem contabilizar o meu progresso. Isso sim é um problema de aprendizagem e necessita de ajuda de um professor.

Porque educar é preparar para a vida. Porque a educação formal é muito mais do que ler um livro e esperar que essa informação perdure no cérebro e promova algum tipo de mudança positiva.

Bons treinos!

Mudar fraldas

Podes fazer um curso superior sobre como mudar fraldas e até conhecer a física e química da fralda, a psicologia do bebé (como se houvesse grandes padrões) e podes até estabelecer uma boa relação com o recém-nascido, mas… Tens de passar muitas mais horas a mudar fraldas do que a estudar a teoria da fralda se quiseres ser um bom mudador de fraldas.